segunda-feira, 12 de junho de 2017

Natureza betonada

[funchal 38] Não será pela betonagem de superfícies que se vão evitar tragédias futuras, mas por uma muito maior sabedoria aplicada ao local de construção e às próprias formas e modos de edificar. A arquitetura tem de ser pensada de modo diferente, de modo mais ativo na defesa contra as intempéries. Não se pode lutar contra a Natureza, mas saber interpretar as suas dinâmicas de mudança, o seu carácter evolutivo, saber ler os sinais que ela nos dá. Todas as espécies biológicas procuram formas de equilíbrio momentâneo num meio de grande complexidade e dinamismo. A arquitetura tem que ter uma plasticidade evolutiva e o desafio do desenho integrador e de diálogo com as várias forças que se jogam na ilha da Madeira. Compromisso e cumplicidade no habitar. O respeito pela natureza específica do lugar. Se a expressão de fenómenos naturais é inevitável, ciclicamente, as suas consequências podem ser menos nefastas se a ocupação do território e as formas arquitetónicas forem desenhadas com o rigor que deriva de um olhar atento e uma investigação cuidada.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

domingo, 11 de junho de 2017

Desenho

[funchal 37] Trazer o desenho para uma postura mais ativa de defesa ‘contra’ a Natureza. Temos que, permanentemente, procurar soluções de adaptação. Mas sabemos que há situações que são de evitar. As cheias podem regressar, o fogo pode voltar. A vegetação vai voltar a crescer nas ribeiras, nos seus declives de mais difícil acesso. E esta vegetação é necessária para a fixação das terras e das penedias. Este é um dos fatores mais seguros para controlar a erosão. Ao mesmo tempo “vegetal” é sinónimo de vida, de nichos ecológicos ricos e de biodiversidade.
Funchal. 2017

Apagamento identitário

[funchal 36] Mesmo depois das obras, as ribeiras do Funchal vão continuar a estruturar a malha urbana da cidade, como sempre o fizeram, mas deixarão de ser uma referência de Natureza no coração da cidade. Daí advinha a sua força, o seu singular carácter telúrico. Está em apagamento essa tão forte memória, essa textura de uma cidade antiga, sobrevivente. Uma das suas mais fortes marcas identitárias. Agora é como que cortado um pacto que se estabeleceu com a Natureza há séculos atrás, no período da fundação da cidade.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Terra

[funchal 35] As ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes são a incursão de Natureza na malha urbana, trazem a montanha, a expressão geográfica mais forte e intensa da Madeira, para o centro da cidade. As duas últimas tragédias foram transportadas pelas ribeiras. Nas cotas baixas permanecem as obras de regularização das paredes e solo dessas linhas de água. É ainda o resultado de uma intervenção ditada por essa tragédia maior que foi o dia 20 de Fevereiro de 2010, quando chuvas inusitadas se transformaram em caudais destruidores. Curiosamente foram as ribeiras, com as suas paredes seculares, construídas em pedra, que melhor resistiram aos violentos caudais. O problema não estava nas ribeiras, mas em situações pontuais em que, a montante, se construiu no seu leito de cheia. Essas obras de betonagem das paredes, depois de concluídas, certamente não vão evitar cheias maiores, com aquelas que aconteceram. Haverá sempre tragédias que não se vão poder evitar, que vão ser imprevisíveis, é o que nos diz a história do planeta que habitamos e do povoamento humano dos lugares.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A cidade pobre

[funchal 34] À medida que nos afastamos do coração da urbe e subimos as cotas de implantação, maior será a carência económica das populações. Não deixa de haver, no entanto, exceções a esta regra. Mas, curiosamente é neste perímetro de maior pobreza que podemos observar alguns exemplos muito interessantes de arquitetura popular contemporânea, feita sem projeto, nem arquitetos, que atualmente continua a exibir soluções muito qualificadas para a resolução de problemas espaciais concretos. Há uma certa constância nos modelos de edificar no Funchal. Em muitos casos lemos o trabalho sobre o ínfimo detalhe, particularmente na articulação com os terrenos inclinados e as vias de circulação. Esse detalhe existe em muitas construções, por vezes sublimes, mesmo que com materiais pobres. A cidade atual é feita desta teia de relações entre o centro e a periferia, entre as cotas baixas e a aproximação à montanha.
Funchal. 2016
 
Funchal. 2016

Habitar

[funchal 33] Na cidade monumental, histórica, havia a tradição da construção de torreões nas casas mais nobres do centro da cidade. Para além de alguns destes torreões que permanecem, percebemos, atualmente, que quase não existem edifícios altos, de habitação coletiva, e que a cidade se estende, se espraia e eleva, na direção da montanha. Há esta tradição de edificar naquele perímetro urbano que, de algum modo é contraditória com os solos exíguos, que poderiam sugerir uma rentabilização vertical do edificado. Mas também pode parecer óbvio que aquelas terras, mesmo nas cotas baixas, não suportariam, por diversos motivos, técnicos e de interpretação do anfiteatro, construções em altura. Também poderá ter havido, historicamente, a falta de investidores para essas construções ou uma política municipal restritiva nesse sentido.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Esmagar

[funchal 32] O Funchal é uma cidade que não se deixa esmagar pelas montanhas, que tem sabido conviver com a sua brutal dimensão. O núcleo mais antigo da urbe está voltado para o mar; o motivo da opção por este lugar terá sido esse ponto de distância às montanhas, ao mesmo tempo que a elas se ligava pela presença da água que vinha das suas alturas e abastecia a cidade. As levadas são um notável exemplo construtivo desta singular civilização. Uma marca de enorme força no desejo de colonizar e habitar um território difícil.
Funchal. 2017
 
Levada, Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017