domingo, 9 de agosto de 2026

Barreira

[pst 491] À semelhança de Negrais, também os afloramentos rochosos deverão ter motivado a sacralização do lugar por parte de comunidades pré-históricas. Houve quem defendesse a tese de o sítio definir um cromeleque, no entanto não são claramente visíveis alinhamentos intencionais destes rochedos, tal como acontece em monumentos megalíticos do Alentejo. É assinalável o intenso carácter telúrico transmitido por estes emergentes e enormes penedos arredondados.

Barreira — Odrinhas. Sintra. 17 Jan. 97




 

sábado, 8 de agosto de 2026

Serra da Arrábida

[pst 490] "O mais precioso resto de uma mata mediterrânea primitiva existe na encosta da serra da Arrábida, no recôncavo de uma baía de águas serenas como num mar interior, em exposição meridional tão perfeita que o relevo intercepta as influências do oeste e do norte, com os seus ventos húmidos e frescos. A temperatura média de Inverno é notavelmente elevada (13o a 15o), constituindo assim uma ilha de clima mediterrâneo quente que só no Algarve tem paralelo". (Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal).

Serra da Arrábida, S. Lourenço de Azeitão. Setúbal.  2 Fev. 92


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pedra Furada

[pst 489] Entre Pero Pinheiro e a aldeia de Negrais há um conjunto singular de rochedos recortados denominados lapiás. Foram desentranhados de uma bancada calcária muito erodida dando origem a afloramentos pétreos com formas pouco vulgares. Instalou-se ali um povoamento em tempos Pré-históricos; escavações puseram a descoberto uma quantidade considerável de artefactos constituídos por materiais líticos, cerâmicos e em osso. Ainda hoje a toponímia e lendas locais revelam o carácter mágico do lugar.

Pedra Furada — Montelavar. Sintra. Abr. 91

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Intuição e precisão

[Paisagem Cruzada 25/25] Não tenho a linguagem precisa das ciências. Aquilo sobre o que escrevo não deixa de ser uma leitura intuitiva da minha relação com o mundo, com o caminhar, com o observar, com a produção de artefactos de comunicação, com o arquivo de informação, como as fotografias, com as reflexões livres que misturam empirismo com leituras de obras de natureza muito diversa. A vida, tida individualmente, não deixa de ser uma experiência, um exercício e um jogo de enorme complexidade. Neste movimento vital há que apurar um sentido crítico sobre o falso, sobre a charlatanice, sobre a evidente e estéril mentira, sobre os poderes oportunistas. No fundo, engrenar na lógica da vida, nessa vertigem que destrói, que apaga, o que é estéril. Sentir o vento na cara, pressentir tempestades, ser racionalmente corajoso, sabendo que há outras possibilidades.

 

Caderno Súmula, Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Olhar do trabalho

[Paisagem Cruzada 24/25] O que posso escrever, dizer, tem uma estrita relação com o meu trabalho. Caminho sobre a terra com um dispositivo de visão, uma câmara fotográfica. Observo e registo o espaço. Fixo pedaços de tempo. Um arquivo-memória cresce e exige um considerável trabalho (uso aqui esta palavra no sentido da Física, a aplicação de uma força a um corpo que lhe altera uma posição inicial; há energia que se aplica, que se vai buscar a outro lado do sistema, em que parte se dissipa, gerando maior complexidade e entropia). Mais de 2.500.000 de fotografias obrigam à criação de ferramentas metodológicas específicas. A sensação é a de estarmos em perda permanente. Como um organismo que cresce em que passo exige um esforço adicional em relação ao anterior. Há momentos em que deixa de ser possível voltar atrás.

 

Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Raridade

[Paisagem Cruzada 23/25] A vida é uma manifestação de ordem contra a entropia. Talvez por isso a vida deva ser rara no Universo. Ainda não conhecemos vida fora do nosso planeta. A Próxima Centauri é a estrela mais próxima do sistema solar. Fica a 4,2 anos-luz do nosso Sol. Tudo, no Universo, é demasiado distante, e a nossa Terra é demasiado única para que não a tratemos com o máximo cuidado.

 

Monsaraz, prox., Reguengos de Monsaraz, 2006

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Modelos lógicos

[Paisagem Cruzada 22/25] Numa cidade do conhecimento talvez seja mais fácil perceber a lógica da vida. Desenvolver modelos sociais que não assentem na superioridade moral de uns grupos sobre os outros, nem numa crença irracional na ideia de mérito e de virtude, ou que uma economia próspera trará riqueza para toda a gente. A construção de uma cidade ideal é uma ilusão. Os conflitos, a divergência, são fundamentais. A vida é também fundada em relações, no diálogo que, não raras vezes, assume a face de confronto, de guerra. Aprimoramos sistemas defensivos, imunitários, que são construções notáveis da própria vida. Não vamos acreditar em paraísos que nunca vão ser encontrados. A vida é uma viagem, é, para cada um de nós, o habitar um hiato de tempo e espaço no Universo, é sermos o elo de ligação entre o passado e o presente. Nesta linha que nos cabe, convertemos matéria em energia e vice-versa. E assim desenhamos utopias que nos dão alento para não desistir. Talvez seja esta, e uma enorme curiosidade pelo conhecimento, o mais distintivo traço Homo sapiens.

 

Barrocal do Douro, Picote, Miranda do Douro, 2026