segunda-feira, 20 de julho de 2026

Evidências incontornáveis

[Paisagem Cruzada 12/25] Estamos longe de conhecer tudo, mas já há uma série de evidências incontornáveis e sem contradições que nos falam da formação da Terra e da sua transformação ao longo de milhões de anos. Há evidências sobre a origem microscópica da vida, a sua evolução, ou sobre a origem das espécies e a forma como se foram desdobrando noutras espécies ao longo de milhares ou milhões de anos. Nunca vamos saber tudo, ou ter a certeza absoluta sobre a verdade de um determinado facto. Há dados que estão consolidados, que passaram de teorias a factos, como o campo gravítico da Terra, a deriva dos continentes, o evolucionismo. Saibamos distinguir as narrativas humanas, a sedutora literatura de mitos fundacionais da vida e de nós próprios, de uma realidade que, por vezes é tão estranha e, seguramente, muito mais rica do que qualquer narrativa humana escrita no passado.

 

Miradouro da Fraga Amarela, Picote, Miranda do Douro, 2025

 

domingo, 19 de julho de 2026

Explicar fenómenos

[Paisagem Cruzada 11/25] Admiro a história humana que nos trouxe ao presente, mas não vejo qualquer misticismo ou transcendência na Natureza. Entendo a religião como um fenómeno de relação com o desconhecido, que teve um papel fundamental no passado, ao longo de alguns milhares de anos. Atualmente não é necessária a religião para explicar o que quer que seja do mundo natural, apesar de muito ser ainda pouco conhecido. No entanto, as religiões, que são narrativas humanas, não deixam de traduzir um retrato de nós próprios à procura do conhecimento da realidade. A religião procura dar sentido a algo que não tem sentido, que é a vida. Tudo o que existe na Terra deve-se a fenómenos que são explicados pela ciência. E o que hoje nos escapa, assim tenhamos tempo, será conhecido no futuro.

 

Ermitério Os Santos, Picote, Miranda do Douro, 2024

 

sábado, 18 de julho de 2026

Gestos intencionais

[Paisagem Cruzada 10/25] Há muitas interpretações que cruzam arte, religião, arqueologia e vários outros campos de saber. O género Homo já, há mais de um milhão de anos, deixava o rasto de gestos intencionais em utensílios e parcos vestígios de habitação, de acampamentos. Foz Côa, bem como outros lugares, sobretudo grutas, mostra-nos a representação de, predominantemente, animais. Entendo Foz Côa como o embrião de uma cidade humana. O hiato temporal em que nos começámos a desprender de uma natureza intacta e a criar o nosso próprio habitat. Um gesto conceptual de profundo significado na história da vida na Terra.

 

Sítio da Quinta da Barca, Chãs, Vila Nova de Foz Côa, 1996

Sítio da Penascosa, Chãs, Vila Nova de Foz Côa, 1996

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Visão

[Paisagem Cruzada 09/25] Entendo a fotografia, sobretudo, como visão, menos como a procura de imagens soltas a que poderíamos chamar arte. Em 1995 fotografei as gravuras do Côa. Estávamos no auge de uma polémica que marcou uma parte do quotidiano informativo de então. A construção da barragem de Foz Tua iria provocar a submersão de um notável conjunto de gravuras datadas do Paleolítico Superior. Foi nesta altura que conheci estes desenhos inscritos na pedra. Trata-se de uma obra gráfica absolutamente singular, pela sua antiguidade, pela beleza dos seus traços, pela estranheza como irrompem na paisagem e a, subtilmente, transformam.

 

Sítio da Penascosa, Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, 1995

Sítio da Penascosa, Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, 1995

 

sábado, 11 de julho de 2026

O sentido e a lógica

[Paisagem Cruzada 08/25] Num lugar afastado de grandes centros urbanos, como esta antiga escola primária de Picote, podemos desenhar um ensaio, uma experiência para o uso do tempo. A vida não tem sentido, mas tem princípios lógicos, formulações, equações matemáticas, relações das quatro forças elementares que gerem o Universo. Articulamos geometrias à procura da fertilidade, da permanência. Entre mutações aleatórias, erros, improbabilidades, dispersões de significado, explosões, deixamos linhas nas paisagens que atravessamos. Mais tarde, podemos observar traços que são ensaios de futuro.

 




 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O entorno da entropia

[Paisagem Cruzada 07/25] Em frases soltas, reflexões entrelaçadas. Há um país inteiro, fragmento planetário, que se percorre com uma câmara fotográfica, um dispositivo de visão. São geradas imagens, textos e quadros que se constituem num arquivo. Lugar de memória. Realidades paralelas erguem-se para lá de uma ideia de representação. A par de artefactos de comunicação e partilha, como esta exposição, Paisagem Cruzada, cresce a entropia de um sistema que se articula com tudo o que o rodeia. Há o sedutor apelo de uma vertigem em aceleração.


 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Antiga escola

[Paisagem Cruzada 06/25] O painel horizontal irradia a partir de um núcleo composto por 144 palavras. Com o título de su56-vórtice esta peça contém todos os elementos estruturais do trabalho que desenvolvo no processo de mapeamento do espaço português. Há ainda uma série de apontamentos metodológicos, em duas linhas ortogonais, sobre o modo como esta exposição é construída. Dado estarmos no edifício de uma antiga escola primária (que hoje se designa de ensino básico), é aqui também mostrado um projeto educativo que, acima de tudo, constitui uma reflexão sobre o conhecimento ou os modos, pela criatividade em diferentes áreas, de relacionar arte e ciência. No fundo é o desenho evolutivo de uma humana cidade imaginária, ou como as paisagens, um jogo de utopias cruzadas.

 

Antiga escola primária de Picote, Miranda do Douro, 2026

Antiga escola primária de Picote, Miranda do Douro, 2026