quarta-feira, 8 de julho de 2026

Antiga escola

[Paisagem Cruzada 06/25] O painel horizontal irradia a partir de um núcleo composto por 144 palavras. Com o título de su56-vórtice esta peça contém todos os elementos estruturais do trabalho que desenvolvo no processo de mapeamento do espaço português. Há ainda uma série de apontamentos metodológicos, em duas linhas ortogonais, sobre o modo como esta exposição é construída. Dado estarmos no edifício de uma antiga escola primária (que hoje se designa de ensino básico), é aqui também mostrado um projeto educativo que, acima de tudo, constitui uma reflexão sobre o conhecimento ou os modos, pela criatividade em diferentes áreas, de relacionar arte e ciência. No fundo é o desenho evolutivo de uma humana cidade imaginária, ou como as paisagens, um jogo de utopias cruzadas.

 

Antiga escola primária de Picote, Miranda do Douro, 2026

Antiga escola primária de Picote, Miranda do Douro, 2026


  

terça-feira, 7 de julho de 2026

João Abreu

Não consigo precisar a data em que conheci o João Abreu, mas terá sido em 1996 ou 1997, quando era ainda aluno de Álvaro Duarte de Almeida, um professor que nos marcou a ambos de uma forma muito vincada. Foi o continuar de uma história de paixão pela terra, pela paisagem, pelo património, pelo espaço português. Nesses anos de final da década de 1990 fizemos algumas viagens juntos, quer a pé, quer de carro. O objetivo era sempre conhecer o país, fotografar e tentar produzir conhecimento em livros, exposições, projetos. Depois deu-se um intervalo, 15 anos, talvez, em que tivemos poucos contactos. Quotidianos atarefados, com filhos pequenos, tomaram-nos toda a disponibilidade.

O João Abreu iniciou a criação do Museu da Paisagem, no âmbito de um projeto que o próprio desenvolveu, na Escola Superior de Comunicação Social, do Instituto Politécnico de Lisboa. Estávamos em 2017 quando me chamou para colaborar no projeto. Aderi sem hesitação. Em abril de 2019 saiu um primeiro livro: Ler a Paisagem: Território Tejo, já com a chancela Museu da Paisagem. No ano seguinte seria editada a trilogia Portugal 15-5-20, composta pelos volumes Caminhar Oblíquo, Depois da Estrada e Viagem Maior. Este último desenvolvi com o João, em coautoria. Seguiram-se mais uma série de livros, entre os quais Terra Mineral, Terra Vegetal, também a quatro mãos, numa homenagem a A.M. Galopim de Carvalho e Fernando Catarino. A edição mais recente é Portugal Refractário, um País entre o Imobilismo e a Mudança, com textos de António Araújo. O lançamento foi na livraria Palavra de Viajante, em Lisboa, e foi o próprio João a fazer a apresentação. 

Na altura o João já lutava pela sua saúde. Fê-lo com enorme determinação e coragem, até hoje. 

O João fazia as coisas acontecerem sem qualquer ambição mediática ou de protagonismo. Sei de alunos para quem foi um professor marcante nos seus percursos formativos. Tinha uma enorme sensibilidade para o Design, a sua área de formação. Foi co-fundador da editora Planeta Tangerina. Pensava a estrutura de cada publicação como o jogo de várias camadas que tornam legível e bela qualquer ideia de complexidade. Era um arquiteto de livros. Sem nunca se ter dedicado à fotografia com a disponibilidade que, creio, gostaria, fez um conjunto notável de imagens, muitas publicadas na Viagem Maior, em que nos devolve uma belíssima interpretação de um país em mais de 7000 km de viagem. Arrisco dizer que foi o Museu da Paisagem a sua maior paixão no campo dos fazeres e na sua indefectível vontade de divulgar o espaço português. Neste sentido foi um homem de enorme generosidade e entrega, enquanto editor, sem esperar receber algo em troca. Queria apenas que os livros circulassem e fossem lidos.

Enquanto pôde trabalhou diariamente no seu, de todos, museu imaginário que se foi tornando cada vez mais real. O João desenhava uma utopia que não era para ele próprio mas para todos nós. Seguia o seu caminho, na interpretação da geologia, da biologia, de todas as marcas deixadas por nós, Homo sapiens, sobre a Terra. Com enorme sabedoria, do alto das serras, perscrutava horizontes vastos.

Nos tempos difíceis em que vivemos, de acentuada instabilidade global, política e climática, o seu trabalho é em si mesmo uma paisagem, um lugar sereno, de pausa, de reflexão. Olhemos esses horizontes de fertilidade criativa que o João nos deixa no irrecusável convite para continuarmos.

 

João Abreu. Ponta de São Lourenço, Madeira, 2018

 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Olívia

[Paisagem Cruzada 05/25] Ainda sobre Idanha-a-Nova saliento o facto de eu próprio ter relações familiares com aquele aglomerado. A minha avó materna, Olívia da Conceição Carriço, ali nasceu no ano de 1905. Esta exposição é um relato de paisagens cruzadas que poderiam ser mais extensivas. Por limitações de área expositiva, aqui apenas se  levanta o véu de um arquivo fotográfico pessoal que cobre todo o espaço português em mais de 2.500.000 de fotografias colhidas desde 1982 até ao presente.

 

Idanha-a-Nova, 2026
Olívia da Conceição Carriço, Vila do Conde, 1997

 

domingo, 5 de julho de 2026

Idanha-a-Nova

[Paisagem Cruzada 04/25] Alargando este conceito topológico de mapeamento fotográfico, é proposto um outro conjunto de imagens, o terceiro e último, de Idanha-a-Nova. Foi desta vila que partiu um conjunto de trabalhadores que vieram a prestar serviço nas obras da barragem de Picote, na década de 1950. Por diferentes motivos não ficaram albergados nas instalações da Hidroeléctrica do Douro, a empresa que edificou a barragem, construindo um conjunto de habitações precárias junto às arribas do rio, também designado bairro dos sacos de papel.

 

Idanha-a-Nova, 2026




 

sábado, 4 de julho de 2026

Duas unidades

[Paisagem Cruzada 03/25] Este projeto expositivo é composto por duas unidades fundamentais. Um plano vertical e um plano horizontal. O plano vertical, nas paredes, subdivide-se em três unidades-base: Há um conjunto de quatro painéis, cada um deles com 30 fotografias, que estruturam a exposição e desenham a sua razão. São apontamentos fotográficos de mapeamento do espaço em redor de Picote. É a própria aldeia; Barrocal do Douro, que nasce em meados do século passado no decurso da construção de uma barragem no rio Douro; o denominado Bairro da Idanha, de que hoje só restam ruínas e Miranda do Douro, a cidade que, de algum modo, polariza esta região vasta. Além destas quatro unidades que descrevem o território há ainda um conjunto de apontamentos de paisagens próximas, desde Barca d’Alva até ao miradouro da Penha das Torres, perto de Paradela, a norte de Miranda do Douro. No decurso deste levantamento foi percorrida e registada esta paisagem em que diferentes lugares estabelecem entre si relações espácio-temporais.

 

 

Exposição Paisagem Cruzada. Antiga Escola Primária de Picote. Miranda do Douro, 2026

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Douro Internacional

[Paisagem Cruzada 02/25] Paisagem cruzada é uma exposição que tem como base o mapeamento fotográfico do território marcado pela presença do Douro Internacional. São mostrados mosaicos compostos por fotografias feitas nos últimos dois anos e acompanham o trabalho da arquiteta Cláudia Melo, que se encontra a desenvolver uma tese de doutoramento que engloba o património cultural e natural do Douro Internacional.

 

Rio Douro, Picote, Miranda do Douro, 2026


 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Encontros da Primavera, 2026

[Paisagem Cruzada 01/25] No dia 4 de junho do corrente ano, 2026, inaugurei uma exposição em Picote, no edifício da pequena escola primária da aldeia. A exposição enquadrava-se na programação dos Encontros da Primavera e esta foi a XXI edição. Estes Encontros visam uma reflexão em torno dos temas Arte e Antropologia e as múltiplas derivações que daí decorrem. Há uma ligação umbilical ao conceito de Natureza. Picote localiza-se próximo do rio Douro, do seu canhão fluvial que aqui faz fronteira com Espanha. Miranda do Douro é a sede de concelho e a cidade mais próxima. Estas publicações, aqui na Cidade Infinita, decorrem desta experiência expositiva e da necessidade sentida de clarificar alguns conceitos relacionados com a Arte, a Natureza, a criatividade e a nossa forma de relação com estas realidades. Aproximações ao entendimento da vida.

 

Rio Douro. Barrocal do Douro, prox. Picote, Miranda do Douro, 2026