domingo, 25 de setembro de 2022

"Viagem a Portugal"

[três viagens 31] Há escassos meses tinha estado envolvido na reedição da obra Viagem a Portugal, de José Saramago, na ilustração com fotografias do meu arquivo, que iriam estar em diálogo com as imagens do escritor.

Vale do rio Douro, Miranda do Douro, 1996


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Pausa

[três viagens 30] A minha ida a Lisboa tinha um objetivo. Havia marcado uma deslocação à Fundação José Saramago para a digitalização das fotografias que o escritor fizera na sua Viagem a Portugal, realizada nos anos 1979 e 1980. De um ponto de vista meramente estético, as imagens não são especialmente interessantes. O que de mais sedutor contêm é o seu carácter documental e o facto de sabermos que serviram de apoio, eventualmente de mnemónica, para a escrita desse livro que é um dos mais bem conseguidos retratos literários de Portugal. Quando observamos um mapa com a implantação dos lugares percorridos, percebemos com maior clareza a extensão da sua viagem, do labirinto de lugares que a mesma espelha, mas também alguns dos lugares que Saramago não teve oportunidade de visitar. Lisboa foi uma pausa para José Saramago, mas o permanecer em viagens cruzadas.
Viagem a Portugal (1979-1980), de José Saramago


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estuário do Sado

[três viagens 29] Nas margens do estuário do Sado procurei das marcas da industrialização em diálogo com um extenso lençol de águas tranquilas, a evocar também o Mar da Palha e a singularidade tão rara destes dois estuários, de duas serras, da Arrábida e de Sintra, tão diferentes entre si. Dois microcosmos tão próximos, de representação do Mediterrâneo e do Atlântico, tão próximos e tão distantes. Paisagens que nos erguem, que descodificamos, que atribuímos sentido com as fotografias, com artefactos de comunicação que construímos. Terminava assim esta viagem ao Sul.

Estuário do Sado, Setúbal, 2022

 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Operação Militar Especial

[três viagens 28] A vila de Monchique, pouco a norte das termas, foi a paragem seguinte. Estes dois povoados não faziam parte dos lugares que tinha que fotografar. Foram paragens apenas para atualização do meu acervo de registo de lugares. Ao cair da noite, ainda com a luz do final da tarde, avancei para norte, em direção ao Alentejo, por uma estrada que serpenteia pela serra. Pouco depois fazia um desvio à estrada asfaltada e procurava um local para montar a tenda. Na manhã seguinte tenho uma mensagem no meu telemóvel. A Rússia tinha invadido a Ucrânia. Depois de mais de duas décadas de paz, havia de novo uma guerra na Europa. A Rússia, com as palavras de “Operação Militar Especial”, iniciou uma guerra de futuro imprevisível, relegando para segundo plano essa outra batalha iniciada em 1972, na Conferência de Estocolmo, contra as alterações climáticas, que já nessa altura se enunciavam. 

Segui para a barragem de Santa Clara, um extenso lençol de água que rega as numerosas estufas do litoral, da zona de São Teotónio, Odemira. Depois de uma breve paragem em Garvão, prossegui para Messejana, onde uma vez pernoitei na casa de um casal de amigos arquitetos, numa viagem a Serpa, enquadrada num concurso para um edifício público. O pelourinho comprova um antigo poder municipal. Do antigo castelo praticamente não restam vestígios, mas o povoado mantém a brancura da cal nas paredes das casas. As ruínas do convento de São Francisco, são também vestígio de um passado onde a religião assumia uma dimensão de estruturação espacial e social do lugar.

Monchique, 2022

Albufeira da Barragem de Santa Clara, Odemira, 2022

Messejana, Aljustrel, 2022

Convento de São Francisco, Messejana, Aljustrel, 2022


 

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Caldas de Monchique

[três viagens 27] Nas Caldas de Monchique localiza-se uma praça de singular beleza, de equilíbrio arquitetónico muito bem conseguido, entre o terreiro, os edifícios que o conformam e as árvores que o povoam. Cada vez que volto a este lugar não deixo de pensar quando é que alguém se vai lembrar de fazer obras de melhoramento e destruir o carácter daquele lugar termal.
Caldas de Monchique, Monchique, 2022

 

domingo, 18 de setembro de 2022

Geografia, cartografia, fotografia

[três viagens 26] E cada projeto puxa novos projetos, neste caso concreto, ia desenvolvendo a ideia de aprofundar este atlas do espaço português, de apertar a malha e representar muitos mais lugares. Juntar geografia, cartografia, fotografia, algumas palavras.

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Praia de Monte Clérigo

[três viagens 25] Perto da praia de Monte Clérigo estava, mais uma vez, numa franja de território, numa quadrícula, onde nunca tinha estado. As franjas do mapa onde tinha que ir para completar este mapeamento fotográfico. O litoral vicentino, com as suas escarpas em xisto, é uma paisagem que impressiona. Estes lugares, onde a terra acaba e o mar começa, ou vice-versa, têm sempre um enorme dinamismo para quem deles se aproxima para fotografar. São sempre diferentes em função do estado do mar, das marés, da hora do dia, da estação do ano, que trazem consigo uma luminosidade sempre diferente. Há, invariavelmente, a dimensão sonora provocada pela rebentação das ondas que ajuda a que nos ausentemos na abstração da tentativa de captar a natureza esquiva destas fronteiras.

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022