Não consigo precisar a data em que conheci o João Abreu, mas terá sido em 1996 ou 1997, quando era ainda aluno de Álvaro Duarte de Almeida, um professor que nos marcou a ambos de uma forma muito vincada. Foi o continuar de uma história de paixão pela terra, pela paisagem, pelo património, pelo espaço português. Nesses anos de final da década de 1990 fizemos algumas viagens juntos, quer a pé, quer de carro. O objetivo era sempre conhecer o país, fotografar e tentar produzir conhecimento em livros, exposições, projetos. Depois deu-se um intervalo, 15 anos, talvez, em que tivemos poucos contactos. Quotidianos atarefados, com filhos pequenos, tomaram-nos toda a disponibilidade.
O João Abreu iniciou a criação do Museu da Paisagem, no âmbito de um projeto que o próprio desenvolveu, na Escola Superior de Comunicação Social, do Instituto Politécnico de Lisboa. Estávamos em 2017 quando me chamou para colaborar no projeto. Aderi sem hesitação. Em abril de 2019 saiu um primeiro livro: Ler a Paisagem: Território Tejo, já com a chancela Museu da Paisagem. No ano seguinte seria editada a trilogia Portugal 15-5-20, composta pelos volumes Caminhar Oblíquo, Depois da Estrada e Viagem Maior. Este último desenvolvi com o João, em coautoria. Seguiram-se mais uma série de livros, entre os quais Terra Mineral, Terra Vegetal, também a quatro mãos, numa homenagem a A.M. Galopim de Carvalho e Fernando Catarino. A edição mais recente é Portugal Refractário, um País entre o Imobilismo e a Mudança, com textos de António Araújo. O lançamento foi na livraria Palavra de Viajante, em Lisboa, e foi o próprio João a fazer a apresentação.
Na altura o João já lutava pela sua saúde. Fê-lo com enorme determinação e coragem, até hoje.
O João fazia as coisas acontecerem sem qualquer ambição mediática ou de protagonismo. Sei de alunos para quem foi um professor marcante nos seus percursos formativos. Tinha uma enorme sensibilidade para o Design, a sua área de formação. Foi co-fundador da editora Planeta Tangerina. Pensava a estrutura de cada publicação como o jogo de várias camadas que tornam legível e bela qualquer ideia de complexidade. Era um arquiteto de livros. Sem nunca se ter dedicado à fotografia com a disponibilidade que, creio, gostaria, fez um conjunto notável de imagens, muitas publicadas na Viagem Maior, em que nos devolve uma belíssima interpretação de um país em mais de 7000 km de viagem. Arrisco dizer que foi o Museu da Paisagem a sua maior paixão no campo dos fazeres e na sua indefectível vontade de divulgar o espaço português. Neste sentido foi um homem de enorme generosidade e entrega, enquanto editor, sem esperar receber algo em troca. Queria apenas que os livros circulassem e fossem lidos.
Enquanto pôde trabalhou diariamente no seu, de todos, museu imaginário que se foi tornando cada vez mais real. O João desenhava uma utopia que não era para ele próprio mas para todos nós. Seguia o seu caminho, na interpretação da geologia, da biologia, de todas as marcas deixadas por nós, Homo sapiens, sobre a Terra. Com enorme sabedoria, do alto das serras, perscrutava horizontes vastos.
Nos tempos difíceis em que vivemos, de acentuada instabilidade global, política e climática, o seu trabalho é em si mesmo uma paisagem, um lugar sereno, de pausa, de reflexão. Olhemos esses horizontes de fertilidade criativa que o João nos deixa no irrecusável convite para continuarmos.
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| João Abreu. Ponta de São Lourenço, Madeira, 2018 |