segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Olhar do trabalho

[Paisagem Cruzada 24/25] O que posso escrever, dizer, tem uma estrita relação com o meu trabalho. Caminho sobre a terra com um dispositivo de visão, uma câmara fotográfica. Observo e registo o espaço. Fixo pedaços de tempo. Um arquivo-memória cresce e exige um considerável trabalho (uso aqui esta palavra no sentido da Física, a aplicação de uma força a um corpo que lhe altera uma posição inicial; há energia que se aplica, que se vai buscar a outro lado do sistema, em que parte se dissipa, gerando maior complexidade e entropia). Mais de 2.500.000 de fotografias obrigam à criação de ferramentas metodológicas específicas. A sensação é a de estarmos em perda permanente. Como um organismo que cresce em que passo exige um esforço adicional em relação ao anterior. Há momentos em que deixa de ser possível voltar atrás.

 

Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Raridade

[Paisagem Cruzada 23/25] A vida é uma manifestação de ordem contra a entropia. Talvez por isso a vida deva ser rara no Universo. Ainda não conhecemos vida fora do nosso planeta. A Próxima Centauri é a estrela mais próxima do sistema solar. Fica a 4,2 anos-luz do nosso Sol. Tudo, no Universo, é demasiado distante, e a nossa Terra é demasiado única para que não a tratemos com o máximo cuidado.

 

Monsaraz, prox., Reguengos de Monsaraz, 2006

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Modelos lógicos

[Paisagem Cruzada 22/25] Numa cidade do conhecimento talvez seja mais fácil perceber a lógica da vida. Desenvolver modelos sociais que não assentem na superioridade moral de uns grupos sobre os outros, nem numa crença irracional na ideia de mérito e de virtude, ou que uma economia próspera trará riqueza para toda a gente. A construção de uma cidade ideal é uma ilusão. Os conflitos, a divergência, são fundamentais. A vida é também fundada em relações, no diálogo que, não raras vezes, assume a face de confronto, de guerra. Aprimoramos sistemas defensivos, imunitários, que são construções notáveis da própria vida. Não vamos acreditar em paraísos que nunca vão ser encontrados. A vida é uma viagem, é, para cada um de nós, o habitar um hiato de tempo e espaço no Universo, é sermos o elo de ligação entre o passado e o presente. Nesta linha que nos cabe, convertemos matéria em energia e vice-versa. E assim desenhamos utopias que nos dão alento para não desistir. Talvez seja esta, e uma enorme curiosidade pelo conhecimento, o mais distintivo traço Homo sapiens.

 

Barrocal do Douro, Picote, Miranda do Douro, 2026

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sistemas de conhecimento

[Paisagem Cruzada 21/25] Promover diferentes sistemas de conhecimento. Não sou professor, embora já tenha passado pelo ensino. Apontaria alguns princípios metodológicos para uma transformação da maior parte dos atuais modelos de ensino-aprendizagem. Promover o caminhar e o contacto com a Natureza (próxima dos locais de habitar de cada população). Promover as manualidades e o uso do corpo, da expressão corporal, na qual incluiria o teatro, a dança e o desporto. Estimular a escrita manual e o desenho. Não negar nenhuma das ferramentas eletrónicas atuais, mas usá-las com moderação, sobretudo pelos mais jovens. Não perder o contacto com o mundo analógico. Como linha programática, fundar as aprendizagens na evidência e na capacidade que a arte tem para nos mostrar o sublime, mesmo quando os conceitos são mais complexos. Sensibilizar os estudantes de qualquer idade para o lento processo evolutivo que nos conduziu ao presente. A biologia é um fascinante labirinto que se ergue das ciências fundamentais (a Física e a Química), com o apoio da linguagem matemática. Em última instância, tudo o que existe no Universo pode ser traduzido em expressões numéricas. Para fazermos qualquer coisa, não precisamos de ter dentro de nós a mais erudita biblioteca. Fazer é não temer.

 

Barrocal do Douro, prox., Picote, Miranda do Douro, 2026

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Que lugar?

[Paisagem Cruzada 20/25] Não creio que as religiões nos afastem de um beco sem saída, do vórtice em que estamos mergulhados. O pensamento de uma transcendência pode ter um significado individual e ser pontualmente benéfico para quem o exercita. Não creio que para um grupo alargado de pessoas uma ideia de religião seja fértil, ou nos conduza, globalmente, a um lugar melhor.

 

Paradela, prox., Miranda do Douro, 2024

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Método e pensamento

[Paisagem Cruzada 19/25] Estas são notas soltas para o pensamento da vida. É o desenvolvimento de ferramentas metodológicas em vários níveis de operatividade. Uma constelação de gestos desde o ato de caminhar, da recolha fotográfica, do arquivo de imagens, da produção de artefactos de comunicação, até à sistematização de ideias, no desprendimento de um mundo clássico que não pode deixar de ser olhado criticamente. E estamos numa fase sensível da história da Terra. Pela primeira vez na história da vida há uma espécie que está a provocar uma extinção em massa. As cinco grandes extinções que encontramos no registo fóssil, foram provocadas por eventos geológicos e climáticos, entre meteoritos e vulcões. Agora, com uma crescente celeridade, estamos, Homo sapiens, a mudar o clima. A resposta lenta deste mesmo clima tende a acelerar e parece ser uma evidência que o processo é irreversível. Talvez a humanidade um dia se tenha que juntar como um todo. Abolir fronteiras, alterar paradigmas culturais, locais, regionais, nacionais, e apontar para uma nova urbanidade. O regresso ao passado é manifestamente impossível, a não ser pela via da catástrofe.

Duas Igrejas, Miranda do Douro, 2024

 

domingo, 26 de julho de 2026

História única

[Paisagem Cruzada 18/25] A história do planeta que habitamos é só uma. Tudo quanto existe foi aqui gerado, desde a formação, por acreção, de um corpo incandescente que encontrou uma órbita em torno de uma estrela. Essa órbita está a uma distância exata para que se encontre água no estado líquido.

Rio Douro, São João das Arribas, Aldeia Nova, Miranda do Douro, 2024