quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Cláusula nona

O concurso Viseu Terceiro, atual Viseu Cultura, começou por ser uma louvável iniciativa da Câmara Municipal de Viseu para o apoio e financiamento de diversas atividades culturais que acontecem na cidade. A ideia foi, desde o início, fomentar a transparência na adjudicação de recursos do erário público.
No entanto esta situação tem vindo a ser alterada. O júri independente do início, rapidamente foi dispensado e substituído por uma Comissão de Avaliação nomeada e presidida  pelo Vereador do Património, Cultura e Ciência, Turismo e Marketing Territorial, Jorge Sobrado.
Este ano o regulamento do concurso apresenta uma cláusula que é significativa sobre o modo como é atualmente gerida a cultura com financiamento municipal. No ponto nono do artigo 13ª (Apresentação e admissão de candidaturas) é referido: “As candidaturas deverão propor uma atividade nas áreas de música, teatro,dança, performance, novo circo, poesia ou outra, a realizar em data a acordar no mês de julho de 2020, no âmbito da programação “Mescla”. A execução financeira da atividade será da responsabilidade da própria candidatura.”
A liberdade criativa dos concorrentes fica anulada por esta cláusula. A ideia de um concurso e de uma competitividade saudável em que as melhores propostas serão financiadas, desaparece. O que fica patente é a completa incapacidade da autarquia em assumir a programação do/da “Mescla”, uma iniciativa desenvolvida pela Câmara Municipal que não tem uma ideia minimamente coerente, qualquer princípio estruturador dos seus conteúdos, nem tão pouco um tema agregador. É, de facto, uma mescla. Também diria que, num ambiente saudavelmente democrático a organização deste género de iniciativas deveria ficar a cargo de programadores independentes e eles existem bem qualificados na cidade.
Outra questão, que raia de forma abusiva uma ética de verticalidade, é obrigar os concorrentes a financiarem esta atividade, obrigatória, através do seu próprio orçamento. No fundo a Câmara Municipal de Viseu dá com uma mão e tira com a outra. De qualquer modo não deixa de ser a organização de um evento “sem” gastar recursos do orçamento municipal.
Mas talvez aquilo que parece evidente é o cultivar nos agentes culturais da cidade uma mediocridade submissa, que esteja alinhada, em diametral oposição, com o perfil de quem a promove. Com este concurso Viseu fica mais pobre, ficará a cidade menos apta para se integrar num movimento global de cidades criativas. É também, a cada ano que passa, o cultivar uma interioridade que agoniza pela falta de visão política efetiva. Sim, ao invés de uma ideia forte desenvolvida por criadores ativos que saibam integrar a cidade no território que a envolve, o que fica exposto é uma manta de retalhos, espelho de uma gestão política que apenas se serve do marketing para exibir o mais profundo e estéril vazio.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Percorrer lugares antigos

[regressar onde 14] Percorrer de novo lugares de 1995 é a revisitação de memórias, de vivências, em torno da defesa das gravuras, da perceção, na altura ainda um pouco incipiente, do valor de todo o conjunto do vale. Este passado de ligação, o facto de ter vivido, pessoalmente, uma série de experiências naquela paisagem, condiciona de forma acentuada, um olhar sobre o vale do Côa e os seus elementos significantes. A memória grata do habitar o vale antes da criação do Parque Arqueológico, da pernoita junto dos núcleos das gravuras, hoje, por vários motivos, já não é acessível. Está como que quebrada essa continuidade existencial que na altura era o viver entre o rio, o vale e as gravuras. Contraditoriamente passou a ser possível, em liberdade, o acesso à área da obra da barragem, a que o acesso estava vedado. Mas esta viagem é a da impossibilidade de um regresso, do voltar ao passado perante o espanto do tempo que passa, de tudo o que muda. Não são apenas as paisagens que se transformam, é também o olhar descodificador de quem as lê e interpreta, integra no seu universo vivencial, numa intransmissível escala espácio-temporal. Houve laços que se quebraram: são como as fotografias que apenas nos deixam o pequeno fragmento do tempo do seu registo, mas quase nada informam sobre um antes e um depois, ou o que está para além das margens do seu recorte. [Esta é a última publicação da série Regressar Onde].

dd176-14 - São Gabriel, Vila Nova de Foz Côa. 1996

dd181-14 - Vale do rio Côa, Vila Nova de Foz Côa. 1996

na0285-11 - São Gabriel, Vila Nova de Foz Côa. 1995

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Vale gravado

[regressar onde 13] O vale gravado do Côa pode ser hoje o ponto de partida para uma grande viagem, onde como que se encontram os grande problemas e desafios do Portugal contemporâneo, e da gestão do território de uma Nação. Não longe daqui há outros vales imponentes, como sejam os do rio Sabor ou do rio Tua e, sobretudo, o entalhe vertiginoso do Douro, espinha dorsal de uma região vasta, que para montante, vai progressivamente assumindo uma dimensão ímpar. Num contexto alargado estamos aqui no centro arcaico de um movimento de apropriação da paisagem que deixou marcas em todos os períodos históricos e que ainda hoje não terminou. Atualmente, nas vilas e cidades de interior, como Vila Nova de Foz Côa, procuram-se soluções para a fixação da população, constroem-se edifícios públicos, complexos desportivos, salas de congressos, pavilhões de exposições. Luta-se, com o betão, contra a perda sistemática de pessoas que partem à procura de, sobretudo, trabalho, vitalidade económica. Enfrenta-se o adormecimento e abandono de uma paisagem vastíssima. Deixam-se terras pobres e secas, deixa-se a luta milenar pela edificação de uma cultura. Foge-se para o conforto, muitas vezes ilusório, das grandes cidades, para a integração na magna urbe onde, em fusões e contaminações de hábitos e fazeres, se define a contemporaneidade. Talvez seja o futuro precário de todos nós, de uma sociedade onde procuramos estar integrados, o gesto de construir uma casa. Ou criar um imaginário de referências, de valores, numa abstração por vezes criativa, mas quase sempre esmagadora da individualidade, ou identidade, de cada um dos seus cidadãos.

dd161-33 - São Gabriel, Vila Nova de Foz Côa. 1996

na0280-10 - Penascosa, Vila Nova de Foz Côa. 1995

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Paisagem conturbada

[regressar onde 12] Há uma envolvência geográfica que, nas mais recentes décadas que vivemos, se vem tornando cada vez mais complexa. A paisagem conturbada do curso terminal do Côa é um bom exemplo de um jogo de tensões difícil de resolver. As gravuras foram o primeiro gesto de uma intervenção duradoura num lugar “natural”, um passo inaugural, um delicado desenho e o dealbar da fixação do tempo e da forma, da realidade, em superfícies rochosas. Este é quase como o primeiro registo materializado de uma espécie que se vai emancipar de todas as outras e desenvolver um universo de razão, linguagem e tecnologia, inexistente até então. Há um conjunto de gravuras que estabelecem uma relação única com o vale. Seria esta leitura que as águas da barragem iriam destruir. Esta é uma das mais notáveis e arcaicas intervenções conhecidas do homem paleolítico em toda a Terra. Não se pode comparar, diretamente, as gravuras do Côa com outras manifestações gráficas como, por exemplo, as pinturas de Altamira, Lascaux ou Chauvet, que se encontram em grutas e que talvez tenham sempre guardado segredos rituais apenas acessíveis a comunidades locais. As gravuras foram, são, uma “arte” pública a envolver todo um território, a promover a participação de um vale, de um rio, a convocar um “espírito do lugar”. Muito antes do advento das cidades, já no Neolítico, as comunidades de hominídeos viviam em movimento, ou temporariamente fixadas em pequenos acampamentos, sempre de enorme precariedade, sujeitas as numerosas variáveis, como o clima, os recursos de caça disponíveis ou a proximidade de outras comunidades, eventualmente hostis. As manifestações rupestres do Côa incrementam o nosso conhecimento sobre um período da evolução humana de que não abundam elementos com esta qualidade. Mas também estimulam hoje a nossa imaginação, dão-nos pistas para a descodificação de um passado muito remoto. Este vale é quase como uma primeira cidade, ainda sem estruturas edificadas permanentes, sem arruamentos, mas já com o desejo de marcar e habitar um território em permanência, de o integrar numa cosmicidade que dava os primeiros passos numa interpretação da vida, do mistério da morte, da consciência de um tempo que passa.

dd145-23 - Vale do rio Côa, Vila Nova de Foz Côa. 1995

dd163-12 - Pedreiras do Poio, Vila Nova de Foz Côa. 1996

dg313377 - Barragem, Vila Nova de Foz Côa. 2012

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Quinto elemento

[regressar onde 11] Há um quinto elemento que nunca foi especialmente referido durante a polémica da barragem, mas que provoca na paisagem uma ferida acentuada. São as pedreiras do Poio, de onde é feita a extração de xisto, de lousa, há várias décadas. O destino inicial dessa extração foi, creio, os esteios para a vinha de todo o vale do Douro. Hoje, nas quintas em modernização ou na plantação de vinha nova, são usados esteios metálicos ou de madeira. As pedreiras estão apostadas na indústria das rochas ornamentais, de aplicação na construção civil. O processo de escavação não parece ter fim. A cicatriz causada pelo esventrar da terra tem uma dimensão cada vez maior. Há um núcleo de gravuras, o sítio da Canada do Inferno, que fica a escassas centenas de metros das pedreiras. É para montante deste sítio, e até à quinta da Barca, que se situam os principais núcleos de gravuras como sejam o do Fariseu, de vale Figueira, da Ribeira dos Piscos e o da Penascosa. Para montante destas terras de xisto temos um vale que se adensa e que se aperta já em solos de granito e onde podemos ainda observar outros núcleos de expressão desenhada, particularmente de períodos da idade dos metais. Mas as pedreiras do Poio também se apresentam como um espaço de inquietação e de mistério para quem hoje as percorre. Há zonas da pedreira que estão desativadas que se assemelham à ruína de uma cidade habitada por colossos.

dd163-05 - Pedreiras do Poio, Vila Nova de Foz Côa. 1996

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Quatro elementos

[regressar onde 10] Em caminhada, a partir de um ponto elevado, colocarmos uma questão: o que é o Vale do Côa hoje? Podemos, talvez, destacar cinco elementos que marcam a atual paisagem do curso terminal do rio. Mais de duas décadas volvidas sobre o auge da polémica da interrupção da obra da barragem, pela sua singularidade, pela sua antiguidade e significado, as gravuras continuam a ser o coração do lugar. Um segundo elemento é, sem dúvida, a cicatriz deixada nas margens do rio pela obra abandonada da barragem. Houve extensos movimentos de terras que são hoje a marca de um combate perdido. A barragem do Pocinho, no rio Douro, não poderá ser excluída de uma análise deste território, pois enche uma albufeira que chega praticamente ao lugar da Penascosa, submergindo, desde 1983, vários núcleos de gravuras. O esvaziamento pontual da barragem permitiu revelar uma realidade que não fora atendida no período da construção daquela barragem. Um outro elemento é a quinta da Ervamoira, antiga quinta de Santa Maria, que também esteve sob a ameaça de submersão pelas águas da albufeira da barragem. Hoje esta quinta é como que um jardim desenhado num solo que se oferece com pendentes suaves.

na0281-10 - Penascosa, Vila Nova de Foz Côa. 1995

dd173-11 - Quinta da Ervamoira, Vila Nova de Foz Côa. 1996

dg315442 - Barragem, Vila Nova de Foz Côa. 2012

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Itinerários de margem

[regressar onde 09] Houve um momento em que um último trabalhador deixou os estaleiros. Nenhum funcionário voltaria ao serviço da obra. Já nada mais haveria para remover. Hoje apenas algumas pessoas visitam, ocasionalmente, a ruína de algo que não foi construído. Silêncio. Se aproximarmos o olhar do solo da ruína, vemos a natureza a tomar parte de algo que lhe fora estranho. Em todos os locais há vestígios de um processo de renaturalização que vai envolvendo os elementos. As britas deixadas no chão, que deveriam integrar o grande paredão da barragem, estão envoltas por musgo que reverdece com a chuva. As estruturas de betão construídas para o apoio da obra, mantêm a sua imponência rasa, de elementos abandonados prematuramente. Trilhos, carreiros de pé posto, muitas vezes quase impercetíveis, percorrem este labirinto acidentado. São os passos deixados por alguém que por qualquer motivo, atravessa esta paisagem contraditória, sem aparente motivo que o justifique. Breves marcas de passagem sem destino. Itinerários de margem.

dg222369 - Barragem, Vila Nova de Foz Côa. 2011

dg314243 - Barragem, Vila Nova de Foz Côa. 2012

dg315774 - Barragem, Vila Nova de Foz Côa. 2012