domingo, 16 de agosto de 2026

Setenave

[pst 498] Como que para manter a escala e no respeito natural por uma horizontalidade sem limite do estuário do Sado, pequenos pinheiros mansos, árvores do clima mediterrâneo,  crescem lentamente, plantados em solo aterrado, roubado ao rio, em área de indústrias pesadas e poluentes.

 

Setenave — zona industrial de Setúbal. 21 Jan. 97


 

sábado, 15 de agosto de 2026

Moinho de Maré

[pst 497] "No estuário do Tejo, este tipo de moinhos localiza-se, sobretudo, nos braços do Tejo que saem do mar da Palha, erguendo-se em lugares abrigados e de fácil acesso, quer pelo rio, quer por terra. Os principais complexos de moinhos de maré ergueram-se na margem sul do estuário do Tejo, onde se inventariaram 37 e na costa algarvia — só na área da Reserva Natural da ria Formosa se registaram 29. /Estes moinhos tiveram uma importância económica superior aos moinhos de vento e de água dos rios e ribeiros, na medida em que garantiam um funcionamento regular: não dependiam das irregularidades do vento, nem das secas ou cheias dos cursos de água; podiam funcionar durante todos os dias do ano, sempre que a maré vazava, isto é, oito horas por dia, em média". (António J. C. Maia Nabais. Moinhos de Maré — História do Concelho do Seixal).

 

Moinho de Maré. Seixal. 4 Set. 95


 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Barragem romana

[pst 496] "A cidade [de Lisboa] era alimentada por um aqueduto com cerca de 10 km de extensão. Ao quilómetro 16,423 da estrada nacional nº 250, de Caneças a Belas, ainda se conserva parte do dique da albufeira que abastecia o aqueduto. Esse dique, reforçado por gigantes, teria 50 m de comprimento por 7 de espessura, atingindo ainda hoje, na parte mais alta, 8 m". (Jorge Alarcão, Portugal Romano). O traçado deste aqueduto, obra que ilustra bem as capacidades técnicas que os Romanos introduziram neste território, seria sensivelmente o mesmo que, no século XVIII, era utilizado no aqueduto das Águas Livres.

Barragem romana, Belas. Sintra. 20 Jan. 97


 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Praia da Cova

[pst 495] Junto ao mar, no sopé da serra da Arrábida, a Leste de Sesimbra e sob uma das maiores falésias do litoral de Portugal, existe uma pequena fortaleza de defesa da orla marítima. É um sítio recôndito como outros há nesta Região que, apesar de densamente povoada, nos reserva surpresas como esta, lugares tão próximos e tão distantes.

 

Fortaleza — Praia da Cova. Sesimbra. 4 Set. 93


 

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Santuário do Senhor da Boa Morte

[pst 494] Implantado numa elevação sobranceira ao Tejo, um pouco a norte de Vila Franca de Xira, o santuário do senhor da Boa Morte, continua a ser um local de romaria. Já o era pelo menos desde o século XVII, no entanto a ocupação do lugar remonta a um passado muito mais recuado. É provável que a sua fundação se tenha dado durante a época romana para mais tarde, em tempos medievais, o lugar ser reocupado. As sepulturas antropomórficas, escavadas na rocha em fiadas paralelas são deste período.

Santuário do Senhor da Boa Morte. Vila Franca de Xira.  29 Jul. 96


 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tholos do Monge

[pst 493] A serra de Sintra, pela sua posição e altitude, exerceu desde tempos remotos um poderoso fascínio sobre os habitantes da região. A sua penedia granítica e descarnada terá motivado a designação de Serra da Lua, encontrada em textos de autores antigos. Num dos seus pontos mais altos, situa-se um monumento funerário, o Tholos do Monge, cujos materiais aí descobertos em trabalhos arqueológicos remetem a utilização daquele espaço para o período Calcolítico.

 

Tholos do Monge — Serra de Sintra. Sintra. 20 Jan. 97

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Castro de Leceia

[pst 492] José Leite de Vasconcelos refere nas Religiões da Lusitânia que "Effectivamente a cumeada de Liceia, defendida por penedos naturaes e por um parapeito, situada junto de um rio, e com agoa potavel em abundancia, tem, pela descrição de Carlos Ribeiro, o aspecto exterior de um castro. Alem d' isso, — facto caracteristico d' esta especie de monumentos —, ha ao pé um outeiro, chamado Castello, e não faltão por aqueles sítios lendas populares, como o prova o logar da Moira, tambem situado perto". O interesse do local é reconhecido desde o século XIX. Escavações entretanto realizadas puseram a descoberto os alicerces de um sistema defensivo formado por torres e muros construídos com grandes blocos de calcário.

Castro de Leceia, Barcarena. Oeiras. 28 Jul. 90


 

domingo, 9 de agosto de 2026

Barreira

[pst 491] À semelhança de Negrais, também os afloramentos rochosos deverão ter motivado a sacralização do lugar por parte de comunidades pré-históricas. Houve quem defendesse a tese de o sítio definir um cromeleque, no entanto não são claramente visíveis alinhamentos intencionais destes rochedos, tal como acontece em monumentos megalíticos do Alentejo. É assinalável o intenso carácter telúrico transmitido por estes emergentes e enormes penedos arredondados.

Barreira — Odrinhas. Sintra. 17 Jan. 97




 

sábado, 8 de agosto de 2026

Serra da Arrábida

[pst 490] "O mais precioso resto de uma mata mediterrânea primitiva existe na encosta da serra da Arrábida, no recôncavo de uma baía de águas serenas como num mar interior, em exposição meridional tão perfeita que o relevo intercepta as influências do oeste e do norte, com os seus ventos húmidos e frescos. A temperatura média de Inverno é notavelmente elevada (13o a 15o), constituindo assim uma ilha de clima mediterrâneo quente que só no Algarve tem paralelo". (Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal).

Serra da Arrábida, S. Lourenço de Azeitão. Setúbal.  2 Fev. 92


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pedra Furada

[pst 489] Entre Pero Pinheiro e a aldeia de Negrais há um conjunto singular de rochedos recortados denominados lapiás. Foram desentranhados de uma bancada calcária muito erodida dando origem a afloramentos pétreos com formas pouco vulgares. Instalou-se ali um povoamento em tempos Pré-históricos; escavações puseram a descoberto uma quantidade considerável de artefactos constituídos por materiais líticos, cerâmicos e em osso. Ainda hoje a toponímia e lendas locais revelam o carácter mágico do lugar.

Pedra Furada — Montelavar. Sintra. Abr. 91

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Intuição e precisão

[Paisagem Cruzada 25/25] Não tenho a linguagem precisa das ciências. Aquilo sobre o que escrevo não deixa de ser uma leitura intuitiva da minha relação com o mundo, com o caminhar, com o observar, com a produção de artefactos de comunicação, com o arquivo de informação, como as fotografias, com as reflexões livres que misturam empirismo com leituras de obras de natureza muito diversa. A vida, tida individualmente, não deixa de ser uma experiência, um exercício e um jogo de enorme complexidade. Neste movimento vital há que apurar um sentido crítico sobre o falso, sobre a charlatanice, sobre a evidente e estéril mentira, sobre os poderes oportunistas. No fundo, engrenar na lógica da vida, nessa vertigem que destrói, que apaga, o que é estéril. Sentir o vento na cara, pressentir tempestades, ser racionalmente corajoso, sabendo que há outras possibilidades.

 

Caderno Súmula, Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Olhar do trabalho

[Paisagem Cruzada 24/25] O que posso escrever, dizer, tem uma estrita relação com o meu trabalho. Caminho sobre a terra com um dispositivo de visão, uma câmara fotográfica. Observo e registo o espaço. Fixo pedaços de tempo. Um arquivo-memória cresce e exige um considerável trabalho (uso aqui esta palavra no sentido da Física, a aplicação de uma força a um corpo que lhe altera uma posição inicial; há energia que se aplica, que se vai buscar a outro lado do sistema, em que parte se dissipa, gerando maior complexidade e entropia). Mais de 2.500.000 de fotografias obrigam à criação de ferramentas metodológicas específicas. A sensação é a de estarmos em perda permanente. Como um organismo que cresce em que passo exige um esforço adicional em relação ao anterior. Há momentos em que deixa de ser possível voltar atrás.

 

Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Raridade

[Paisagem Cruzada 23/25] A vida é uma manifestação de ordem contra a entropia. Talvez por isso a vida deva ser rara no Universo. Ainda não conhecemos vida fora do nosso planeta. A Próxima Centauri é a estrela mais próxima do sistema solar. Fica a 4,2 anos-luz do nosso Sol. Tudo, no Universo, é demasiado distante, e a nossa Terra é demasiado única para que não a tratemos com o máximo cuidado.

 

Monsaraz, prox., Reguengos de Monsaraz, 2006

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Modelos lógicos

[Paisagem Cruzada 22/25] Numa cidade do conhecimento talvez seja mais fácil perceber a lógica da vida. Desenvolver modelos sociais que não assentem na superioridade moral de uns grupos sobre os outros, nem numa crença irracional na ideia de mérito e de virtude, ou que uma economia próspera trará riqueza para toda a gente. A construção de uma cidade ideal é uma ilusão. Os conflitos, a divergência, são fundamentais. A vida é também fundada em relações, no diálogo que, não raras vezes, assume a face de confronto, de guerra. Aprimoramos sistemas defensivos, imunitários, que são construções notáveis da própria vida. Não vamos acreditar em paraísos que nunca vão ser encontrados. A vida é uma viagem, é, para cada um de nós, o habitar um hiato de tempo e espaço no Universo, é sermos o elo de ligação entre o passado e o presente. Nesta linha que nos cabe, convertemos matéria em energia e vice-versa. E assim desenhamos utopias que nos dão alento para não desistir. Talvez seja esta, e uma enorme curiosidade pelo conhecimento, o mais distintivo traço Homo sapiens.

 

Barrocal do Douro, Picote, Miranda do Douro, 2026

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sistemas de conhecimento

[Paisagem Cruzada 21/25] Promover diferentes sistemas de conhecimento. Não sou professor, embora já tenha passado pelo ensino. Apontaria alguns princípios metodológicos para uma transformação da maior parte dos atuais modelos de ensino-aprendizagem. Promover o caminhar e o contacto com a Natureza (próxima dos locais de habitar de cada população). Promover as manualidades e o uso do corpo, da expressão corporal, na qual incluiria o teatro, a dança e o desporto. Estimular a escrita manual e o desenho. Não negar nenhuma das ferramentas eletrónicas atuais, mas usá-las com moderação, sobretudo pelos mais jovens. Não perder o contacto com o mundo analógico. Como linha programática, fundar as aprendizagens na evidência e na capacidade que a arte tem para nos mostrar o sublime, mesmo quando os conceitos são mais complexos. Sensibilizar os estudantes de qualquer idade para o lento processo evolutivo que nos conduziu ao presente. A biologia é um fascinante labirinto que se ergue das ciências fundamentais (a Física e a Química), com o apoio da linguagem matemática. Em última instância, tudo o que existe no Universo pode ser traduzido em expressões numéricas. Para fazermos qualquer coisa, não precisamos de ter dentro de nós a mais erudita biblioteca. Fazer é não temer.

 

Barrocal do Douro, prox., Picote, Miranda do Douro, 2026

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Que lugar?

[Paisagem Cruzada 20/25] Não creio que as religiões nos afastem de um beco sem saída, do vórtice em que estamos mergulhados. O pensamento de uma transcendência pode ter um significado individual e ser pontualmente benéfico para quem o exercita. Não creio que para um grupo alargado de pessoas uma ideia de religião seja fértil, ou nos conduza, globalmente, a um lugar melhor.

 

Paradela, prox., Miranda do Douro, 2024

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Método e pensamento

[Paisagem Cruzada 19/25] Estas são notas soltas para o pensamento da vida. É o desenvolvimento de ferramentas metodológicas em vários níveis de operatividade. Uma constelação de gestos desde o ato de caminhar, da recolha fotográfica, do arquivo de imagens, da produção de artefactos de comunicação, até à sistematização de ideias, no desprendimento de um mundo clássico que não pode deixar de ser olhado criticamente. E estamos numa fase sensível da história da Terra. Pela primeira vez na história da vida há uma espécie que está a provocar uma extinção em massa. As cinco grandes extinções que encontramos no registo fóssil, foram provocadas por eventos geológicos e climáticos, entre meteoritos e vulcões. Agora, com uma crescente celeridade, estamos, Homo sapiens, a mudar o clima. A resposta lenta deste mesmo clima tende a acelerar e parece ser uma evidência que o processo é irreversível. Talvez a humanidade um dia se tenha que juntar como um todo. Abolir fronteiras, alterar paradigmas culturais, locais, regionais, nacionais, e apontar para uma nova urbanidade. O regresso ao passado é manifestamente impossível, a não ser pela via da catástrofe.

Duas Igrejas, Miranda do Douro, 2024

 

domingo, 26 de julho de 2026

História única

[Paisagem Cruzada 18/25] A história do planeta que habitamos é só uma. Tudo quanto existe foi aqui gerado, desde a formação, por acreção, de um corpo incandescente que encontrou uma órbita em torno de uma estrela. Essa órbita está a uma distância exata para que se encontre água no estado líquido.

Rio Douro, São João das Arribas, Aldeia Nova, Miranda do Douro, 2024

 

sábado, 25 de julho de 2026

A criatividade da Natureza

[Paisagem Cruzada 17/25] Interessa-me a arte do ponto de vista da biologia. Não reproduziremos, de forma mais complexa, a criatividade da própria Natureza? Não segue a arte os princípios lógicos da vida? Na Terra, um corpo celeste em que tudo tem uma origem comum e está interligado, há algo que esteja fora da lógica da vida?

 

Poiares, prox., Freixo de Espada à Cinta, 2024

Santo Andrés, prox., Cércio, Miranda do Douro, 2024

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Não há propósito

[Paisagem Cruzada 16/25] Na natureza, qualquer espécie não evolui com um propósito que não seja a sobrevivência, a reprodução, a adaptação permanente a um mundo dinâmico, que constantemente se transforma, a ritmos mais ou menos acelerados. Nada permanece.

 

Vale da ribeira do Mosteiro, Poiares, Freixo de Espada à Cinta, 2024

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dureza e evolução

[Paisagem Cruzada 15/25] Os tempos antigos, que nos são revelados pela arqueologia, são fascinantes, falam-nos de uma luta contínua pela sobrevivência, de momentos de extrema dureza e de um processo evolutivo descontínuo e sempre imprevisível.

 

Miranda do Douro, 2024

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Realidade híbrida

[Paisagem Cruzada 14/25] A realidade não é algo fixo mas um mundo em transformação contínua. A maior evidência disto é a história do nosso planeta. De um um corpo celeste incandescente e inadequado à vida, foi evoluindo ao longo de milhares de milhões de anos até se tornar um habitat de vida, primeiro de bactérias e organismos unicelulares para formas mais complexas, plantas e animais. O que hoje fazemos condiciona o futuro breve.

Poiares, prox., Freixo de Espada à Cinta, 2024


terça-feira, 21 de julho de 2026

Vida e informação

[Paisagem Cruzada 13/25] Desde as suas formas mais básicas, elementares, a vida interpreta o entorno, transforma sinais, informação, em linguagem. Há quem defina a arte como algo inútil, sem qualquer funcionalidade. De algum modo a arte mimetiza processo biológicos básicos de ensaio adaptação a uma realidade em movimento. Neste sentido, a arte é profundamente útil. Como a ciência, a arte especula sobre novas interpretações da realidade. Os processos criativos são muito semelhantes na arte e na ciência. Partem da intuição que, no cérebro, no corpo de cientistas e artistas, conectam novas possibilidades de sentido da realidade. Mesmo as metodologias, sendo na ciência um conjunto de preceitos fixados, tendem a aproximar-se. Mesmo na arte, de forma menos sistemática, há uma sucessiva sobreposição de camadas que confluem numa obra. Há processos evolutivos na vida dos artistas e dos cientistas, como acontecem em qualquer ponto do planeta onde haja vida, estejamos, humanidade, presentes ou não.

 

Monóptero de São Gonçalo, Penas Róias, Mogadouro, 2024

 

Penas Róias, prox., Mogadouro, 2024

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Evidências incontornáveis

[Paisagem Cruzada 12/25] Estamos longe de conhecer tudo, mas já há uma série de evidências incontornáveis e sem contradições que nos falam da formação da Terra e da sua transformação ao longo de milhões de anos. Há evidências sobre a origem microscópica da vida, a sua evolução, ou sobre a origem das espécies e a forma como se foram desdobrando noutras espécies ao longo de milhares ou milhões de anos. Nunca vamos saber tudo, ou ter a certeza absoluta sobre a verdade de um determinado facto. Há dados que estão consolidados, que passaram de teorias a factos, como o campo gravítico da Terra, a deriva dos continentes, o evolucionismo. Saibamos distinguir as narrativas humanas, a sedutora literatura de mitos fundacionais da vida e de nós próprios, de uma realidade que, por vezes é tão estranha e, seguramente, muito mais rica do que qualquer narrativa humana escrita no passado.

 

Miradouro da Fraga Amarela, Picote, Miranda do Douro, 2025

 

domingo, 19 de julho de 2026

Explicar fenómenos

[Paisagem Cruzada 11/25] Admiro a história humana que nos trouxe ao presente, mas não vejo qualquer misticismo ou transcendência na Natureza. Entendo a religião como um fenómeno de relação com o desconhecido, que teve um papel fundamental no passado, ao longo de alguns milhares de anos. Atualmente não é necessária a religião para explicar o que quer que seja do mundo natural, apesar de muito ser ainda pouco conhecido. No entanto, as religiões, que são narrativas humanas, não deixam de traduzir um retrato de nós próprios à procura do conhecimento da realidade. A religião procura dar sentido a algo que não tem sentido, que é a vida. Tudo o que existe na Terra deve-se a fenómenos que são explicados pela ciência. E o que hoje nos escapa, assim tenhamos tempo, será conhecido no futuro.

 

Ermitério Os Santos, Picote, Miranda do Douro, 2024

 

sábado, 18 de julho de 2026

Gestos intencionais

[Paisagem Cruzada 10/25] Há muitas interpretações que cruzam arte, religião, arqueologia e vários outros campos de saber. O género Homo já, há mais de um milhão de anos, deixava o rasto de gestos intencionais em utensílios e parcos vestígios de habitação, de acampamentos. Foz Côa, bem como outros lugares, sobretudo grutas, mostra-nos a representação de, predominantemente, animais. Entendo Foz Côa como o embrião de uma cidade humana. O hiato temporal em que nos começámos a desprender de uma natureza intacta e a criar o nosso próprio habitat. Um gesto conceptual de profundo significado na história da vida na Terra.

 

Sítio da Quinta da Barca, Chãs, Vila Nova de Foz Côa, 1996

Sítio da Penascosa, Chãs, Vila Nova de Foz Côa, 1996

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Visão

[Paisagem Cruzada 09/25] Entendo a fotografia, sobretudo, como visão, menos como a procura de imagens soltas a que poderíamos chamar arte. Em 1995 fotografei as gravuras do Côa. Estávamos no auge de uma polémica que marcou uma parte do quotidiano informativo de então. A construção da barragem de Foz Tua iria provocar a submersão de um notável conjunto de gravuras datadas do Paleolítico Superior. Foi nesta altura que conheci estes desenhos inscritos na pedra. Trata-se de uma obra gráfica absolutamente singular, pela sua antiguidade, pela beleza dos seus traços, pela estranheza como irrompem na paisagem e a, subtilmente, transformam.

 

Sítio da Penascosa, Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, 1995

Sítio da Penascosa, Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, 1995

 

sábado, 11 de julho de 2026

O sentido e a lógica

[Paisagem Cruzada 08/25] Num lugar afastado de grandes centros urbanos, como esta antiga escola primária de Picote, podemos desenhar um ensaio, uma experiência para o uso do tempo. A vida não tem sentido, mas tem princípios lógicos, formulações, equações matemáticas, relações das quatro forças elementares que gerem o Universo. Articulamos geometrias à procura da fertilidade, da permanência. Entre mutações aleatórias, erros, improbabilidades, dispersões de significado, explosões, deixamos linhas nas paisagens que atravessamos. Mais tarde, podemos observar traços que são ensaios de futuro.

 




 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O entorno da entropia

[Paisagem Cruzada 07/25] Em frases soltas, reflexões entrelaçadas. Há um país inteiro, fragmento planetário, que se percorre com uma câmara fotográfica, um dispositivo de visão. São geradas imagens, textos e quadros que se constituem num arquivo. Lugar de memória. Realidades paralelas erguem-se para lá de uma ideia de representação. A par de artefactos de comunicação e partilha, como esta exposição, Paisagem Cruzada, cresce a entropia de um sistema que se articula com tudo o que o rodeia. Há o sedutor apelo de uma vertigem em aceleração.