segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Bucelas

[pst 513] As mais recentes e grandiosas obras da Área Metropolitana de Lisboa desenvolvem-se numa geometria linear. Têm um pavimento betuminoso e são percorridas a altas velocidades. Por vezes furam a terra em extensos túneis ou levantam-se do chão numa singular leveza. São elementos para a leitura de uma nova ordem deste território.

Circular Regional Exterior de Lisboa, Bucelas. Loures.  20 Jan.97


 

domingo, 30 de agosto de 2026

Alhandra

[pst 512] As grandes instalações industriais situadas à beira rio são as estruturas que mais marcam a paisagem das margens. Estranhos, poderosos e poluentes, são os recentes habitantes de betão e ferro das áreas mais desenvolvidas de Portugal.

 

Fabrica de Cimentos Tejo — Alhandra. Vila Franca de Xira.  18 Jan. 97


 

sábado, 29 de agosto de 2026

Póvoa de Santa Iria

[pst 511] Ao longo das margens do Tejo acontecem numerosas formas de ocupação dessa estreita faixa de terra próxima da água. Os pequenos povoados de pescadores revelam uma dimensão menos conhecida desta paisagem ribeirinha. Têm uma escala reduzida e hoje encontram-se escondidos por edifícios mais altos. Situadas entre o bairro e a linha de água há construções, feitas à base de madeira e detritos industriais, assentes sobre estacaria, onde geralmente são guardados equipamentos necessários à faina fluvial. É a partir daí, por um delicado embarcadouro, que é feito o acesso às embarcações.

 

Cais paliçado — Póvoa de Santa Iria. Vila Franca de Xira. 3 Set. 95


 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Barroca

[pst 510]  

[...]

      E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

[...]

 

Cesário Verde, O sentimento dum ocidental — O Livro de Cesário Verde

 

Barroca, Amora. Seixal. 4 Set. 95


 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponta dos Corvos

[pst 509] Os espaços residuais, decorrentes de actividades extintas ou alteradas pela evolução tecnológica, criam por vezes enormes vazios que tardam em ser reocupados por outro tipo de construções que "rentabilize" a sua superfície. Como a seca de bacalhau, na Ponta dos Corvos, em frente ao Seixal, permanece em abandono, enquanto uma vegetação rasteira toma progressivamente o sítio. Aqui, rodeados por uma urbanização maciça e sem ordem, encontramos um lugar em que somos levados a reflectir sobre os fazeres dos homens e a forma de como estes se relacionam com o seu espaço de habitar.

 

Seca do Bacalhau — Ponta dos Corvos. Seixal. 7 Abr. 90

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Trafaria

[pst 508]  

     En Lixboa sobre o mar

barcas novas mandei lavrar,

     ai mia senhor velida!

 

     En Lixboa sobre lo ler,

barcas novas mandei fazer,

     ai mia senhor velida

 

     [B]arcas novas mandei lavrar

e no mar as mandei deitar,

     ai mia senhor velida!

 

     [B]arcas novas mandei fazer

e no mar as mandei meter,

     ai mia senhor velida!

 

Joan Zorro, Cantigas de Amigo

 

Trafaria (prox.). Almada. 8 Set. 95


 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sesimbra

[pst 507] Sesimbra desenvolvera-se no cume de um morro sobranceiro mas um pouco distante do mar. É aqui que entra D. Afonso Henriques, após a conquista do castelo aos Mouros. Talvez já existisse então o povoado ribeirinho habitado por pescadores. Mais tarde o antigo burgo entra em decadência e é progressivamente abandonado para a sua população passar a viver nas terras baixas, no seio de uma concha onde convergem numerosos ribeiros, que mais tarde viria dar origem a um mais importante porto de pesca e a um lugar turístico, anexo a Lisboa.

 

Sesimbra. 21 Jan. 97


 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Almada

[pst 506] "Quis a sorte que assim fosse e o Tejo abrisse no calcário estremenho um estuário largo e majestoso, fundo e aconchegado, que, depois de magoar os montes, os transformasse em miradoiros de sonho. E de cada colina onde a gente se debruça é o pasmo sem limitações, que abrange o céu e a terra na mesma agradecida emoção. Sobre a toalha límpida do rio cai luz a jorros de uma lâmpada hialina, escondida no tecto azul do cenário; e o movimento ritmado das embarcações, o perfil recortado do casario e o enquadramento dos longes arredondam a beleza da tela, dando-lhe realidade. E, quer queira, quer não, o espírito fica rendido a uma bênção de cor, de grandeza e de harmonia". (Miguel Torga, Portugal).

 

Almada. 4 Set. 95


 

domingo, 23 de agosto de 2026

Zona industrial de Setúbal

[pst 505] Todo o litoral localizado a este de Setúbal é fortemente industrializado, particularmente numa faixa de terra entre o rio Sado e o esteiro do Carvão. Ao percorrermos a estrada marginal encontramos, de um lado, as indústrias pesadas — os grandes estaleiros navais, fábricas de papel, tratamento de minério, entre outras; do outro, um lago imperturbável.

 

SAPEC — zona industrial de Setúbal. 21 Jan. 97


 

sábado, 22 de agosto de 2026

Aqueduto das Águas Livres

[pst 504] O aqueduto das Águas Livres é a maior e mais majestosa das obras do género construídas em Portugal. O processo que levou à sua construção é complexo e demorado. A primeira proposta de abastecimento de água à zona ocidental de Lisboa parte de Francisco de Holanda, ainda durante o reinado de D. Sebastião. Durante o reinado dos Filipes foram feitos importantes estudos. Só com D. João V, numa nova retoma do projecto, a obra é encetada no ano de 1731. No ano da sua conclusão, em 1748, o aqueduto atinge uma dimensão que excede os 58 km lineares, entre as nascentes do vale de Carenque e a Mãe de Água, situada no Rato, em Lisboa. A sua presença continua hoje a marcar, de forma impressiva e poderosa, os lugares do seu trajecto.

 

Aqueduto das Águas Livres, Caneças. Loures. 20 Jan. 97

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Montemor

[pst 503] Se quando percorremos alguns lugares mais desertos e inóspitos de Portugal nos sentimos de algum modo fascinados pela dimensão da sua solidão, não ficaremos, certamente, indiferentes à paisagem observada do cume de alguns cabeços nus na Área Metropolitana de Lisboa. Podemos aqui experimentar também uma estranha e ambígua noção de solidão. É um mundo diferente, uma malha urbanizada que alastra como uma mancha de óleo sem um fim perceptível. É o novo e perturbador território dos homens.

 

Montemor. Loures. 23 Jan. 97



quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Laveiras

[pst 502] Não é apenas a construção de novos edifícios que contribui para a alteração da fisionomia dos espaços envolventes da cidade de Lisboa. A movimentação de terras, algumas de dimensão excessiva, nomeadamente para a edificação de grandes estruturas, alteram profundamente a topografia existente, contribuindo pouco a pouco para o desaparecimento de uma lógica primordial de entendimento da superfície da terra, baseado em montes e vales. Desenvolvem os homens novos padrões de leitura do espaço habitado.

 

Laveiras. Oeiras. 28 Jul. 90


 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Falagueira

[pst 501] "As formas e espaços da chamada arquitectura dos clandestinos assumem hoje uma diversidade tal — poética, construtiva, funcional, plástica — que se torna urgente e interessante inventariar ou pelo menos listar as suas díspares modalidades, e tentar explica-las ou enquadra-las à luz de conceitos mais frescos e operacionais do que a simples polémica dos gostos renovados ou do espontaneísmo individualista e afirmativo, implícitos na criação arquitectural clandestina". (José Manuel Fernandes, Para uma introdução tipológica ao mundo clandestinoClandestinos em Portugal).

 

Moinho de vento, Falagueira. Amadora. Dez. 91


 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Agonia

 [pst 500] Até tempos recentes a implantação de edifícios obedecia a princípios relativamente claros, que se relacionava com a topografia do lugar ou com a preexistência de outras construções. Havia também uma rede viária que ajudava a conferir sentido às manchas urbanas. Hoje talvez seja cedo demais para compreendermos como nascem prédios de habitação de campos de cereais.

Edifícios de habitação — Agonia (prox.). Loures.  23 Jan. 97


 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Serra de Carnaxide

[pst 499] Como acontece no resto da Estremadura, os moinhos de vento eram numerosos na região a norte de Lisboa. Na cumeeira da serra de Carnaxide, encontramos ainda as ruínas de alguns. Ocupam aqui um estranho vazio, que parece ter ficado esquecido de uma urbanização desenfreada que lhe chega perto.

 

Moinhos de vento — Serra de Carnaxide. Oeiras. 25 Jul. 90


 

domingo, 16 de agosto de 2026

Setenave

[pst 498] Como que para manter a escala e no respeito natural por uma horizontalidade sem limite do estuário do Sado, pequenos pinheiros mansos, árvores do clima mediterrâneo,  crescem lentamente, plantados em solo aterrado, roubado ao rio, em área de indústrias pesadas e poluentes.

 

Setenave — zona industrial de Setúbal. 21 Jan. 97


 

sábado, 15 de agosto de 2026

Moinho de Maré

[pst 497] "No estuário do Tejo, este tipo de moinhos localiza-se, sobretudo, nos braços do Tejo que saem do mar da Palha, erguendo-se em lugares abrigados e de fácil acesso, quer pelo rio, quer por terra. Os principais complexos de moinhos de maré ergueram-se na margem sul do estuário do Tejo, onde se inventariaram 37 e na costa algarvia — só na área da Reserva Natural da ria Formosa se registaram 29. /Estes moinhos tiveram uma importância económica superior aos moinhos de vento e de água dos rios e ribeiros, na medida em que garantiam um funcionamento regular: não dependiam das irregularidades do vento, nem das secas ou cheias dos cursos de água; podiam funcionar durante todos os dias do ano, sempre que a maré vazava, isto é, oito horas por dia, em média". (António J. C. Maia Nabais. Moinhos de Maré — História do Concelho do Seixal).

 

Moinho de Maré. Seixal. 4 Set. 95


 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Barragem romana

[pst 496] "A cidade [de Lisboa] era alimentada por um aqueduto com cerca de 10 km de extensão. Ao quilómetro 16,423 da estrada nacional nº 250, de Caneças a Belas, ainda se conserva parte do dique da albufeira que abastecia o aqueduto. Esse dique, reforçado por gigantes, teria 50 m de comprimento por 7 de espessura, atingindo ainda hoje, na parte mais alta, 8 m". (Jorge Alarcão, Portugal Romano). O traçado deste aqueduto, obra que ilustra bem as capacidades técnicas que os Romanos introduziram neste território, seria sensivelmente o mesmo que, no século XVIII, era utilizado no aqueduto das Águas Livres.

Barragem romana, Belas. Sintra. 20 Jan. 97


 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Praia da Cova

[pst 495] Junto ao mar, no sopé da serra da Arrábida, a Leste de Sesimbra e sob uma das maiores falésias do litoral de Portugal, existe uma pequena fortaleza de defesa da orla marítima. É um sítio recôndito como outros há nesta Região que, apesar de densamente povoada, nos reserva surpresas como esta, lugares tão próximos e tão distantes.

 

Fortaleza — Praia da Cova. Sesimbra. 4 Set. 93


 

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Santuário do Senhor da Boa Morte

[pst 494] Implantado numa elevação sobranceira ao Tejo, um pouco a norte de Vila Franca de Xira, o santuário do senhor da Boa Morte, continua a ser um local de romaria. Já o era pelo menos desde o século XVII, no entanto a ocupação do lugar remonta a um passado muito mais recuado. É provável que a sua fundação se tenha dado durante a época romana para mais tarde, em tempos medievais, o lugar ser reocupado. As sepulturas antropomórficas, escavadas na rocha em fiadas paralelas são deste período.

Santuário do Senhor da Boa Morte. Vila Franca de Xira.  29 Jul. 96


 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tholos do Monge

[pst 493] A serra de Sintra, pela sua posição e altitude, exerceu desde tempos remotos um poderoso fascínio sobre os habitantes da região. A sua penedia granítica e descarnada terá motivado a designação de Serra da Lua, encontrada em textos de autores antigos. Num dos seus pontos mais altos, situa-se um monumento funerário, o Tholos do Monge, cujos materiais aí descobertos em trabalhos arqueológicos remetem a utilização daquele espaço para o período Calcolítico.

 

Tholos do Monge — Serra de Sintra. Sintra. 20 Jan. 97

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Castro de Leceia

[pst 492] José Leite de Vasconcelos refere nas Religiões da Lusitânia que "Effectivamente a cumeada de Liceia, defendida por penedos naturaes e por um parapeito, situada junto de um rio, e com agoa potavel em abundancia, tem, pela descrição de Carlos Ribeiro, o aspecto exterior de um castro. Alem d' isso, — facto caracteristico d' esta especie de monumentos —, ha ao pé um outeiro, chamado Castello, e não faltão por aqueles sítios lendas populares, como o prova o logar da Moira, tambem situado perto". O interesse do local é reconhecido desde o século XIX. Escavações entretanto realizadas puseram a descoberto os alicerces de um sistema defensivo formado por torres e muros construídos com grandes blocos de calcário.

Castro de Leceia, Barcarena. Oeiras. 28 Jul. 90


 

domingo, 9 de agosto de 2026

Barreira

[pst 491] À semelhança de Negrais, também os afloramentos rochosos deverão ter motivado a sacralização do lugar por parte de comunidades pré-históricas. Houve quem defendesse a tese de o sítio definir um cromeleque, no entanto não são claramente visíveis alinhamentos intencionais destes rochedos, tal como acontece em monumentos megalíticos do Alentejo. É assinalável o intenso carácter telúrico transmitido por estes emergentes e enormes penedos arredondados.

Barreira — Odrinhas. Sintra. 17 Jan. 97




 

sábado, 8 de agosto de 2026

Serra da Arrábida

[pst 490] "O mais precioso resto de uma mata mediterrânea primitiva existe na encosta da serra da Arrábida, no recôncavo de uma baía de águas serenas como num mar interior, em exposição meridional tão perfeita que o relevo intercepta as influências do oeste e do norte, com os seus ventos húmidos e frescos. A temperatura média de Inverno é notavelmente elevada (13o a 15o), constituindo assim uma ilha de clima mediterrâneo quente que só no Algarve tem paralelo". (Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal).

Serra da Arrábida, S. Lourenço de Azeitão. Setúbal.  2 Fev. 92


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Pedra Furada

[pst 489] Entre Pero Pinheiro e a aldeia de Negrais há um conjunto singular de rochedos recortados denominados lapiás. Foram desentranhados de uma bancada calcária muito erodida dando origem a afloramentos pétreos com formas pouco vulgares. Instalou-se ali um povoamento em tempos Pré-históricos; escavações puseram a descoberto uma quantidade considerável de artefactos constituídos por materiais líticos, cerâmicos e em osso. Ainda hoje a toponímia e lendas locais revelam o carácter mágico do lugar.

Pedra Furada — Montelavar. Sintra. Abr. 91

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Intuição e precisão

[Paisagem Cruzada 25/25] Não tenho a linguagem precisa das ciências. Aquilo sobre o que escrevo não deixa de ser uma leitura intuitiva da minha relação com o mundo, com o caminhar, com o observar, com a produção de artefactos de comunicação, com o arquivo de informação, como as fotografias, com as reflexões livres que misturam empirismo com leituras de obras de natureza muito diversa. A vida, tida individualmente, não deixa de ser uma experiência, um exercício e um jogo de enorme complexidade. Neste movimento vital há que apurar um sentido crítico sobre o falso, sobre a charlatanice, sobre a evidente e estéril mentira, sobre os poderes oportunistas. No fundo, engrenar na lógica da vida, nessa vertigem que destrói, que apaga, o que é estéril. Sentir o vento na cara, pressentir tempestades, ser racionalmente corajoso, sabendo que há outras possibilidades.

 

Caderno Súmula, Exposição Paisagem Cruzada, Picote, Miranda do Douro, 2026