terça-feira, 13 de junho de 2017

Expansão e domínio

[funchal 41] O fogo recente foi uma tragédia diferente. Não nos vamos deter sobre a sua origem, mas sobre o seu desenrolar e domínio. Foram os madeirenses que controlaram uma tragédia de proporções bem maiores. Quem estava na cidade naquele dia 9 de agosto sabia que o fogo podia avançar sobre o centro histórico da urbe. Essa hipótese estava severamente equacionada. A população começou a juntar-se junto ao mar. As entradas e saídas da cidade, ruas, avenidas, vias rápidas, estavam bloqueadas pelo tráfego intenso e desorientado. Enquanto isso, na periferia, nas faces de avanço do fogo, incêndio era combatido com o espanto perplexo e o medo de quem o enfrentou na defesa das suas habitações, com meios que eram o nada de mangueiras de rega, baldes de improviso e coragem. As esses homens e mulheres que habitam os limites altos da cidade se deve a contenção de uma muito maior tragédia, o derrube de um gigante descontrolado.
Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Paiol

[funchal 40] Deste antigo paiol vemos a cidade a desenvolver-se até às cotas mais baixas, ao local onde tudo começou no século XV. O Funchal foi a primeira cidade do além mar, do movimento de conhecimento, reconhecimento e globalização de toda a Terra que ainda hoje não terminou. A cidade sobreviveu a mais uma tragédia. A 20 de fevereiro de 2010 nada poderia ser feito naquele momento, os erros de construção, de planeamento urbano ou da ausência dele, já tinham sido realizados ao longo de muito tempo. A água resultante das chuvas tinha que chegar ao mar e fê-lo com o seu enorme poder destruidor.
Paiol, Funchal. 2017

Defesa

[funchal 39] O antigo paiol é o mirante de onde olhamos ao longe as áreas queimadas, os lugares, um a um, onde o fogo se insinuou na malha urbana. Parece que adivinhamos a sua progressão ao redor da grande cidade, como uma dança trágica de labaredas aleatórias ocultadas por um fumo denso, um fogo poderoso e sem artifício, verdadeiro. Mas, dos relatos escutados, e das imagens que nos foi possível observar, depreendemos que houve uma grande aleatoriedade na evolução do incêndio. O calor era imenso e os ventos irrequietos, repentinos, revoltos em direções improváveis. Percebemos que não haveria corpo de bombeiros capaz de combater esta realidade. Como pôde então ser contido o fogo no seu avanço sobre o centro da cidade? Questionamo-nos depois de concluído o reconhecimento pelo perímetro negro ao redor da cidade.
Funchal. 2016

Natureza betonada

[funchal 38] Não será pela betonagem de superfícies que se vão evitar tragédias futuras, mas por uma muito maior sabedoria aplicada ao local de construção e às próprias formas e modos de edificar. A arquitetura tem de ser pensada de modo diferente, de modo mais ativo na defesa contra as intempéries. Não se pode lutar contra a Natureza, mas saber interpretar as suas dinâmicas de mudança, o seu carácter evolutivo, saber ler os sinais que ela nos dá. Todas as espécies biológicas procuram formas de equilíbrio momentâneo num meio de grande complexidade e dinamismo. A arquitetura tem que ter uma plasticidade evolutiva e o desafio do desenho integrador e de diálogo com as várias forças que se jogam na ilha da Madeira. Compromisso e cumplicidade no habitar. O respeito pela natureza específica do lugar. Se a expressão de fenómenos naturais é inevitável, ciclicamente, as suas consequências podem ser menos nefastas se a ocupação do território e as formas arquitetónicas forem desenhadas com o rigor que deriva de um olhar atento e uma investigação cuidada.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

domingo, 11 de junho de 2017

Desenho

[funchal 37] Trazer o desenho para uma postura mais ativa de defesa ‘contra’ a Natureza. Temos que, permanentemente, procurar soluções de adaptação. Mas sabemos que há situações que são de evitar. As cheias podem regressar, o fogo pode voltar. A vegetação vai voltar a crescer nas ribeiras, nos seus declives de mais difícil acesso. E esta vegetação é necessária para a fixação das terras e das penedias. Este é um dos fatores mais seguros para controlar a erosão. Ao mesmo tempo “vegetal” é sinónimo de vida, de nichos ecológicos ricos e de biodiversidade.
Funchal. 2017

Apagamento identitário

[funchal 36] Mesmo depois das obras, as ribeiras do Funchal vão continuar a estruturar a malha urbana da cidade, como sempre o fizeram, mas deixarão de ser uma referência de Natureza no coração da cidade. Daí advinha a sua força, o seu singular carácter telúrico. Está em apagamento essa tão forte memória, essa textura de uma cidade antiga, sobrevivente. Uma das suas mais fortes marcas identitárias. Agora é como que cortado um pacto que se estabeleceu com a Natureza há séculos atrás, no período da fundação da cidade.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Terra

[funchal 35] As ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes são a incursão de Natureza na malha urbana, trazem a montanha, a expressão geográfica mais forte e intensa da Madeira, para o centro da cidade. As duas últimas tragédias foram transportadas pelas ribeiras. Nas cotas baixas permanecem as obras de regularização das paredes e solo dessas linhas de água. É ainda o resultado de uma intervenção ditada por essa tragédia maior que foi o dia 20 de Fevereiro de 2010, quando chuvas inusitadas se transformaram em caudais destruidores. Curiosamente foram as ribeiras, com as suas paredes seculares, construídas em pedra, que melhor resistiram aos violentos caudais. O problema não estava nas ribeiras, mas em situações pontuais em que, a montante, se construiu no seu leito de cheia. Essas obras de betonagem das paredes, depois de concluídas, certamente não vão evitar cheias maiores, com aquelas que aconteceram. Haverá sempre tragédias que não se vão poder evitar, que vão ser imprevisíveis, é o que nos diz a história do planeta que habitamos e do povoamento humano dos lugares.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017