sábado, 21 de março de 2020

Toda a terra

[Arquitetura sublimada 03] O que fica destas viagens? Que memórias permanecem? Que pessoas entram e saem desta caminhada? Que lugares ficaram para trás? Como se transformou toda a terra? A enorme quantidade de fotografias que pontualmente faço é como que este desejo de responder a todas as perguntas, é o não deixar nada para trás, é o duplicar o real, fixá-lo, transportá-lo para um futuro imóvel, para um tempo que parou. O que encontro nas fotografias de 1990 da serra da Estrela, é já a perda da memória, o tudo que vivi e que não ficou fixado nas imagens, de que hoje quase nada permanece. Desejo de fixação, impossível, do tempo que passa, da transformação dos lugares. As fotografias tentam ser, numa fração de segundo, espaço e tempo e o procurar compreender o que é tudo isto que vemos, quem nos ergueu há milénios nesta nossa condição de passagem.
Cântaro Raso, Serra da Estrela, Manteigas. dg860328. 2018

sexta-feira, 20 de março de 2020

Estrela

[Arquitetura sublimada 02] A Serra da Estrela é um lugar especial. Invernos demasiado agrestes impedem a fixação permanente de comunidades humanas nesta montanha. São hoje lugares raros em Portugal, em que cada vez mais há a necessidade de deixar marcas nas paisagens, perdendo-se a referência de um espaço anterior ao povoamento humano. No extenso arquivo fotográfico que se vai tecendo revisitamos algumas fotografias antigas. Encontramos um conjunto de imagens da serra da Estrela. O dia 4 de agosto de 1990 era a data da primeira fotografia. A última era feita cinco dias depois, a 9 de agosto, já no lado poente da serra. Tinha sido a minha primeira ida àquela montanha. Daí para cá várias vezes subira ao topo do planalto central. Estava ali agora quase trinta anos depois e ao redor tudo parecia permanecer, como se nunca tivesse dali saído mas apenas viajado no tempo. Este é um percurso de circularidades, de perdas, ganhos, partidas, reencontros, sítios em transformação.
Penha dos Abutres, Serra da Estrela, Loriga, Seia. dg369719. 2013

quinta-feira, 19 de março de 2020

Fotografar

As publicações que se vão seguir resultaram de um texto que me foi solicitado para integrar a Revista Património, nº6, recentemente dado à estampa. A ideia foi a de refletir, a partir da minha prática específica da fotografia de mapeamento do território e da arquitetura, sobre o conceito de património. O texto teve como título "Arquitetura sublimada - a construção da fotografia".

[Arquitetura sublimada 01] Passavam poucos minutos das 6 horas da manhã do dia 4 de setembro de 2018. De Viseu partia para a serra da Estrela. Ali tinha estado poucos dias antes em registos de paisagem, com um grupo de trabalho que desenvolve um projeto de criação de um museu da paisagem, destinado à Internet (http://museudapaisagem.pt/). Nessa altura, embora tenha passado muito perto, não me tinha sido possível fotografar, com a devida demora, o Covão Cimeiro. O objetivo deste regresso era apenas esse, descer ao Covão e fotografar alguns dos notáveis afloramentos graníticos que ali acontecem. Ao chegar à serra, à Torre, um nevoeiro denso fez-me hesitar. Com uma visibilidade que ali não excederia os 50 metros, sentia que poderia ter sido em vão aquela deslocação. Desci, de carro, até à curva da estrada que mais se aproxima do Cântaro Magro. Eram 7h27m quando fiz as primeiras fotografias. As nuvens deslocavam-se rapidamente empurradas por um vento moderado permitindo boas perspetivas em horizontes entrecortados. Subi mais um pouco, mais algumas fotografias do Cântaro bem como do Covão Cimeiro, numa vista distante. Regressei depois à Torre. Estacionei e avancei para o meu destino. O nevoeiro mantinha-se, ali, bastante denso. Ao fim de, talvez, uns duzentos metros percorridos, voltei para trás. Iria tentar uma nova abordagem. Vou com o carro até ao acesso às pistas de ski, que estavam ocupadas por vacas a pastar. A esta cota, cerca de 1900 metros de altitude, a visibilidade já me permitia avançar. Era a quarta paragem, que se iria prolongar por mais de 7 horas de recolha fotográfica contínua. Percorri então o topo do Cântaro Gordo, depois desci ao Covão Cimeiro, para regressar depois de novo ao carro. Tinha, no fim desse hiato temporal, feito 1941 fotografias. Daí em diante ainda faria mais três paragens. Uma ida ao Cântaro Raso, outra à Torre, já sem nevoeiro, e uma última ao Corvo da Talada. A última fotografia foi feita às 20h21m55s. Estes eram os dados dos ficheiros da câmara fotográfica digital. Em sete deslocações para recolha fotográfica, ao longo do dia, somaria 12h53m58s de tempo de trabalho. Durante este período fiz 3.372 fotografias. Se ao tempo total subtrair as várias paragens, quer aquelas que fiz de carro, quer outras para descanso e alimentação, pausas estas, num total de 12 que somaram 1h27m51s, fico com 11h44m de recolha fotográfica. Dividindo o número total de fotografias por este período obtém-se 4,91 imagens por minuto, ou uma fotografia por cada 12 segundos e 35 centésimos.


Percursos realizados. Excerto da Carta Militar de Portugal, 1/25.000,  nº223 - Instituto Geográfico do Exército

Quadro de fotografias feitas e relação com as deslocações.
Provas de "contacto" das 3372 fotografias realizadas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Physis, de Carina Martins

Olhamos para estas fotografias com alguma estranheza inicial. São imagens escuras, noturnas, cujo detalhe nos escapa a um primeiro e breve olhar. Mas há ali qualquer coisa que nos interpela. Aproximamo-nos, depois, voltamos a querer algum afastamento. Vamos penetrando nas dimensões ambíguas desta linguagem. Não são imagens fáceis, são capturas de natureza mas não nos devolvem o espanto dos lugares, há um silêncio vibrante de inquietação, eventualmente medo, sobre um olhar reflexo que é, simultaneamente turvo e límpido. Talvez uma viagem dentro da memória mais remota das nossas células, do nosso ADN, muito antes do tempo das cidades. São fotografias com as quais podemos estabelecer uma ambígua familiaridade. Aqui estamos simultaneamente dentro e fora da Natureza. Carina Martins, com simplicidade e despojamento, mostra-nos o risco e a liberdade, a incerteza do futuro.

Physis é um conjunto de 7 fotografias de Carina Martins, expostas em Venha a Nós a Boa Morte, em Viseu. O trabalho faz-se acompanhar de uma folha de sala com um texto de Rui Ibañez Matoso, que assina a curadoria. São palavras que com as imagens estabelecem uma leitura desafiante e aberta, inscrevendo ambos numa contemporaneidade dominada por esta relação de afastamento à Natureza e à emergência célere do aquecimento global. Parece ser esta a mais vincada marca do Antropoceno.


Physis, de Carina Martins, Viseu. 2020



sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sobre as fotografias

[Alberto Carneiro 24] No livro Alberto Carneiro, Natureza Dentro fotografias do capítulo 1 (Guimarães) e do capítulo 8 (Cidade), foram feitas em Guimarães, em 2015 e 2016. As imagens dos capítulos 2 (Formões, goivas, grosas, serras), 3 (Biblioteca), 4 (Arte), 5 (Jardim) e 7 (Regresso), foram feitas no espaço de trabalho de Alberto Carneiro, em São Mamede do Coronado, Trofa, em 2016. O capítulo 6 (Terra) mostra fotografias feitas em diversos lugares de Portugal e algumas em Cabo Verde entre 2007 e 2016. [Esta é a última publicação relativa a esta série sobre Alberto Carneiro].

Espaço de Alberto Carneiro, São Mamede do Coronado, Trofa. 2016

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Nota final

[Alberto Carneiro 23] Conheci pessoalmente Alberto Carneiro em Outubro de 1987. Trinta anos decorreram desde essa data. Nesta natureza intacta, cidade imaginária, nos encontramos. Em mim ficou esse fascínio da ligação entre o ensino e a obra, os diálogos do olhar, as conversas que mantivemos depois de terminado o ano, os contactos esparsos ao longo destas três últimas décadas. A amizade, uma profunda admiração e gratidão. Continuamos a caminhar.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Natureza nova

[Alberto Carneiro 22] Esta nova natureza, de Alberto Carneiro, é uma escrita, uma linguagem, uma tradução de um mundo vasto, ao mesmo tempo que nela vemos as marcas deixadas pela mão, pelos instrumentos de trabalho, a imensa força, desejo, entrosamento, que todas estas peças contêm, que nelas está contido, como se sobre aquelas texturas tivessem sido desenhadas outras paisagens. O que vemos são também mapas, os mapas para um regresso ao campo, ao habitar este limbo de uma beleza tão inquietante e poderosa. O trabalho de Alberto Carneiro liga o mais remoto passado a um futuro possível. Não nega as possibilidades evolutivas de afastamento à natureza, caminho em que nos encontramos, mas traz essa mesma natureza para o coração das cidades, para o pensamento, para a conceptualização do habitar humano.

Espaço de Alberto Carneiro, São Mamede do Coronado, Trofa. 2015