quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Guardar paisagens

[arquivo cidade 042] Reserva de lugar pode ser o que encontramos no vale da ribeira da Lisga. Num avanço da intervenção humana por todo o território, do desenho, técnico, de todos os espaços, são estes territórios mais escondidos que vão guardar micro paisagens. Aqui se criam estratos geológicos que contam a passagem do tempo e a história da ocupação do espaço ao longo dos séculos. Sedimentos civilizacionais que poderão ser eventualmente encontrados daqui a milhares de anos.
Lisga, prox., Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga, prox., Sarzedas, Castelo Branco. 2016

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Serpentes

[arquivo cidade 041] Hoje, Portugal tem uma rede de estradas qualificada. As auto estradas parecem-se com os componentes de um computador onde a informação circula a velocidades luminosas. Uma imagem relativamente homogénea e equilibrada, no jogo de forças entre o povoamento humano e a natureza, mostrou-nos, no passado, um país onde a arquitetura popular era a face dessa realidade aparentemente eterna. Atualmente lemos um país com enormes cicatrizes deixadas no solo, a par de construções recentes, do desejo de povoar, de desenhar. A arquitetura popular foi abandonada. A Lisga é um lugar que se sente afastado, mas que acaba por estar em ligação com tudo. As estradas são hoje linhas de fuga e de aproximação, de visitas breves, serpentes, muito mais do que artérias de vida entre comunidades vizinhas ou afastadas. São os territórios onde nunca estamos, que se escondem em recantos insuspeitos.
 
Lisga, prox. Sarzedas, Castelo Branco. 2016
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Tabuleiro de tensões

[arquivo cidade 040] Muito mais do que em qualquer outro período no passado, o mundo rural é hoje um tabuleiro onde se jogam tensões de enorme complexidade. As cidades polarizam regiões cada vez mais vastas. A globalização vai invadindo territórios que não estão minimamente preparados para a receber. Há, na procura das cidades, um desagregar de estruturas sociais longamente maturadas. Os trabalhos árduos do campo não serão, quase nunca, substituídos por mundos fáceis e coloridos muitas vezes são veiculados pela televisão, pela internet dos mais jovens. Há uma dureza oculta na periferia cinza das urbes maiores, silêncios que escondem dor e sofrimento. Nenhuma revolução nos livrou ainda da luta quotidiana pela sobrevivência.
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Construtores

[arquivo cidade 039] As ruínas no interior das aldeias são cicatrizes insanáveis de um modo de construir que deixou de fazer sentido. Os artífices dessas obras também desapareceram, eram os construtores de uma arquitetura de aparência rude a par de pormenores de elevado refinamento no seu desenho. Agora são lugares de impasse e de solidão. Isolamento e, por oposição, indiretamente, a afirmação das cidades como polos de agregação de populações que para elas convergem de diferentes territórios.
Lisga, prox., Sarzedas, Castelo Branco. 2016

domingo, 22 de janeiro de 2017

Pedras, lama e geada

[arquivo cidade 038] Mas não deixa, contudo, de haver algo de muito sedutor neste processo de transformação do solo, quanto mais não seja o desejo de o entender. O conhecimento é construído com a vivência do terreno, com o caminhar sobre um solo pedregoso, lamacento ou coberto de geada. Na terra poderemos encontrar um olhar renovado, a compreensão de gestos do passado, mesmo aqueles que poderão ter sido vividos por quem há séculos desapareceu. Há um caminhar humano que permanece por longos anos plasmado nestes horizontes. Estas fotografias buscam também esse tempo, essa memória. Procurar o tempo longo da cisão da passagem de uma condição animal para o dealbar da humanidade. Dificilmente uma bibliografia transmite uma vivência concreta, mesmo o cinema tem limitações. As fotografias aqui apresentadas são um movimento que procura a representação do desejo de captura das dimensões da terra e do tempo breve do seu habitar. Andamos, lentos, sobre um reino de silêncio, de sentidos despertos, de aproximação à força dos elementos basilares que compõem a natureza intacta ou o ambiente habitado.
Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

sábado, 21 de janeiro de 2017

Libertação da terra

[arquivo cidade 037] O abandono da “prisão” da terra é uma realidade que poderá ser difícil de interpretar à luz de conceitos contemporâneos. E estamos tão próximos desse passado. Aquele espaço teria que ser vivenciado noutro tempo, durante os invernos duros e os verões tórridos. Quem habita as aldeias não tem dúvidas nem hesitações sobre o porquê do fim das mãos no arado. Foram tempos e rituais que se deixaram para trás, que levaram muita gente para as cidades, para as suas cinturas periféricas. Nos povoados de origem deixaram, indeléveis, memórias fortes, mas, ainda assim, a recusa de um regresso. 
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os caminhos que partem do último lugar

[arquivo cidade 036] O “fim” da arquitetura popular tradicional poderia ser interpretado como uma derrota. Não há perdedores, há um movimento civilizacional imparável. É um ciclo de habitar que chega ao fim, que deixa no solo as ruínas do seu “esplendor” passado. Foram desenvolvidas soluções arquitetónicas de grande equilíbrio e qualidade de desenho. Eram formas que respondiam a problemas concretos, saídas para necessidades prementes, muitas vezes de sobrevivência. O Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal, coordenado pelo arquiteto Francisco Keil do Amaral, então presidente do Sindicato Nacional dos Arquitetos, é um tributo a esse mundo. É um registo feito entre 1955 e 1960 que capta uma civilização à beira do seu colapso. Legitima uma fonte de inspiração e de liberdade para o modernismo arquitetónico que, tardiamente, despontava de forma generalizada em Portugal e que procurava a sua internacionalização. Era como se a própria arquitetura tradicional aguardasse esta passagem de mensagem e de testemunho para implodir. 
Ficalho, Sarzedas, Castelo Branco. 2016