quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão


Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
meio-dia
Serra da Estrela, Janeiro 1991
Horizonte Portugal é uma reflexão continuada e sistemática sobre Portugal, que se iniciou em 1985 com viagens que, na altura, ainda não tinha um propósito definido, mas que mais tarde iriam dar origem aos primeiros trabalhos publicados como Portugal - O Sabor da Terra, a que se seguiram outros livros e exposições de caráter regional ou local. A obra mais exaustiva, que levou cerca de cinco anos de trabalho de campo, foi aquela que deu origem a Portugal Património, cujo trabalho fotográfico desenvolvido constitui a espinha dorsal do projecto agora iniciado.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
madrugada

Gosto de iniciar o dia de trabalho antes das oito da manhã. Por vezes é na curta viagem de bicicleta, entre a casa e o estúdio, que defino o que vou fazer nas horas seguintes, outras vezes, na noite anterior, esboço uma lista de tarefas. Não tenho uma agenda. O trabalho que ocupa a maior parte do meu tempo é, agora, Horizonte Portugal, uma página na Internet onde pretendo colocar um conjunto significativo do meu arquivo fotográfico sobre Portugal, que neste momento ascenderá a mais de oitocentas mil fotografias. A primeira fase do projecto foi terminada recentemente e já pode ser visitada em www.horizonteportugal.org. Apresenta um conjunto de intenções e de objectivos para um futuro breve. É um trabalho que deverá ser desenvolvido em três momentos, mas nunca terá um fim, pois pretende-se que seja permanentemente atualizado com novas fotografias, com novas formas de navegação, não apenas pelo próprio sítio, mas principalmente pelo território português, por uma paisagem que está em constante transformação. Aqui reside o maior desafio deste projecto: reinventar uma geografia de Portugal em moldes completamente novos, baseados na imagem fotográfica, em cartografia e, eventualmente, em pequenos textos.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

esfera

A forma de uma esfera. Todas as pedras pareciam estar próximas dessa forma. Depois de um olhar mais atento via que a presença de um mínimo que fosse de simetria já era algo de raro. Estava na praia do Castelejo, no sul da costa Vicentina. Uma praia que habitualmente está coberta de areia no horizonte de rebentação das ondas. Naquele ano não havia areia, mas apenas os calhaus rolados que aquela habitualmente esconde. Não me era possível fazer uma quantificação, mas deparava-me com milhares de pedras, de calhaus arredondados pela força do mar, de diferentes dimensões. Decidi procurar uma pedra cuja forma se aproximasse a uma esfera. Não recordo o tempo de demora da tarefa. Não terá sido pouco. Esta procura começava a ter qualquer coisa de obsessivo, era aí que começava um curioso jogo de aproximação e fuga, de autodomínio, de controlo de todas as procuras, síntese de um caminhar humano. Encontrei um pedra-ovo de uma simetria quase perfeita, uma pedra de matéria uniforme, quase preta, quase sem veios. Aproximava-se um pouco da forma esférica com que começara a minha procura. Trouxe a pedra comigo e juntei-a a outras, poucas, que me transportam a lugares distantes. 
Um dia o meu filho mais novo, de três anos, tendo atingido uma estatura que lhe permitia ver as pedras, arrastou uma cadeira para chegar ao local onde se encontravam. Pegou na pedra-ovo, na não-esfera, e tornou-a sua.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

chuva

Por vezes gostava de ter maior capacidade para trabalhar em condições muito adversas. A própria tecnologia fotográfica não se adequa, de uma forma linear, à água ou a níveis elevados de humidade, de uma forma geral. Há que avançar por metodologias singulares. Uma meteorologia severa revela diferentes condições dos lugares, relacionados com o habitar humano. A chuva é como uma realidade arcaica, analógica, uma condição da fuga para espaços abrigados. Talvez um dos motivos que nos levaram, como espécie, a erguer as cidades. A chuva leva-nos a um desconforto ontológico e é este universo que gostaria de registar.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Gérard

Acompanhava o trabalho de Gérard Castello-Lopes há vários anos. Lembro-me do impacto que teve sobre mim ver a sua exposição na Galeria Ether - Vale tudo menos tirar olhos, no final da década de 1980, no ressurgimento que fazia na fotografia, depois de 17 anos de ausência. Era uma única fotografia no piso superior da galeria, exposta na parede do fundo, que ocupava quase completamente. Era um enorme rochedo que parecia flutuar nas águas do oceano.
Um dia recebi uma chamada da editora Assírio & Alvim, solicitando-me uma fotografia para incluir num livro de ensaios de Gérard Castello-Lopes, cuja edição estava a ser preparada. Fiquei com um secreto contentamento, por saber que um fotógrafo que admirava há tantos anos, apreciava o meu trabalho. A fotografia, que tinha sido pedida pelo próprio Gérard, era uma do penedo maior do Santuário Rupestre de Panoias, perto de Vila Real, no Norte de Portugal. Havia alguma proximidade entre esta fotografia e aquela que eu observara, anos antes, na Galeria Ether.
Não muito mais tarde, no dia da inauguração da exposição antológica 'Oui/Non', sobre a obra do Gérard, realizada no Centro Cultural de Belém e comissariada por Luísa Costa Dias, dirigi-me a ele e apresentei-me. Desde esse momento não mais iria perder o seu contacto. Recebi-o em minha casa e estive por diversas vezes em sua casa, nas faldas atlânticas da Serra de Sintra, com vista para a praia do Guincho. Um dia, em passeio pedestre juntamente com mais alguns amigos, fomos visitar o 'célebre' rochedo que parecia levitar sobre o mar. Embora a saúde do Gérard não fosse na altura a melhor, não deixou de apresentar a sua postura de um homem determinado e de passo acutilante.
Do seu trabalho em fotografia guardo a imagem de alguém que não desistiu nunca de um olhar franco e verdadeiro de, como ele próprio dizia, 'quem olha para o mundo pela primeira vez'. O seu trabalho tinha uma singularidade que se manteve ao longo de toda a sua vida: era movido pela procura desse olhar da infância. Actualmente trabalhamos quase sempre movidos pela ideia de um projecto, ou uma encomenda. Partimos para o mundo visível com a câmara fotográfica, com um determinado fim e um objectivo premeditado o que, certamente, condiciona o resultado da nossa observação e registo. No Gérard permaneceu sempre um arcaísmo que nos revela o princípio de qualquer coisa da génese substancial da imagem fotográfica significante, da sua ontologia.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

desenho

Terminada uma actualização da minha página, caminho por itinerários cada vez mais digitais, creio, no entanto, não serem completamente virtuais. Na construção desta realidade própria e singular, faço, pontualmente, um desenho sobre papel, no meu caderno de apontamentos. Regresso a um passado que me é, apenas aparentemente remoto.
Estou no meu 'mundo analógico', como a escrita sobre papel, como o desenho, como as fotografias impressas sobre o negativo por uma luz que não se repetirá. Estou com os livros em papel, com os meus projectos que, talvez, antes de outras coisas, procurem a substância oculta da matéria e o que de humano eu observo num mundo imponderável, descontínuo e fragmentado.