sábado, 17 de junho de 2017

Uma realidade que se ergue do conhecimento

[funchal 45] Há um trabalho árduo ao longo de meses. São desenhadas peças soltas, mapas setoriais, juntam-se livros, estudos, palavras, pensamento. Quando se começam a sobrepor as peças desse puzzle é com incontido espanto e perplexidade que vemos “erguer-se” uma nova realidade, como uma nova cidade, transparente e luminosa, inquieta. Há um conhecimento que se leva a um ponto antes não tentado. Surgem propostas de intervenção, ambição de transformar de forma qualificada, propor mudanças para um tempo que não é imediato, mas que poderá estruturar os fragmentos dispersos de urgências perdidas num passado mais ou menos recente. Este é o trabalho dos arquitetos, dos desenhos por si efetuados, é o ponto de partida para uma cidade nova que interpreta sabiamente as múltiplas dimensões da urbe, que identifica e reconhece todos os seus nomes, todas as suas faces, o sentido, a matéria e a cor do seu tempo.
Planta do Funchal, Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Detalhe oculto revelado

[funchal 44] Um trabalho da natureza deste que está a ser desenvolvido pelo Gabinete da Cidade tem o mérito de pôr a descoberto as múltiplas dimensões de uma cidade, as suas camadas diferenciadas, os seus nichos e lugares recônditos, de revelar aspetos menos conhecidos, de mostrar as relações topológicas que não são evidentes, são o tornar mais claro o desenho de espaço e tempo de uma cidade que se ergue continuamente ao longo de séculos.
 
The Old Blandy Wine Lodge, Funchal. 2017

Convento de Santa Clara, Funchal. 2017

Convento de Santa Clara, Funchal. 2017
 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Propor desenho

[funchal 43] Refundar a cidade histórica; o trabalho do gabinete da cidade é estudo da malha urbana, do património, do apontar o dedo às perturbações e descontinuidades. Propor desenho, arquitetura, urbanismo, fluidez, entendimento e interpretação de uma realidade espacial complexa. Saber ler as texturas das cantarias vulcânicas, o envelhecimento das madeiras, as curvas suaves dos arruamentos, as esquinas, os desníveis e as paredes vulcânicas, as árvores gigantes, as subtilezas do tempo longo, o caminhar dos habitantes da cidade
Funchal. 2017

Funchal. 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Regresso

[funchal 42] De partida, não vamos poder olhar o Funchal da mesma forma com que olhámos para a cidade três dias antes. Descobrimos uma cidade pelo desenho do fogo. A progressão das chamas revelou, afirmou, a estrutura natural do lugar, as montanhas e, sobretudo, as ribeiras, serpentes de vida. Foi pelas ribeiras que o fogo progrediu, como se nessas vias de relação com a montanha estivesse escrita a mensagem de um necessário entendimento da Natureza. São as ribeiras que ligam as montanhas ao mar, são as ribeiras que continuarão a desenhar o território, a nele deixar a sua mais permanente marca.
Funchal. 2016
 
Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

terça-feira, 13 de junho de 2017

Expansão e domínio

[funchal 41] O fogo recente foi uma tragédia diferente. Não nos vamos deter sobre a sua origem, mas sobre o seu desenrolar e domínio. Foram os madeirenses que controlaram uma tragédia de proporções bem maiores. Quem estava na cidade naquele dia 9 de agosto sabia que o fogo podia avançar sobre o centro histórico da urbe. Essa hipótese estava severamente equacionada. A população começou a juntar-se junto ao mar. As entradas e saídas da cidade, ruas, avenidas, vias rápidas, estavam bloqueadas pelo tráfego intenso e desorientado. Enquanto isso, na periferia, nas faces de avanço do fogo, incêndio era combatido com o espanto perplexo e o medo de quem o enfrentou na defesa das suas habitações, com meios que eram o nada de mangueiras de rega, baldes de improviso e coragem. As esses homens e mulheres que habitam os limites altos da cidade se deve a contenção de uma muito maior tragédia, o derrube de um gigante descontrolado.
Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Paiol

[funchal 40] Deste antigo paiol vemos a cidade a desenvolver-se até às cotas mais baixas, ao local onde tudo começou no século XV. O Funchal foi a primeira cidade do além mar, do movimento de conhecimento, reconhecimento e globalização de toda a Terra que ainda hoje não terminou. A cidade sobreviveu a mais uma tragédia. A 20 de fevereiro de 2010 nada poderia ser feito naquele momento, os erros de construção, de planeamento urbano ou da ausência dele, já tinham sido realizados ao longo de muito tempo. A água resultante das chuvas tinha que chegar ao mar e fê-lo com o seu enorme poder destruidor.
Paiol, Funchal. 2017

Defesa

[funchal 39] O antigo paiol é o mirante de onde olhamos ao longe as áreas queimadas, os lugares, um a um, onde o fogo se insinuou na malha urbana. Parece que adivinhamos a sua progressão ao redor da grande cidade, como uma dança trágica de labaredas aleatórias ocultadas por um fumo denso, um fogo poderoso e sem artifício, verdadeiro. Mas, dos relatos escutados, e das imagens que nos foi possível observar, depreendemos que houve uma grande aleatoriedade na evolução do incêndio. O calor era imenso e os ventos irrequietos, repentinos, revoltos em direções improváveis. Percebemos que não haveria corpo de bombeiros capaz de combater esta realidade. Como pôde então ser contido o fogo no seu avanço sobre o centro da cidade? Questionamo-nos depois de concluído o reconhecimento pelo perímetro negro ao redor da cidade.
Funchal. 2016