domingo, 4 de junho de 2017

Frente oceânica

[funchal 24] Há uma urbe que se vai revelando à medida que nos debruçamos sobre aspetos específicos da sua malha, dos seus detalhes por vezes escondidos. Num gesto de procura semelhante ao da subida da ribeira de Santa Luzia, procurámos descer ao mar. O ambiente de praia de calhaus rolados, visível em fotografias antigas, praticamente desapareceu. Há apenas uma pequena enseada afunilada entre dois molhes de betão. A memória da orla marítima primitiva desapareceu. Um pouco para nascente há um ponto de acesso à uma pequena praia pedregosa. A envolvente é de falésia, e o excesso é feito por uma escada precária, em madeira, no seu tramo final. Aqui ouvimos a rebentação das ondas, as pedras polidas pela erosão marítima, temos o olfato do mar e o imenso oceano Atlântico, espírito das ilhas, à nossa frente, sem obstáculos, frontal.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

O futuro desenhado no passado

[funchal 23] Procurar longe o significado da cidade, como se aí estivesse o momento imediatamente anterior à fixação das primeiras comunidades humanas no local. Um grau zero do povoamento. É como se o futuro imediato estivesse inscrito no mais remoto passado, numa origem que, com rigor, nunca vamos conhecer. Habitamos a dimensão fratal do tempo.
Funchal. 2017

sábado, 3 de junho de 2017

Descer a cidade

[funchal 22] Descemos deste lugar ao longo das margens da ribeira. O desnível é acentuado. Atravessamos pedreiras, depois espaços de natureza industrial, comercial e vamos estando mais perto do centro da cidade. Prosseguimos a caminhada. As cidades conhecem-se pelo caminhar, pela vivência das suas matérias diversas, pelas terra, pelas arquiteturas, pelo tempo deixado impresso em paredes ou pedras lavradas, pela observação discreta dos seus habitantes, rostos que refletem janelas múltiplas. 
Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Recôncavo recôndito

[funchal 21] Chegamos ao limite da subida. À nossa frente ergue-se uma parede vertical de largas dezenas de metros. O caudal da ribeira de Santa Luzia precipita-se das terras altas sobre uma lagoa. O lugar tem a forma de um recôncavo que se abre para sul, na direção do mar, mas este não é daqui visível. Estamos no coração de um lugar mágico, em plena natureza, não longe do Funchal. É como se ali, entre a cidade atlântica e as montanhas, estivesse escrita a essência daquele território e do seu povoamento humano. Ali estamos num espaço primordial. Questionamos a matéria “perplexa” de um planeta imenso, questionamos os nossos passos sobre a terra, o nosso erguer como espécie biológica que tudo isto partilha com outras inúmeras espécies. Esta é a nossa casa comum. As cidades são territórios de invenção, experimentação e fuga. São a invenção de uma realidade paralela ilimitada.

Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Reservar

[funchal 20] Há ambientes de natureza que estão em equilíbrio, que não “pedem” qualquer intervenção humana. Dado o alastrar cada vez mais célere da pegada humana sobre todos os espaços possíveis, poderá ser encarado como muito positivo deixar territórios entregues à sua própria “sorte” às naturais e fluídas leis de um planeta vivo. Serão estes espaços de reserva, intocados, lugares de memória e consciência para o entendimento e reinterpretação da própria natureza.
Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Desenho na natureza

[funchal 19] Os açudes erguem-se numa singular imponência. Serão insignificantes no contexto da escala do vale, mas para um olhar humano que sobe a ribeira, são peças imponentes de desenho sóbrio, estritamente funcional. Criam uma descontinuidade e uma interrogação sobre os fazeres humanos em espaço natural. Talvez possamos afirmar que a paisagem se tornou mais bela que aqueles elementos. São peças que nos chamam, que nos impelem a continuar a caminhada. São os singulares fazeres humanos a fazer mais complexa uma paisagem, a introduzir desenho em diálogo com a natureza intacta.
Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Os açudes

[funchal 18] Os açudes são umas muito singulares edificações no leito das ribeiras. Estão construídos longe da cidade, muito a montante. Resultaram da necessidade de intervenção no percurso destas linhas de água para minimizar o efeito das cheias que ciclicamente ocorrem no Funchal e cujo episódio de 20 de fevereiro de 2010 foi uma dos mais catastróficos em tempos recentes, levando à morte mais de quatro dezenas de pessoas. Os açudes não têm a função de conter a força das águas mas apenas das pedras de maiores ou menores dimensões. O leito das ribeiras é constituído por uma enorme cascalheira que resulta de processos erosivos do solo, das montanhas. São estes inertes que, arrastados pela força do caudal torrencial, têm um forte poder abrasivo sobre todas as superfícies por onde passam, deixando um rasto de destruição à sua passagem.
 
Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017