quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Segundo revés

[arquivo cidade 035] Hoje, este mundo afastado das maiores cidades continua o seu processo evolutivo com um outro revés. As casas que foram construídas pelos emigrantes destinavam-se também a acolher os filhos e os netos. Mas os jovens integraram-se nas comunidades de acolhimento, estudaram e, no início da vida adulta, iniciaram a vida laboral. O passo seguinte seria a constituição de família. O regresso à terra dos pais, em Portugal, deixava de se perspetivar. No tempo da reforma da atividade profissional, a primeira geração de emigrantes volta aos seus lugares de origem, mas, em muitos, casos, não será por muito tempo. A permanência de filhos e netos nos países estrangeiros leva a que estes homens e mulheres voltem para junto dos mesmos. As aldeias apresentam agora dois níveis de abandono. O das casas pequenas, mais antigas, quase sempre construídas com métodos tradicionais, e as casas grandes, mais recentes. Este fenómeno não é uniforme em todo o país, apresentando mesmo algumas diferenciações assinaláveis. O Minho e o Alentejo são um pouco uma exceção a esta leitura, mas correspondem a territórios que não deixaram de ser também transformados em direções opostas: o Minho numa exuberância significativa de muitas das suas formas construídas versus o Alentejo num conservadorismo evidente, em contraste com uma vanguarda ideológica de oposição ao regime do Estado Novo, na incessantemente procurada reforma agrária. Há ainda casos pontuais, um pouco por todo o país, de resistência ou declínio mais acentuado desta imagem geral que caracteriza o mundo rural. Algumas destas diferenças constituem casos de estudo muito interessantes.
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Pobreza

[arquivo cidade 034] Com o amealhar de poupanças, a primeira geração de emigrantes começa a construir novas habitações. Novos materiais e áreas muito mais generosas levam a que se abra o perímetro das aldeias. O seu antigo núcleo rural é, em parte, desabitado. As relações sociais, muito relacionadas com rituais associados aos ciclos das plantações e colheitas, também se alteram. As novas casas grande construídas por quem fora procurara alguma riqueza, de desenho quase sempre pobre e uniforme nas suas soluções arquitetónicas, simbolizam o sucesso na vida face à pobreza em que permaneciam as populações que haviam decidido ficar.
 
Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Tempo longo delimitado

[arquivo cidade 033] Historicamente, a maior densidade populacional de todo o espaço português, com a exclusão das cidades, dá-se em meados do século passado. Um regime opressor governava um país fechado ao exterior. A grande maioria dos solos era, e é, pobre e em parcelas de pequenas dimensões, mas sempre se procuraram novos campos para cultivar à medida que as famílias cresciam. A fome surda, ou o seu limiar, estimulou o “salto”. Em meados dos anos sessenta o regime começou a apresentar fragilidades. A uma vigilância menos apertada da fronteira com Espanha não será alheia a participação portuguesa nas guerras que, entretanto, eclodiram nos territórios ultramarinos de expressão portuguesa, concentrando em si um enorme esforço administrativo e militar. Há um esvaziar parcial dos campos. Simultaneamente, aumentam consideravelmente as migrações internas com destino às cidades, particularmente Lisboa e a sua área limítrofe, onde se procura trabalho e o afastamento da dureza das lides da agricultura, dos pés na terra e as mãos no arado ou na sachola. Este movimento populacional tem como consequência, não só o abandono dos campos, mas, sobretudo, de muitas casas. O declínio não mais será travado.
 
Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016
 
 
 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Um lugar em processo

[arquivo cidade 032] A arquitetura popular tradicional teve um lugar próprio na história do povoamento do espaço português. O período do seu desenvolvimento é necessariamente limitado. A sua evolução foi lenta, mas terá durado vários séculos. Agarra as suas raízes, talvez, ao período castrejo, quando se erguiam cividades no alto dos montes. O uso dos metais e da mineração irá proporcionar poderosas ferramentas evolutivas. Daí até meados do século xx, os processos construtivos pouco evoluíram em espaço rural. O grande salto dá-se com o uso generalizado do cimento. Betão armado, ferro, tijolo, vidro e, mais tarde, o alumínio.
Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

sábado, 14 de janeiro de 2017

O “caroço”

[arquivo cidade 031] Olhamos para um pequeno núcleo de casas abandonadas no centro da aldeia da Lisga. Também poderíamos observar a sua antiga ponte de pedra, os socalcos agrícolas, os muros de contenção de terras, as ruínas de azenhas ao longo da ribeira, ou os numerosos caminhos. Nestes elementos podemos ler uma parte do processo civilizacional que nos conduziu ao presente, como se ali estivesse representada a história de séculos do caminhar humano, entre derrotas e vitórias.
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Alguns números e datas

[arquivo cidade 030] Este levantamento fotográfico decorreu nos dias 2 a 4 de outubro e, mais tarde, no dia 22 do mesmo mês, período em que choveu praticamente durante todo o dia. O objetivo deste trabalho consistiu na caracterização daquele espaço pela imagem fotográfica, um registo livre de paisagem e de povoamento humano. Foram feitas 6.604 fotografias nos primeiros três dias e 2.007 fotografias no dia 22. No total, foram captadas 8.611 imagens. Na preparação da exposição, o passo seguinte foi proceder a uma primeira seleção de fotografias. Do número total, foram destacadas 2.834 fotografias. Num segundo nível, reduziu-se aquele número para 1745. No terceiro e último passo, foram editadas, convertidas do formato original, RAW, para TIFF, 624 fotografias. Seguiu-se a estruturação da exposição. Definiram-se 11 grupos de imagens: Lisga; Sesmo; Pomar; Sesminho; arquitetura; caminhos; rural; natureza; ruína; fragmentos; Sarzedas. Procurou-se criar uma narrativa, pôr em diálogo os vários conjuntos de imagens que caracterizavam a região.
Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga Velha, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga Velha, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Resiliência

[arquivo cidade 029] “A sombra do Moradal” é este território próximo daquela serra, são as terras de xisto vizinhas dos horizontes planos de Castelo Branco, mas onde os solos de xisto são enrugados e pobres. São hoje paisagens em processo de desertificação humana, pontuadas por casos de resiliência. Alguns desses exemplos são obras de arquitetura tradicional muito interessantes, mas dominadas atualmente pela imagem de abandono. Campos agrícolas, parcelas conquistadas à floresta e ao mato, outrora trabalhados, são hoje as ruínas que revelam um “esplendor” passado e perdido.
Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016