[A Construção da Fuga #15] Todo este movimento é, creio, desencadeado pela ideia do "belo", pela procura de subtilezas significantes dentro das paisagens, por elementos de descontinuidade dos lugares que estimulam a nossa reflexão, que questionam a nossa própria existência. Talvez a procura de uma harmonia, de um equilíbrio quase sempre ausente das nossas vidas. É nesta precariedade que se cria o nosso próprio movimento, é nela que encontramos a base de uma energia criativa e, eventualmente, a raiz da consciência. Há aqui uma busca continua do equilíbrio, como que a definir a base de qualquer procura. O que se seguirá depois é a reflexão sobre um novo 'lugar' que tem origem no acumular dos nossos registos e materialização de memórias em fotografias. Parte-se de um reenquadramento da realidade visível, pela fotografia, para procurar aquilo que ela não mostra no imediato. A soma de todas as fotografias de um lugar vai ser mais do que a própria realidade que se pretendera retratar. E este é o jogo infindável da fotografia sistemática e documental da realidade. É uma fotografia de afastamento e de rutura. Aqui há a procura do tempo em que este processo se iniciou, numa altura em que não havia consciência desse início, nem se consegue precisar o ponto inicial desse caminhar. As fotografias dos lugares acabam por ser fotografias do tempo, tanto quanto o são do espaço. O espaço, aliás, é vertido numa bidimensionalidade. O tempo é parado e associado a essa bidimensionalidade.
Fotografar um território vasto. Procurar em Portugal as raízes de uma identidade coletiva que se perde num tempo longo. Construir um arquivo fotográfico. Reinventar uma paisagem humana, uma ideia de arquitetura, uma cidade nova.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Dentro
[A Construção da Fuga #14] Este é um olhar contemporâneo que à terra não pede nada que não seja a justificação para a sua própria razão de ser. A terra é aqui uma viagem pela existência, dentro de uma desterritorialização. O que, agora, se pode mostrar não é algo de novo, uma nova abordagem sobre as paisagens, mas uma paisagem dentro de outras paisagens povoadas de espanto. Estes são lugares dentro de lugares, num jogo de afastamento, de fuga, de construção de uma enorme casa humana e o sentido da arquitetura enquanto espaço imaginário. É o contrário de uma arquitetura material, que edifica lugar e condiciona o pensamento, definindo espaços concretos e limitados. Estas fotografias são um adeus às próprias paisagens que representam. São a fixação de um momento e de um espaço no tempo exato do seu desaparecimento. Há aqui um afastamento da condição funcional e económica das paisagens, para passarem a ser interpretadas como uma outra realidade, mais esquiva e difícil de apreender. São as paisagens deceptivas, que escondem mais do que revelam. Este saber é aquele de que nos fala a ciência contemporânea. Poderá haver uma limitação da nossa própria compreensão para o entendimento destas múltiplas dimensões que aparecem associadas a um aprofundamento do estudo das paisagens.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Estúdio
[A Construção da Fuga #13] Metodologias e procedimentos. Aqui se trabalha o rigor, o estudo do tempo e do espaço. É aqui que se podem dominar quase todas as dimensões de um trabalho. Há um espaço e um tempo contidos e determinados. Não há a incerteza do campo aberto, do cosmos infinito que envolve os nossos passos e os nossos actos no terreno. Em estudos contidos temos uma micro-realidade apreensível e dominável, com poucas margens de erro, que, de qualquer modo, podem acontecer. As fotografias feitas em estúdio, dos procedimentos, são um ensaio de um mundo dominado. O retrato com poucas variações sobre o erro, ao contrario do que pode acontecer em trabalho de campo, onde se sucedem uma sucessão de imprevisibilidades. São diálogos fotográficos diferentes, alternativos.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Paisagens
[A Construção da Fuga #12] O que ensinam as paisagens? Esta é uma questão base de uma fase inicial do meu trabalho, quando me demorava longamente em caminhadas intermináveis. Ensinam, antes de mais, uma ilusão. Ocultam uma realidade múltipla, desviam a atenção de factos essenciais. É a sua condição de belo, e uma cultura a ela associada, que desviam a concentração de elementos verdadeiramente fundamentais que ela manifesta. Uma forma de a "capturar", fotograficamente, também contribui para o desvio de questões base que nos colocam essas mesmas paisagens. Há uma gramática do "belo-piroso" que pode destruir as possibilidades de aprofundamento das suas múltiplas possíveis interpretações. As paisagens ensinam a liberdade e podem ser a materialização dessa vivência.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Vínculo
[A Construção da Fuga #11] No enquadramento destes fazeres, num tempo contemporâneo, deparamo-nos com uma quantidade de informação que é impossível de gerir, por tão vasta e dispersa ser. É aqui que somos obrigados a tomar opções de caminho a seguir e a definir toda a envolvente dos nossos fazeres. Encetamos a construção da fuga. Mas este é um caminho que tem que ter um vínculo social, uma fonte de rendimento, viabilidade económica. Este é um ponto base de partida, e, muitas vezes, o seu maior desafio. Este aspeto tem que ser visto como algo que seduz, que é um desafio ao qual não devemos querer fugir, pois este pode ser o nosso maior legado na construção de uma sociedade da qual fazemos parte. Em ultima instância é um trilho, um caminho possível que deixamos aos nossos filhos. Pode ser esta, também, a gratidão em relação a um sistema que nos fornece todas as ferramentas de produção de saber de que precisamos para a execução do nosso labor. O meio que habitamos dá-nos as ferramentas e um lastro de saber acomulado por milhares de anos de sucessivas gerações. São as paisagens humanizadas e todas as formas de expressão que acontecem a uma escala planetária. Mas muito do que seduz esta escrita é um mundo pré-humano que ainda se encontra em muitíssimos detalhes do nosso quotidiano envolvente.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Abstração
[A Construção da Fuga #10] Como fuga esta é uma construção pensada, estudada com morosidade, na demora de todos os pormenores. Mas estes pormenores são um mundo que sucessivamente se adensa, que vai ganhando uma progressiva dispersão, desvio em relação ao ponto de partida. E é este, talvez, o maior sentido da fuga e aquilo que a prende ao próprio significado da construção de um atlas. O atlas reúne um conjunto de mapas, de itinerários, de fazeres, que definem esse caminho de fuga. Mas esta fuga é uma explosão, fragmentação de uma realidade que se vai tornando cada vez mais complexa à medida que nos afastamos de uma origem, sendo que essa referência é algo que procuramos no decurso desta viagem. Esta é uma viagem humana. É um movimento de risco. Risco como projeto sobre uma superfície lisa e branca. Risco porque o seu sentido é evidentemente questionável, corresponde a uma visão de elevada abstração.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Grau zero
[A Construção da Fuga #9] Há a procura de um grau zero de qualquer coisa, do habitar das paisagens, da construção de um discurso, de uma ideia de comunicação. Uma redução progressiva de um conceito até à sua mais elementar e simples expressão. Há também uma procura da verdade e de pacificação, de reencontro com uma, talvez, cosmogonia da infância, antes do desprendimento para a realidade de um quotidiano de sobrevivência, desabrigado, exposto. Neste sentido a fuga é o regresso a um universo primordial, onde, creio, tudo na nossa consciência e modo de ser, se forma. A fuga é uma construção improvável e precária, eventualmente impossível, porque nos vamos deparar com a morte, inevitavelmente.
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