terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Visão de velocidade

[Douro-Côa 03] Hoje quando “sobrevoamos” o Douro pela autoestrada A24, são breves os segundos em que podemos ter algum contacto visual com as águas do rio. É como se a velocidade tivesse o poder de o fazer desaparecer.

Nogueira, prox., Vila Real. 2019

 

 

Peso da Régua

[Douro-Côa 02] A estrada nacional 2, ao ligar Lamego a Vila Real passando pela Régua, embora se tenha definido como um importante eixo viário, não viria a alterar esta situação das difíceis ligações ao litoral, para o transporte das barricas de vinho. Seria a construção da linha ferroviária do Douro que transformaria significativamente as condições de acesso ao país do vinho. Em Peso da Régua permanecem as memórias de todo este tempo, onde a estação ferroviária e as três pontes são a imagem e o símbolo do coração de uma região que se abre na direção do sol nascente.
Tanha, prox., Alvações do Corgo. Santa Marta de Penaguião. 2019

 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Navegação fluvial

[Douro-Côa 01] Em tempos recuados, na época pombalina, havia apenas caminhos de terra, alguns empedrados, e carroças a sulcar as margens do rio, entre vinhedos, nas labutas diárias relacionadas com a viticultura. O escoamento do vinho, para as caves de Vila Nova de Gaia, era feito pelo rio Douro e estava sujeito a condições climatéricas instáveis, que, por vezes, eram muito adversas. A navegação dos barcos rabelos, para montante, embora viessem com menos carga, era especialmente difícil e, muitas vezes, eram usados os trilhos da sirga, com as embarcações a serem içadas, rio acima, com a ajuda de animais, ou mesmo de pessoas.

Ponte Velha, prox., Murça. 2019



 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Ser aluno

[Botelho 04] Estas palavras e estas fotografias não podem deixar de ser uma interpretação pessoal e a manifestação de perplexidade perante um reencontro inusitado. Conheci Manuel Botelho há 35 anos. Fui seu aluno no meu primeiro ano do curso de arquitetura na Universidade do Porto, no ano letivo de 1986-1987. Era professor de Projeto, a mais importante cadeira do curso. Com Manuel Botelho éramos, seus alunos, conduzidos pela descoberta do desenho, pelas possibilidades quase ilimitadas da forma arquitetónica, do jogo de volumetrias, pelas complexas relações espaciais com que temos que lidar. A maior parte de nós entrava ali num mundo desconhecido, belo, difícil e apelativo. Éramos levados pela incessante procura de uma ideia de clareza, de ausência de ruído, da imensa nobreza, solenidade mesmo, da obra arquitetónica, onde não faltava a interrogação, elementos de descontinuidade, a perturbação intencional da ordem óbvia. 

Manuel Botelho em Pavia, Mora. 1987

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Báculos

[Botelho 03] Os báculos são elementos-síntese da obra de Manuel Botelho. São a sublimação do desenho em peças que têm um carácter de fina simbologia no contexto do cristianismo. É do cajado de que se serve para conduzir o rebanho, o báculo é o elemento identificador do pastor. Em campo aberto, pode ser também uma arma de defesa contra os lobos ou outras feras que aportem perigo. É uma peça luminosa que faz a assunção da diferença do seu portador perante a comunidade. É um símbolo primordial de humanidade. O extremo cuidado que Manuel Botelho coloca no desenho dos báculos é a sublimação da sua arquitetura, de um desenho que se desprende de uma funcionalidade imediata e se transforma em linguagem de singularidade.

Báculo de Dom Jacinto Botelho. dg1077486. 2021

Báculo de Dom António Couto. dg1077598. 2021

Báculo de Dom António Francisco dos Santos. dg1079088. 2021

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Entre a matéria e o pensamento

[Botelho 02] Há, na obra de Manuel Botelho, um movimento subtil. Há um transporte para fora da arquitetura, ou, para uma descentralização desse conceito disciplinar. Uma reflexão filosófica, de extrema liberdade, sobre a linha difusa, ténue, que separa matéria e pensamento. Interrogação sobre o espaço e o tempo do habitar humano, sobre uma condição de ser e de estar. Há, nesta arquitetura, uma ideia de jogo materializado no requinte do desenho, na subtileza estranha de um gesto inusitado que percorre todas as escalas. Esse jogo é o caminho da procura infinita, ou apenas detida pela necessidade de impor limites, que são as peças finais do projeto de execução. É um jogo sem regras, aparentemente estranho, individual. O tabuleiro é o território. Ou uma cidade que não é apenas feita de edifícios, ruas, jardins, que está para além das formas, da matéria, que é o desenho do futuro, sempre aberto e imprevisível, elaborado com a inquietante obsessão da materialização do indizível.

 

Casa do Poço, Lamego. dg1076622. 2021

Casa de Valadares, Vila Nova de Gaia. dg1074103. 2021

Casa do Porto. dg1070731. 2021

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Manuel Botelho: Projecto e Obra

[Botelho 01] No dia 13 de novembro de 2021 fotografei a casa da Régua. Três semanas mais tarde, no dia 3 de dezembro, à tarde, depois de ter registado a casa de Amarante, concluía o levantamento fotográfico de um conjunto de 18 obras de arquitetura de Manuel Botelho. Estas imagens dão conta dessa viagem célere. Volumes claros, janelas imensas, ínfimos detalhes, discretos pontos de luz, paisagens interiores desenhadas em pequenos pátios, a precisão de um ponto de vista sobre o exterior, escadas desprendidas, corredores cinematográficos. A obra de Manuel Botelho tem erudição e atemporalidade, alimenta-se de alguns mestres, liberta-se em experimentação contida, com uma forte marca identitária. Trabalha a escala da globalidade dos edifícios com o mesmo cuidado dos mais pequenos pormenores. A obra subsiste, resiste. Evitemos o apagamento lento desta utopia, deste genuíno labor, a imersão de um homem na profundidade maior do desenho. Uma história discreta e silenciosa. A continuidade indefetível de uma procura desenvolvida entre dificuldades várias, contrariedades. Olhamos estes edifícios e sentimos nunca ter havido limites impostos às possibilidades da arquitetura.

Casa da Régua. dg1068478. 2021

Casa da Maia. dg1069566. 2021

Casas de Valadares, Vila Nova de Gaia. dg1074902. 2021