quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Escada

[Alberto Carneiro 06] Subimos uma escada. Observamos, num primeiro relance, objetos de diferentes proveniências, objetos como que criaturas com a marca do tempo, tal como encontráramos nas ferramentas. Tudo está envolvido em livros, que revestem as paredes, arrumados em estantes.

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Formões, goivas, grosas, serras

[Alberto Carneiro 05] Nas ferramentas de Alberto Carneiro antevemos um mundo de formas da matéria, da madeira trabalhada. Há uma questão de perplexidade que parece evidente quando observamos estes instrumentos: há aqui uma força extrema, ou a violência que encontramos na natureza, em todas as espécies que lutam pela vida: estas são as “armas” de um combate, mas esse combate é também um diálogo com os elementos que se trabalham, a que se molda um desenho, um projeto, uma orgânica nova que liga mundos distantes. São utensílios de força com polimento da mão, com marcas do uso prolongado. O paradoxo da dureza expressa naqueles cabos de madeira e naquelas lâminas é o facto de nelas terem origem peças de uma grande delicadeza. São os fazeres da mão ou a dimensão humana sobre as paisagens.

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado, Trofa. 2015

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Guimarães

[Alberto Carneiro 04] Faltavam poucos dias para a inauguração e a exposição encontrava-se em montagem, nos ajustes finais. Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] — Paisagem e Povoamento viria a inaugurar no dia 17 de outubro de 2015, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, com curadoria de Nuno Faria. A exposição percorria uma série de trabalhos de fundo sobre o espaço português, desde 1881, data de uma expedição científica à serra da Estrela, até à atualidade. Uma parte muito significativa do trabalho de Alberto Carneiro que tem como elemento chave a fotografia, está aqui em exibição. Percebemos o sentido destas fotografias no âmbito de uma exposição alargada sobre o território. Nelas está um olhar que hoje mantém toda a sua pertinência. Naquelas imagens está registada uma aproximação à Natureza, singular e única. Fotografias compostas com desenhos estão fixadas nas paredes brancas. Há cores vivas, dominantes; as fotografias são a preto e branco. São trabalhos de descodificação da Natureza, de interpretação da paisagem, leitura, fascínio por tudo quanto era ali visível, da procura de relação, números, desenhos, geometrias, construção, significação. Depois há palavras que despoletam pensamentos, que acrescentam complexidade àquele mundo que se adensa em labirintos.

Centro Internacional de Arte José de Guimarães, Guimarães. 2015

Centro Internacional de Arte José de Guimarães, Guimarães. 2015

Centro Internacional de Arte José de Guimarães, Guimarães. 2015

Centro Internacional de Arte José de Guimarães, Guimarães. 2015

domingo, 17 de novembro de 2019

Trinta anos depois

[Alberto Carneiro 03] Partimos de uma situação concreta, vivida. Poucos dos seus alunos esquecerão as aulas de Alberto Carneiro e o seu olhar fixo em desafio ao nosso próprio olhar: jogo de procura do que está por trás dessa face, da vida e dos mundos que transportamos e refletimos. 1987. Estávamos a aprender desenho na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Trinta anos passaram.

Espaço de Alberto Carneiro, São Mamede do Coronado, Trofa. 2016

sábado, 16 de novembro de 2019

Abertura

[Alberto Carneiro 02] Este trabalho é sobre o projeto, sobre o desenho. É sobre a terra, sobre a arte, sobre as “cidades”. É sobre a natureza, sobre a transparência da opacidade do que não vemos, sobre a densidade de um mundo fascinante.

Centro Internacional de Arte José de Guimarães. Guimarães. 2015

Espaço de Alberto Carneiro. São Mamede do Coronado. Trofa. 2016

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Natureza Dentro, Alberto Carneiro, 2017

[Alberto Carneiro 01] Desde os tempos da faculdade, quando, no segundo ano do curso de Arquitetura da Universidade do Porto, fui aluno de Alberto Carneiro, que procurava uma forma de abordar o seu trabalho pela fotografia. Sentia uma enorme gratidão por ter podido contactar com ele e pela amizade que se seguiu até ao final da sua vida. O texto que se vai seguir, em várias publicações neste espaço, foi editado em livro por ocasião da exposição «Alberto Carneiro — Árvores e Rios», com curadoria de António Gonçalves, realizada na galeria Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão, entre os dias 10 de junho e 23 de setembro de 2017.
Estas palavras e fotografias são para Alberto Carneiro pelo pensamento que ergue do desenho para nos mostrar a delicadeza brutal da natureza.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Cláusula nona

O concurso Viseu Terceiro, atual Viseu Cultura, começou por ser uma louvável iniciativa da Câmara Municipal de Viseu para o apoio e financiamento de diversas atividades culturais que acontecem na cidade. A ideia foi, desde o início, fomentar a transparência na adjudicação de recursos do erário público.
No entanto esta situação tem vindo a ser alterada. O júri independente do início, rapidamente foi dispensado e substituído por uma Comissão de Avaliação nomeada e presidida  pelo Vereador do Património, Cultura e Ciência, Turismo e Marketing Territorial, Jorge Sobrado.
Este ano o regulamento do concurso apresenta uma cláusula que é significativa sobre o modo como é atualmente gerida a cultura com financiamento municipal. No ponto nono do artigo 13ª (Apresentação e admissão de candidaturas) é referido: “As candidaturas deverão propor uma atividade nas áreas de música, teatro,dança, performance, novo circo, poesia ou outra, a realizar em data a acordar no mês de julho de 2020, no âmbito da programação “Mescla”. A execução financeira da atividade será da responsabilidade da própria candidatura.”
A liberdade criativa dos concorrentes fica anulada por esta cláusula. A ideia de um concurso e de uma competitividade saudável em que as melhores propostas serão financiadas, desaparece. O que fica patente é a completa incapacidade da autarquia em assumir a programação do/da “Mescla”, uma iniciativa desenvolvida pela Câmara Municipal que não tem uma ideia minimamente coerente, qualquer princípio estruturador dos seus conteúdos, nem tão pouco um tema agregador. É, de facto, uma mescla. Também diria que, num ambiente saudavelmente democrático a organização deste género de iniciativas deveria ficar a cargo de programadores independentes e eles existem bem qualificados na cidade.
Outra questão, que raia de forma abusiva uma ética de verticalidade, é obrigar os concorrentes a financiarem esta atividade, obrigatória, através do seu próprio orçamento. No fundo a Câmara Municipal de Viseu dá com uma mão e tira com a outra. De qualquer modo não deixa de ser a organização de um evento “sem” gastar recursos do orçamento municipal.
Mas talvez aquilo que parece evidente é o cultivar nos agentes culturais da cidade uma mediocridade submissa, que esteja alinhada, em diametral oposição, com o perfil de quem a promove. Com este concurso Viseu fica mais pobre, ficará a cidade menos apta para se integrar num movimento global de cidades criativas. É também, a cada ano que passa, o cultivar uma interioridade que agoniza pela falta de visão política efetiva. Sim, ao invés de uma ideia forte desenvolvida por criadores ativos que saibam integrar a cidade no território que a envolve, o que fica exposto é uma manta de retalhos, espelho de uma gestão política que apenas se serve do marketing para exibir o mais profundo e estéril vazio.