quinta-feira, 8 de junho de 2017

Fixação

[funchal 31] A Madeira é uma montanha que se ergue do mar. Quando, hoje, lemos uma carta topográfica da ilha, imediatamente percebemos a presença dominante dos grandes declives e a quase ausência de terras planas, particularmente junto ao mar. Pelas suas escarpas e por um clima mais instável e “duro”, a costa norte terá sido excluída da tentativa a para construção de um porto. A confluência das ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes, com grande proximidade entre si, num solo de declives pouco acentuados, criavam as condições de um bom lugar para o estabelecimento de uma comunidade. Isso também deve ter sido percetível para os primeiros navegadores que terão circunavegando a ilha em busca de um ponto de atracagem e, depois, para a fixação permanente. Pensamos nos primeiros colonizadores, na instalação das primeiras comunidades humanas, no erguer dos primeiros edifícios depois de apontado o plano para o desenho incipiente das primeiras ruas. No século XV começava a ser edificada a principal cidade da Madeira.
Madeira. 2006

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Dança do fogo

[funchal 30] A dança do fogo pode ser explicada, parcialmente, por questões geográficas, de ordenamento do território, de ventos fortes e irregulares em dias de temperaturas invulgarmente elevadas, mas não deixa de haver aleatoriedade no fenómeno, nas progressão das chamas.
Funchal. 2016

A beira da falésia

[funchal 29] Entramos no logradouro de uma habitação destruída e avançamos para um muro que limita a propriedade. Esse muro está construído sobre uma falésia. Olhamos para baixo e apenas vemos uma paisagem negra, consumida pelo fogo. Estávamos defronte a ribeira de João Gomes, a mesma que atravessáramos em velocidade, pouco antes, em direção à cidade. O desenho tomado pelo fogo começava a ficar mais claro. Avançava pelos espaços onde dominava o verde, pelas paisagens não construídas, onde não era possível a edificação. O fogo tomava como corredor os espaços da natureza intacta junto à escarpa e onde havia habitações avançava sobre estas. Um inferno foi observado naqueles momentos de labaredas a surgirem violentas, imparáveis, num dia tórrido invulgar ali.
Funchal. 2016

Funchal. 2016

terça-feira, 6 de junho de 2017

Fogo próximo e distante

[funchal 28] Pouco depois descíamos uma rua. A um primeiro olhar parecia apenas estarem queimados alguns terrenos cobertos por vegetação, aparentemente abandonados, um ou outro quintal. Tudo ao redor estava intacto. As casas numa aparência normal. Um dia de sol sobre os telhados e as paredes brancas. Descemos um pouco mais. Observamos agora, com estranheza, casas de onde o fogo se aproximou. Como era possível aquela destruição quando tanto em redor estava impoluto? Mais abaixo na rua o cenário é de uma catástrofe mais afirmada. Há casas completamente arruinadas. O negro domina. Os detalhes das texturas revelam a força avassaladora das temperaturas extremas. Estávamos num dos locais de maior devastação destes dias de inferno que varreram um território em aproximação ao centro de uma cidade. Mas o fogo ali era ainda enigmático.
Funchal. 2016


 
Funchal. 2016
Funchal. 2016

Cinza

[funchal 27] Atravessamos uma ribeira por um viaduto. À volta tudo é castanho-negro. Era o primeiro contacto com a destruição provocada pelo fogo dos dias mais quentes de agosto de 2016. Era como uma janela que se abria sobre uma paisagem calcinada, um pesadelo entre dois túneis, sobre a ribeira de João Gomes, na aproximação à cidade do Funchal.
Funchal. 2016

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Cinza na viagem

[funchal 26] Este é um texto contado ao contrário. Começamos pela visita de maio do corrente ano e acabamos em agosto do ano anterior. Foi a viagem pelas cinzas de um fogo ameaçador que pareceu querer consumir toda a cidade. O incêndio, que se moveu descontrolado transportado por um vento tórrido, aproximou-se do centro da cidade. As consequências destrutivas acabaram por ser menores do que algumas imagens aparentemente documentam. Percorramos esse rasto negro
Funchal. 2016

Quantos nomes pode ter uma cidade

[funchal 25] Quantos nomes pode ter uma cidade? O Funchal é esta urbe de grande complexidade por todo um singular enquadramento geográfico e uma história longa, por vezes de tragédia. É uma cidade sobrevivente e de enorme vitalidade, onde sucessivas camadas, muitas vezes quase independentes entre si, se sobrepõem. São muitas cidades dentro de uma cidade, como se cada uma delas pudesse ter um nome próprio. Os seus espaços estão sujeitos a constrangimentos e enormes pressões. Um olhar, frio, ponderado e lúcido, permitirá, paulatinamente, levar a cabo propostas concretas, muitas delas a desenvolver. Restituir a cidade à sua natureza e dinamismo histórico específico, manter a memória e não negar o futuro, a criatividade da arquitetura fundada sobre o saber fazer e o conhecimento.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017