segunda-feira, 14 de maio de 2012

Trancoso

Trancoso, 8 de maio de 2012
A propósito de dois trabalhos em curso, fiz duas viagens contíguas, distantes entre si. Aqui darei conta, com perplexidade, de algumas complexidades e contradições de um Portugal contemporâneo, e outras caminhadas antigas feitas nestes mesmos territórios.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Fugaz


[A Construção da Fuga #21] Há qualquer coisa de severo, de pleno, neste passado em que muitas vezes fomos felizes sem o sabermos, apenas tomando consciência desse facto muitos anos depois, quando esses momentos, ou períodos, já não nos são acessíveis. Talvez mesmo como espécie, transportemos no interior das nossas células este passado biológico que todos os dias descobrimos no transporte para o futuro. Estes são os passos deambulantes por uma paisagem. É o que fica de sensações de uma vivência que muitas vezes não passa nas fotografias dos lugares, mas é como uma realidade latente que permanece na memória do viajante. É um elemento complementar de todos os registos fotográficos, escritos sobre uma paisagem, mas a que mais ninguém tem acesso. Há uma luta com a expressão para tentar deixar impresso, de alguma forma, esse fascínio, este labirinto que se procura simplificar. Este é o sentido e o símbolo destas palavras, a procura interminável para a qual uma vida parece ser pouco, mas que num momento fugaz, muita vezes, tudo aparece para se esvanecer com a velocidade de um relâmpago, ou de um sonho que imediatamente se apaga nos primeiros segundos do nosso despertar. É desse sonho que vêem estas palavras, vêem também do que fica por trás de todas as fotografias, desse ato compulsivo, sóbrio, de tentar captar, não uma realidade visível, uma paisagem, mas como tudo isso fascina, não apenas de um conceito de belo, mas sobretudo de uma razão descodificadora de um fascínio, e da vivência vital de um momento, que se quer fixar, materializar numa dimensão de memória, arquivar numa permanência viva, transmitir. E a vida vai-se tornando progressivamente mais complexa por juntar todas as fotografias e memórias num território de desprendimento do seu referente, por querer tornar acessíveis, em simultâneo, todos os momentos de um passado construído num tempo de que hoje apenas restam fragmentos de uma vivência que os definiu e que, na altura, lhes conferiu sentido, razão de ser. É nesta perda de vínculo que se joga o equilíbrio precário de um presente denso.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Futuro


[A Construção da Fuga #20] A chuva, o vento, o frio, o calor, o cansaço, muitas vezes extremo, o limite de uma resistência física, o som de uma coruja numa noite gelada, o coachar das rãs na madrugada de um ribeiro, o sol das manhãs e o calçar as botas para mais um início de caminhada, o subir uma montanha, a procura de uma sombra sob um sol abrasador, ou de um pequeno regato para beber água, procurar um local para a pernoita e não pensar no dia seguinte. Uma ferida que sara sob uma película suor, e uma dor qualquer que se esquece. Uma paisagem ininterrupta que se renova a cada passo. Há uma energia poderosa que nos conduz por lugares desconhecidos. Há todos os medos que deixamos num horizonte crepuscular e uma vida que se dilui numa cosmicidade que existe vaga dentro de nós quando o pensamento se desprende de um sem-número de preocupações que transportamos todos os dias e que nos turvam a limpidez do olhar. Despojaremos essa face. Aqui dá-se o afastamento da cidade, de um quotidiano edificado sobre milhares de anos de civilização, de uma imparável evolução de espécie, que nos conduz a um distanciamento célere de um mundo arcaico, mas que, simultaneamente nos deixa janelas abertas, muitas vezes quase ocultas, do que foram as viagens passadas, não raras vezes de sofrimento e dor, mas sempre com um vislumbre de futuro.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Conforto


[A Construção da Fuga #19] O estar e o ter estado são as condições essenciais desta fotografia de paisagem. O habitar fisicamente é um dado absolutamente fundamental deste trabalho. O contacto da pele com os lugares, a paisagem sentida pelo pisar o solo, é um dos elementos mais importantes da vivência de espaço, da permanência longe de alguns confortos da civilização. Aqui se toma o contacto significante com uma série de factores que condicionam a nossa relação com o espaço envolvente.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Perder


[A Construção da Fuga #17] Todos os trabalhos que desenvolvi foram feitos de forma muito consciente e deliberada, metodicamente organizados e pensados em todas as suas fases com um razoável grau de rigor. Mas esta era uma visão pontual, aplicada a cada momento, não havia a noção de construção de algo que abrangesse o conjunto destes fazeres fragmentados, que, de qualquer forma, faziam parte integrante de uma identidade, da qual não era possível a desvinculação. Mas o que agora encontro é mais, e diferente, que a soma das partes. Há o edificar sólido de um labor, como que uma pequena cidade com carácter labiríntico, que se apresenta diferente no decurso do tempo. Mas além de todos os trabalhos, desses marcos de percurso, há um rasto do que lhes fica na margem, que muitas vezes é mais do que fotografias não selecionadas. São ideias, são novos projetos que quase sempre não ganham forma, mas que acabam por contribuir, de modo mais ou menos direto, para outros trabalhos. Cada trabalho é, assim, a confluência de vários tributários num rio maior. Mas, dizia, o mais significativo das margens dos vários trabalhos é, sem duvida, a constituição de arquivo de grandes dimensões que, por si só tem um significado que excede muito uma mera reunião de imagens com interesse mais ou menos vago. Este é o grande mar onde confluem todos esses rios, os seus pequenos tributários (sendo que alguns são relativamente grandes). É este grande mar que vai contaminando de forma significante todos os fazeres que existem em pontos específicos do seu futuro. A fotografia é a reinvenção de um território humano. Já não se tratam das paisagens fotografadas, mas de um olhar seletivo e filtrado de um mundo passado recente. Este mundo é diferente daquele que foi visto, vivido e registado, pois encerra dimensões ambíguas e difíceis de definir porque se transformam com o decurso do tempo e das interpretações a que vão ser sujeitas. As fotografias não são quadros para pôr na parede, não se procura o belo-aí, são como um imenso livro, em vários volumes, existente numa biblioteca, que pode ser consultado e servir de base para para outras investigações, para pontos de partida de outras viagens, a encetar por desconhecidos. Poderá também ser um livro esquecido que vive na imanência da sua descoberta por um leitor ocasional. Pode ser o que se vai perder.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Inverso


[A Construção da Fuga #16] A procura de uma origem é aqui um caminho inverso que se perde num interminável labirinto que se adensa à medida que recuamos no tempo. Inverso porque de recuo, irreal; movimento de consciência, mais do que qualquer outra coisa. (Tudo isto poderá representar apenas um caminhar dentro da própria consciência). Mundo de luz e sombra.