sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Casa de Viagem, Um conceito de habitação

[Casa de Viagem 01] Esta leitura sobre o povoamento humano e habitação não pode deixar de ser uma reflexão pessoal sobre a ideia de liberdade. Um exercício enquadrado na especificidade do desafio que me foi lançado pela Professora Paula André, no sentido de refletir sobre a habitação no momento em que se celebram os 50 anos da Revolução do 25 de Abril de 1974, quando o Estado Novo, um regime opressivo e ditatorial, é derrubado e implementada a democracia. As palavras e as imagens que se seguem, mesmo sem qualquer compromisso com correntes ideológicas vigentes, são uma posição política sobre a possibilidade da criatividade e da arquitetura poderem ajudar a encontrar soluções para lidarmos com os grandes desafios que enfrentamos. As Alterações Climáticas são uma realidade. O  Aquecimento Global é uma evidência. De uma forma muito breve, é aqui proposta a viagem por todos os tempos do povoamento humano da terra que hoje habitamos. Por fim, no exercício da mais estimulante liberdade que nos foi deixada por Abril, fica uma proposta de arquitetura interior ou uma interpretação dos cosmos.

Sítio da Penascosa, Vale do rio Côa, Vila Nova de Foz Côa, 1995

sábado, 13 de janeiro de 2024

Passagem

[Fotografia-conhecimento 6/6] Fixar a efemeridade da passagem, da visualidade das viagens em fuga. Reencontramos, breve, o movimento em campo, na tentativa de tudo fotografar, em que já não é só a luz que se dilui na direção da noite, é também a capacidade física do fazedor, do fotógrafo, que se esgota. Vemos partir algo que já não temos possibilidade de agarrar. Não há a angústia da perda. Serenamente, procuram-se outras soluções para continuar. Quando uma linha se perde, há outras geometrias que surgem. Somos fragmentos em movimento aleatório pelo Universo. A vida é o movimento da matéria em busca de um sentido inexistente.
 
Praia da Luz, Lagos, 2023

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Múltiplos saberes

Fotografia-conhecimento 4/6] As fotografias conduzem-nos a um processo de aprendizagem do olhar, da observação. Somos transportados ao conhecimento do mundo, à possibilidade de cruzarmos múltiplos saberes. Ensaiamos formas gráficas de tradução da memória e linguagem que se erguem do caminhar, das fontes, reais e imaginárias, onde fazemos pausas na permanente viagem da vida. Mapas, quadros, diagramas. O que fica para lá das imagens fotográficas, pictóricas. Desenhos dinâmicos a que somos transportados pelo pensamento, pelo desejo de uma síntese clara da condição, individual e simultaneamente coletiva, ancorada na contemporaneidade que habitamos.

Praia da Luz, Lagos, 2023

 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Expressão, tradução

[Fotografia-conhecimento 3/6] O trabalho de mapeamento fotográfico do território, da paisagem e da arquitetura, desenvolve-se, não raras vezes, em exaustão física. A grande quantidade de imagens produzidas resulta da ansiedade de tudo querer fotografar, de não perder nada, tudo registar, quando, simultaneamente, tudo foge, se escapa, como a água que tentamos reter nas nossas mãos. Paradoxalmente, não há um sentimento de perda, tal é o envolvimento, a integração num universo significante, afastado dessa sim, ânsia de resposta a códigos sociais. Habitar, momentaneamente, uma indizível liberdade. Estas palavras são uma aproximação a essa procura, à expressão, à tradução, de uma realidade noutra diferente, mediada.
 
Praia da Luz, Lagos, 2023

 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Sedimentos, memória

[Fotografia-conhecimento 2/6] O exercício de uma recolha fotográfica extensiva de um determinado lugar, seja ele natural, rural ou urbano, é, aqui, entendido como um movimento performativo sobre a terra. A marca que deixa é um conjunto de imagens. Há uma experiência de vida, intensa, de concentração, de foco pleno. Ao mesmo tempo é ausência de um quotidiano funcional, de múltiplas respostas a solicitações concretas. Um trabalho disruptivo, contaminado por pensamentos dispersos que abarcam todo o passado vivido, o presente e a projeção do futuro breve. Cada viagem, cada caminhada, é diferente de todas as outras. Há sucessivos sedimentos de memória que dialogam entre si.
 
Praia da Luz, Lagos, 2023

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Milimétrico visível

[Fotografia-conhecimento 5/6] Este trabalho fotográfico opera num território híbrido. Por um lado o levantamento, o registo visual do espaço e do tempo dos lugares. Por outro lado há um olhar que não é neutro, apesar de um desejo de objetividade. Nada é absolutamente concreto. A fotografia opera seleções do visível, por vezes milimétricas, na alteração de um ponto de vista, que altera drasticamente a significação, a leitura da imagem. Fazer arquitetura com as fotografias, um espaço referencial de partilha e de conhecimento da realidade, para o mundo. A arquitetura assume o carácter simbólico, a súmula de uma condição humana. É o assumir de um passo evolutivo determinante, a construção de um habitat complexo, o corte progressivo com uma natureza intacta, dura, violenta, hostil. No coração de uma cidade, encontramos a força telúrica dos elementos em diálogo, estranhos e poderosos, de um planeta inteiro, de uma casa comum. Na impermanência, na beleza evolutiva dos equilíbrios pontuais de todas as formas da vida, encontramos matéria para continuar.

Luz, prox., Lagos, 2023


 

Imagens-metáfora

[Fotografia-conhecimento 1/6] Caminhar com uma câmara fotográfica, com o desejo simultâneo de conhecer a terra, a geologia, o coberto vegetal, as marcas, das mais simples às mais variadas e complexas, do povoamento humano. Criar um registo visual, imagético, da maior quantidade possível de elementos, sabendo que é sempre limitada essa capacidade de tudo fotografar. Mas ficarão imagens-metáfora, simbólicas, representativas da realidade visível. Como janelas de infinito que questionam quem sobre elas se debruça, que causam, eventualmente, inquietação, que estimulam formas mais ricas e informadas de interpretar a nossa condição de seres biológicos inseridos numa biosfera de extrema diversidade.
 
Luz, prox., Lagos, 2023