quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Lealdade

Serra do Gerês. 2012

[Gerês 50] Um pacto de lealdade com a montanha, a montanha que nos mostra a força extraordinária da Natureza. Estamos num lugar limite da condição de habitar, um lugar onde os invernos são de uma dureza extrema, e mesmo no verão por vezes somos surpreendidos por uma violenta oscilação térmica, por uma chuva pesada inesperada ou por um nevoeiro denso que nos isola da paisagem envolvente. Nas noites temos o imenso cosmos em frente dos nossos olhos. No alto das montanhas estamos mais próximos desse cosmos longínquo, de todos os mundos misteriosos, de uma imaginária vida diversa, tremenda e invariavelmente diferente. Há, na montanha, qualquer coisa que nos chama para uma essencialidade despojada, há um clima e um isolamento que não permitem os passos levianos de ambientes urbanos.
Serra do Gerês. 1991

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Montanha espelho

Serra do Gerês. 2012
[Gerês 49] O Gerês revela como que a dimensão interminável do espaço português é um lugar quase desconhecido, de uma enorme grandiosidade. Com as suas reduzidas dimensões, quando comparadas com outros países, Portugal revela uma extraordinária diversidade paisagística e, consequentemente, de povoamento humano. Este é um dos seus principais caracteres distintivos no contexto do que poderia ser uma oferta turística em que os visitantes, incluindo os nacionais, não precisariam de se deslocar grandes distâncias, para se confrontarem com o espanto da diversidade de um território, que ao longo de séculos revelou formas únicas de como as populações se adaptaram e construíram uma identidade vincada na relação e no compromisso com a terra.
Serra do Gerês. 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Um país enorme

Serra do Gerês. 2012

[Gerês 48] Talvez mais do que qualquer outra coisa quer-se aqui mostrar que Portugal é uma país imenso, que uma investigação cuidada sobre as suas paisagens se depara, creio que invariavelmente, com uma sensação de infinitude. Então nascem aí novas viagens, novos itinerários construídos sobre a impossibilidade de tudo percorrer quando se está num movimento como este aqui descrito. Este caminhar é uma saída da estrada. Se aproximarmos o olhar da terra, encontramos micro-paisagens, que são a saída dos caminhos e quase como penetrar numa realidade completamente nova que nega a possibilidade de um documentalismo fotográfico exaustivo. A fotografia abeira-se de um mundo quântico, onde as leis conhecidas, um tradicional mundo sensorial, deixa de fazer sentido. É perdida a nossa capacidade de entendimento de um universo fratal.
Serra do Gerês. 2012

Serra do Gerês. 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A face da Terra

Serra do Gerês. 2012

[Gerês 47] Como nenhum outro espaço em Portugal, a serra do Gerês, pelo seu isolamento e inacessibilidade, mostra-nos a pele de um planeta que nos precedeu como espécie, a força da Natureza, próxima, onde podemos imaginar uma condição intocada.

sábado, 3 de novembro de 2012

A batalha abandonada

Minas do Borrageiro. Serra do Gerês. 2012
[Gerês 46] Não há, não pode haver, o anular de todo o espaço-tempo que ficou para trás, mas o Gerês revela-nos uma dimensão nacional, talvez planetária, singular. Mostra-nos as marcas precárias de um processo civilizacional, com séculos de existência, que não desenvolveu uma estratégia humana evolutiva. Pelo contrário, pelo seu isolamento e por um ambiente económico, humano, que lhe é completamente estranho, prepara-se para a devolução à Natureza, de uma batalha perdida.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O significado do Gerês

Serrado Gerês. 2012

[Gerês 45] No Gerês não estamos a falar de territórios insulares não povoados ou de dimensão reduzida, como as Formigas, nos Açores, ou as Desertas, na Madeira. Trata-se de uma área continental suficientemente extensa para nos questionarmos sobre algumas leituras generalistas que por vezes se fazem do espaço português, que querem tomar a parte pelo todo. Se algo há de comum nos espaços urbanos, ou numa franja de solo próxima do Atlântico, entre Setúbal e Braga, há também uma quantidade de terra que foge a qualquer tentativa de classificação. Há paisagens significantes que não são visíveis da estrada. A área da serra do Gerês é, talvez, o dobro da área ocupada pela cidade de Lisboa. A serra não é habitada por milhões de pessoas e está muito longe de ser um interminável labirinto urbano, mas a sua extensão terá de ser tida em conta quando se faz uma análise do espaço português, da sua enorme complexidade. Acaba por ser uma paisagem completamente marginal que não é aquilo a que se convencionou chamar Minho, ou Trás-os-Montes, é uma montanha de uma grande singularidade e autonomia simbólica.
Serrado Gerês. 2012

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mais, menos ciência

Serra do Gerês. 2012

[Gerês 44] Mais do que estudos científicos sobre aspetos particulares da geomorfologia da serra do Gerês, da sua geografia física ou humana, antropologia ou etnografia, biologia ou outros ramos da ciência, qual é o significado desta montanha no espaço português, ou numa determinada condição de habitar a terra, em que a inacessibilidade parece ser uma das marcas mais evidentes?