[Lugares livres 13] Num trabalho desenvolvido para o Círculo de Leitores, entre os anos 2000 e 2008, percorri extensivamente todo o país. As fotografias de Viseu, de praticamente todo o concelho, são de 2002, 2004 e 2008. Portugal Património é uma obra em doze volumes desenvolvida em cerca de dez anos. Para a sua realização foi percorrido todo o espaço português, em mais de 550 dias de trabalho de campo, nos quais foram feitas 611.527 fotografias. Pela abrangência e detalhe do património cultural e natural, em sítio de Portugal, é considerada uma obra única no panorama editorial português. Além das unidades de património de reconhecida importância foram também fotografadas e descritas nos vários volumes da obra, outras pouco conhecidas. Partindo de uma cartografia especialmente desenhada para este projeto, foram implantadas, sem hierarquizações, árvores notáveis, conventos, trechos de paisagem natural, viadutos, palácios, barragens, cruzeiros, jardins, fábricas, dólmenes, capelas de romaria, grutas, moinhos, igrejas, edifícios de arquitetura contemporânea, castros, etc. O conjunto da obra revela, de forma evidente, a invulgar diversidade de patrimónios existentes em Portugal e a singularidade da cultura de todo um povo.
Fotografar um território vasto. Procurar em Portugal as raízes de uma identidade coletiva que se perde num tempo longo. Construir um arquivo fotográfico. Reinventar uma paisagem humana, uma ideia de arquitetura, uma cidade nova.
terça-feira, 22 de outubro de 2024
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Contacto ("Portugal - O Sabor da Terra")
[Lugares livres 12] Portugal — o Sabor da Terra, foi uma investigação e recolha fotográfica desenvolvida entre 1995 e 1997, para o Pavilhão de Portugal, na Expo’98, e para o Círculo de Leitores, do qual resultaram catorze exposições simultâneas nas várias regiões de Portugal e igual número de volumes publicados. Foi um trabalho elaborado com o historiador José Mattoso e a geógrafa Suzanne Daveau. Desde 1986 que percorria Portugal num levantamento fotográfico progressivo de unidades de paisagem, formas primitivas de ocupação e domínio do território, lugares arqueológicos, aspetos das cidades e da suburbanidade, arquiteturas, vias de comunicação e transformações recentes do espaço habitado. Destes itinerários foram extraídas as fotografias uma obra onde se procurou fixar a paisagem e povoamento num tempo longo. Este trabalho pretendeu contribuir para a identificação de um país, para a redescoberta das suas regiões e da multiplicidade dos seus lugares e arquiteturas.
domingo, 20 de outubro de 2024
Longe do mar
[Lugares livres 26] A serra do Caramulo é como uma barreira que isola o território de Viseu do mar. Curiosamente, da divisão administrativa do espaço português em distritos, Viseu é a única destas frações que não tem contacto nem com o Atlântico, nem com Espanha. Uma paisagem interior, mas tão perto de tudo, destas barreiras geográficas a partir das quais podemos descobrir paisagens distantes, muitas vezes já tão acentuadamente diferentes. Esta é uma das marcas mais singulares da paisagem portuguesa, a enorme diferença de lugares em distâncias próximas. Se compararmos a serra da Estrela com o rio Douro, por exemplo, o granito e o xisto, poucas semelhanças encontramos. A leitura, com os pés no chão, destes tão surpreendentes lugares é um dos mais fascinantes motivos para a viagem. Uma enorme curiosidade pelo conhecimento da terra.
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| Serra do Caramulo, 1996 |
Exercício-mapa
[Lugares livres 18] O exercício da recolha fotográfica não deixa de ser, aqui, um movimento performativo sobre a terra. A marca que deixa é um conjunto de imagens. Há uma experiência de vida, intensa, de concentração, de foco pleno. Ao mesmo tempo é ausência de um quotidiano funcional, de múltiplas respostas a solicitações concretas. Um trabalho disruptivo, contaminado por pensamentos dispersos que abarcam todo o passado vivido, o presente e a projeção do futuro breve. Cada viagem, cada caminhada, é diferente de todas as outras. Há sucessivos sedimentos de memória que dialogam entre si.
Tempo (Orlando Ribeiro)
[Lugares livres 14] Orlando Ribeiro foi o mais destacado geógrafo do século xx português e um nome incontornável quem pretenda conhecer o território hoje Portugal. Começou a fotografar o país em 1937, com uma câmara Leica M3, dando conta dessa aquisição numa carta a outro grande nome da cultura portuguesa: Leite de Vasconcelos. Em 1945 fez uma fotografia em Viseu, cidade que lhe era familiar desde a infância, onde moravam os seus avós maternos. Vinte e dois anos mais tarde, em 1967 ,voltava ao mesmo lugar, Esculca, um vértice geodésico e faz uma tomada de vista sobre a cidade, tal como havia feito em 1945. As diferenças entre as duas imagens são evidentes. A fotografia mais recente mostra-nos um bairro, de casas uniformes, ao modo das colónias agrícolas promovidas pelo Estado Novo. Em 2011, por ocasião de um trabalho enquadrado no centenário do seu nascimento, promovido pela Biblioteca Nacional de Portugal, fotografei vários locais onde tinha estado, e fotografado, Orlando Ribeiro. Este ponto em Viseu foi um desses lugares. O bairro construído na década de 1940 estava, quase na sua totalidade, em ruínas. Mais tarde regressei, várias vezes, encontrando, por vários motivos, uma paisagem sempre diferente. Quando comparamos estas fotografias de Orlando Ribeiro, e outras, sobretudo se anteriores à década de 1980, o que hoje encontramos é um tempo civilizacional diferente. São imagens que nos dão conta da voragem do tempo, de uma contemporaneidade que avança, célere em afastamento a um ponto de origem, tendendo a apagar uma natureza intacta que nos traz a memória da conquista da terra e a construção das cidades.
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| Esculca, Viseu, 1945 (fotografia de Orlando Ribeiro) |
Esculca, Viseu, 1967 (fotografia de Orlando Ribeiro) Esculca, Viseu, 2023

Esculca, Viseu, 2012 
Origem (Grão Vasco)
[Lugares livres 11] Lugares, arquiteturas, campos agrícolas, árvores, paisagens. São fundos de pintura, em que as figurações humanas, de episódios bíblicos, ocupam o centro do retábulo e nos prendem a atenção. Quando aproximamos o olhar destas superfícies cromáticas, revela-se-nos um mundo que, a uma primeira observação, nos passa despercebido. Há um imenso detalhe na pincelada, no traço. Há marcas do tempo que passa sobre os pigmentos, sobre a madeira de castanho que constitui o suporte destas obras. Mergulhamos, progressivamente, num universo que nos absorve, que nos chama. Estamos dentro de paisagens, simultaneamente reais e imaginárias, com cinco séculos de sucessivos olhares. Fotografar estes matizes é como registar uma paisagem do presente. É a extrema educação do olhar, o mais fino detalhe, que nos mostra Grão Vasco, em que o seu tempo é agora o nosso tempo. Tudo pára, no indizível fascínio desta pintura.

Detalhe de retábulo de Grão Vasco, Museu Nacional Grão Vasco, Viseu, 2021
sábado, 19 de outubro de 2024
Monografias
[Lugares livres 10] Há trabalhos monográficos, sobre localidades, que são verdadeiramente inspiradores, como seja, Vilarinho das Furnas - Uma Aldeia Comunitária (1948) ou Rio de Onor - Comunitarismo Agro-Pastoril (1953), ambos de um precursor da antropologia portuguesa, Jorge Dias, Monsanto - Etnografia e Linguagem (1961), de Maria Leonor Carvalhão Buescu ou Pitões das Júnias - Esboço de Monografia Etnográfica (1981), de Manuel Viegas Guerreiro, ou outros mais recentes, a abarcar áreas geográficas mais vastas, como O Gerês: de Bouro a Barroso - Singularidades Patrimoniais e dinâmicas territoriais (2011), de Rosa Fernanda Moreira da Silva. Esta proposta editorial segue um caminho diferente. Mesmo tendo como referência Viseu Monumental e Artístico (1949), de Alexandre Lucena e Vale, não pude deixar de seguir outra direção. A internet, os smartphones, de algum modo, abrem um campo de liberdade para o desenho de diferentes artefactos de comunicação. Com mais de 115.000 fotografias feitas, em mais de 27 anos de recolhas fotográficas, Viseu é a área geográfica mais exaustivamente coberta num arquivo fotográfico pessoal de mais de 2.050.000 de imagens. As possibilidades de conceção de um livro são praticamente ilimitadas. Seguimos uma viagem no tempo, que é uma viagem no espaço. Não propomos um roteiro turístico mas uma deriva por uma terra fascinante. Numa altura em que a Inteligência Artificial parece ameaçar toda a criatividade humana, procurámos, justamente pôr em diálogo fotografias com uma experiência já longa de navegação terrestre pelo espaço português.





