quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Aproximação. O Núcleo da Claridade #4

Duarte, Diogo e Ruy Belo. Praia da Senhora da Guia, Vila do Conde. Início da década de 1970.

Este não foi um trabalho exaustivo sobre Ruy Belo, sobre a sua memória ou sobre o seu espólio literário. Nem tão pouco é uma fotobiografia, embora se reunam aqui algumas fotografias significativas daquelas que são conhecidas. É uma aproximação, com carácter fragmentário, para mim possível, a meu pai. Este é um livro sobre a vida e sobre o que permanece após a construção de um desígnio, um percurso sem um destino aparente, a vaga viagem da procura de um território nosso, unicamente humano.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Biografia. O Núcleo da Claridade #3

Duarte e Ruy Belo. Vila do Conde. 1970
Ruy Belo nasceu no dia 27 de Fevereiro de 1933, em S. João da Ribeira, Rio Maior. Num percurso longo e simultaneamente breve, viria a concluir o liceu em Santarém e prosseguir os estudos em Coimbra. Em Lisboa, em 1956, termina a licenciatura em Direito, ano em que, em Roma, inicia o doutoramento em Direito Canónico. Defende tese em 1958 e, nesse mesmo ano regressa a Lisboa. Em 1961 é aluno do primeiro ano do curso de Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa e publica Aquele Grande Rio Eufrates, primeiro livro de poemas. Até 1977 publica 9 livros de poesia. O último título é Despeço-me da Terra da Alegria. Em meses de Verão passava os dias longos na praia da Senhora da Guia, em Vila do Conde ou na praia da Consolação, perto de Peniche. Ao longo da sua vida, Ruy Belo persegue uma ideia de liberdade maior e um desejo de comunicar, de que a sua poesia é hoje uma imagem viva. Num aparente relato de uma vivência quotidiana, cedo nos apercebemos que a sua escrita, marcada por uma ideia de ‘transporte’, toca profundamente alguns dos problemas mais profundos vividos pelas sociedades contemporâneas do mundo ocidental, como o amor, a morte, a relação com o outro ou o tempo e o espaço das nossas vidas. Numa procura constante da própria ideia de poesia, Ruy Belo parece querer habitar um tempo que congrega todas as idades e um lugar que representa todos os lugares.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dois tempos. O Núcleo da Claridade #2

Retratos de bilhetes de identificação de Ruy Belo

O movimento que aqui se propõe divide-se em dois tempos. Num primeiro tempo, volto às fotografias feitas para Ruy Belo - Coisas de Silêncio, as mesmas que me fizeram recuar e me apontariam outros caminhos. São as fotografias da edição do ano de 2000 e muitas outras, dando conta do que tinha sido esse processo de aproximação e afastamento a Ruy Belo.
O segundo tempo, define o corpus principal e a razão de ser deste livro. São os fragmentos da poesia de Ruy Belo. São os poemas autógrafos, os dactiloscritos, as provas de edições, a correspondência, os documentos dispersos, alguns objectos, e as fotografias de época, que contextualizam uma vivência. É o levantar de um pano sobre a matéria literária produzida, os indícios de um processo criativo, o tempo da feitura da poesia.

detalhe do poema autógrafo VAT 69, do livro Homem de Palavra[s], de 1970

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Voltar. O Núcleo da Claridade #1

Vista da janela da casa de Ruy Belo. Queluz. Sintra. 1994. 2010

Numa manhã de Março de 2010 voltei à casa de Queluz, onde Ruy Belo vivera. Aí se encontram actualmente os versos escritos por sua mão e muitos outros papéis, livros, documentos, objectos, ou as fotografias em que se encontra retratado. Elementos em que fora deixada a sua marca indelével. Tencionava voltar a fotografar a casa, na continuidade de Ruy Belo - Coisas de Silêncio, agora dez anos volvidos sobre a publicação desse livro. A casa mantém-se nos seus aspectos essenciais, tal como eu a encontrara dez anos antes, mas tomava agora consciência que não fazia para mim sentido voltar a fotografar esse espaço. A sua escrita, os seus poemas, abriam-me outras linhas de pensamento.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Núcleo da Claridade


Agora regressei a alguns aspetos desse tempo inicial, de Coisas de Silêncio. Já não me foi possível voltar às fotografias, mas mergulhei mais fundo num rasto de matéria que foi deixado por meu pai. O Núcleo da Claridade é uma viagem pelos fragmentos de um trilho deixado por quem dedicou a sua vida à escrita da poesia, à pura expressão pela palavra. Tentar seguir os rasto de alguém, pelo que fica nas margens de um caminho, é um desafio fascinante, que nos leva a uma floresta que se torna cada vez mais densa e inextricável, a ponto de perdermos quase o sentido do nosso próprio caminhar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

regressar a Ruy Belo

Jardim das Portas do Sol. Santarém. 1994

No ano 2000 publiquei Ruy Belo - Coisas de Silêncio, uma primeira abordagem ao mundo da escrita de meu pai, feito quase exclusivamente pela fotografia. Era a materialização de algumas ideias que vinham comigo desde os primeiros tempos em que comecei a fotografar. A fotografar os lugares da minha infância, que partilhei com os meus pais e os meus irmãos. Lugares e objetos de um quotidiano próximo no tempo e no espaço.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Bosque de Sombras Perfumadas (8/8)

Casaco de Orlando Ribeiro. Vale de Lobos. 1997


O que eu encontrei na casa de Vale de Lobos, aquilo que procurei pela fotografia, foi o sentido de uma vida austera que era revelada por cada objecto, por cada peça de vestuário, por cada elemento aparentemente insignificante que povoava aquele espaço. Era uma vida quase despojada de matéria, centrada no prazer do conhecimento da diversidade dos lugares, do processo histórico de povoamento do espaço e das formas como a fixação de comunidades humanas se integrava e se adaptava a paisagens e a condicionantes climatéricas previamente existentes. Não havia excesso, luxúria ou qualquer género de ostentação: talvez isso o afastasse da proximidade que queria ter com um mundo essencial que encontrava nas suas pesquisas de campo, fosse numa cidade de interior, numa pequena aldeia da serra, nas planícies do sul, em tantos outros lugares, ou no "bosque de sombras perfumadas", expressão usada por Orlando Ribeiro para descrever a serra da Arrábida, um último reduto da floresta mediterrânea, que nos remete para a vivência significante das paisagens, da relação humana que com elas estabelecemos, mas também para o sentido da permanência, ou o habitar de um universo singular e fascinante.