sábado, 25 de junho de 2016

Tecido puído

[dia grande 04] A peça de roupa apresentada na conversa sobre arquitetura foi uma t-shirt com mais de 20 anos de viagens, puída por esse tempo, com muitas marcas, manchas de uso. Foram já muitas paisagens percorridas, muitas vezes em esforços consideráveis, em serranias, ou junto da orla marítima. As manchas, ou desenhos impressos pelo uso, são como um mapa dessas mesmas viagens, uma interpretação oblíqua dos lugares visitados, das noites passadas no relento dos campos. É um tecido que acaba por ser um elemento construído por uma existência, reflexo do tempo que passa, reprodução, de alguma forma, de um corpo. Roupa velha, sinal de pobreza, a procura de uma existência mínima, determinação, perseverança, continuidade, resistências múltiplas. Também a fuga de determinados códigos sociais na procura da solidão para ir ao encontro de “toda a terra”, dos lugares que falam, de uma natureza austera, avassaladora, fascinante, complexa. Procurar linhas de perplexidade. Dialogar com o medo. Vestir o despojamento.
 
Serra da Peneda, Arcos de Valdvez. 2009

Queluz, Sintra. 2016

Queluz, Sintra. 2016
 

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