quinta-feira, 22 de junho de 2017

As faces do Gabinete da Cidade

[funchal 53] Os projetos, as ideias, têm sempre um ou vários rostos. Há sempre uma teia de relações por trás desses mesmos seres que trabalham sobre objetivos definidos. A própria decisão política da criação de um gabinete para o estudo de uma cidade é uma atitude muito relevante. Deixo aqui as faces do Gabinete da Cidade que são quem, no solo do Funchal ou na sua representação, desenhada, fotografada, escrita, reflete o desejo de futuro. Amilcar Nunes, Ana Pedro Ferreira, José Gustavo Freitas, Luca Bellisai, Paulo David (coordenação), Pedro Gonçalves, Pedro Maria Ribeiro. Todos arquitetos.
[em pé, da esquerda para a direita] Pedro Maria Ribeiro, Amilcar Nunes, Pedro Gonçalves, José Gustavo Freitas e Luca Bellisai; [sentados] Ana Pedro Ferreira e Paulo David (Coordenador)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como continuar

[funchal 52] Avaliar resultados, ter a noção da escala do tempo, que pode ser morosa, implementar medidas; não esperar a obtenção de resultados imediatos. Perceber, da parte do poder político, a importância de um olhar claro sobre a cidade e a determinação na continuidade do estudo cada vez mais aprofundado.

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017
Funchal. 2016


terça-feira, 20 de junho de 2017

Qual o papel da universidade neste tipo de estudos

[funchal 51] A reflexão multidisciplinar, a envolvência dos alunos, o entendimento da cidade como tabuleiro de “jogo” de experimentação, de criatividade para a exploração e proposta de relações inusitadas e surpreendentes. Chamar pensadores de outras áreas, não apenas da história, da geografia, da sociologia ou da antropologia, mas também as disciplinas da criatividade, que são menos óbvias e quase sempre esquecidas nestes processos e na construção global do conhecimento.
Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

O que pode ganhar a cidade do Funchal

[funchal 50] O que podem ganhar as cidades com o seu estudo aprofundado é a consciência de si num mundo global, é o conhecimento claro da sua especificidade e singularidade num contexto planetário, é o caráter de “arte” do seu património, dos seus arruamentos, da relação com o solo e a paisagem envolvente. As cidades portuguesas têm, quase sempre, características muito próprias devido à sua antiguidade e ao terem sobrevivido incólumes a duas grandes guerras.
Funchal. 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O significado para a arquitetura

[funchal 49] O significado deste labor, do Gabinete da Cidade, para a Arquitetura, como disciplina, pode ser o mostrar que a arquitetura é muito mais do que o projeto de edifícios, é sobretudo a construção de pensamento e reflexão sobre o habitat humano e, cada vez mais, o enquadramento das atividades humanas num planeta em célere transformação e perda de espaços de referência de natureza. Talvez trazer a natureza para dentro das cidades e não expulsá-la.
Funchal. 2017

Funchal. 2017
 
Funchal. 2017

Algumas medidas a serem concretizadas

[funchal 48] Apresentar publicamente o trabalho realizado, chamar a cidade ao debate, expor todo o conhecimento produzido, discutir de forma aberta possibilidades imediatas de intervenção específica na malha urbana, sem deixar de pensar nas mais demoradas e ambiciosas propostas para um tempo longo, porventura não conciliáveis com os ciclos políticos eleitorais.
Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

domingo, 18 de junho de 2017

O que poderá fazer o Gabinete da Cidade

[funchal 47] Caminhar, conhecer com os pés no solo, a céu aberto. Entrar no interior de alguns dos seus edifícios históricos. Estudar nas mais diversas fontes, mesmo relativas a outros espaços distantes, a natureza específica do Funchal; refletir leituras e interpretações; fazer, desenhar, revelar; propor ideias concretas sem temer a ousadia; comunicar, transmitir uma necessidade e uma urgência de transformação; implementar, com o auxílio do poder político, projetos amadurecidos com a determinação do bem fazer, do conhecimento da terra.
Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Funchal. 2017

A criação do Gabinete da Cidade

[funchal 46] Sobre o Gabinete da Cidade, no Funchal, coordenado pelo arquiteto Paulo David, serão agora apontadas algumas palavras. As cidades terão que ser cada vez mais valorizadas, exploradas, conhecidas pelo olhar sensível de quem as estuda e quem as percorre todos os dias, de quem cultiva uma sensibilidade capaz de descodificar algumas das suas subtilezas e detalhes menos evidentes. A reflexão atenta sobre as suas especificidades. No caso da arquitetura há uma sensibilidade especial baseada no desenho, na análise cuidada da cartografia urbana, nos documentos fotográficos da passado, da análise da passagem do tempo pela leitura de bibliografia, mas também, sobretudo, das texturas e matérias dos seus edifícios e outros elementos. Os arquitetos, pela sua formação, têm um olhar transversal e multidisciplinar.
Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

sábado, 17 de junho de 2017

Uma realidade que se ergue do conhecimento

[funchal 45] Há um trabalho árduo ao longo de meses. São desenhadas peças soltas, mapas setoriais, juntam-se livros, estudos, palavras, pensamento. Quando se começam a sobrepor as peças desse puzzle é com incontido espanto e perplexidade que vemos “erguer-se” uma nova realidade, como uma nova cidade, transparente e luminosa, inquieta. Há um conhecimento que se leva a um ponto antes não tentado. Surgem propostas de intervenção, ambição de transformar de forma qualificada, propor mudanças para um tempo que não é imediato, mas que poderá estruturar os fragmentos dispersos de urgências perdidas num passado mais ou menos recente. Este é o trabalho dos arquitetos, dos desenhos por si efetuados, é o ponto de partida para uma cidade nova que interpreta sabiamente as múltiplas dimensões da urbe, que identifica e reconhece todos os seus nomes, todas as suas faces, o sentido, a matéria e a cor do seu tempo.
Planta do Funchal, Gabinete da Cidade, Funchal. 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Detalhe oculto revelado

[funchal 44] Um trabalho da natureza deste que está a ser desenvolvido pelo Gabinete da Cidade tem o mérito de pôr a descoberto as múltiplas dimensões de uma cidade, as suas camadas diferenciadas, os seus nichos e lugares recônditos, de revelar aspetos menos conhecidos, de mostrar as relações topológicas que não são evidentes, são o tornar mais claro o desenho de espaço e tempo de uma cidade que se ergue continuamente ao longo de séculos.
 
The Old Blandy Wine Lodge, Funchal. 2017

Convento de Santa Clara, Funchal. 2017

Convento de Santa Clara, Funchal. 2017
 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Propor desenho

[funchal 43] Refundar a cidade histórica; o trabalho do gabinete da cidade é estudo da malha urbana, do património, do apontar o dedo às perturbações e descontinuidades. Propor desenho, arquitetura, urbanismo, fluidez, entendimento e interpretação de uma realidade espacial complexa. Saber ler as texturas das cantarias vulcânicas, o envelhecimento das madeiras, as curvas suaves dos arruamentos, as esquinas, os desníveis e as paredes vulcânicas, as árvores gigantes, as subtilezas do tempo longo, o caminhar dos habitantes da cidade
Funchal. 2017

Funchal. 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Regresso

[funchal 42] De partida, não vamos poder olhar o Funchal da mesma forma com que olhámos para a cidade três dias antes. Descobrimos uma cidade pelo desenho do fogo. A progressão das chamas revelou, afirmou, a estrutura natural do lugar, as montanhas e, sobretudo, as ribeiras, serpentes de vida. Foi pelas ribeiras que o fogo progrediu, como se nessas vias de relação com a montanha estivesse escrita a mensagem de um necessário entendimento da Natureza. São as ribeiras que ligam as montanhas ao mar, são as ribeiras que continuarão a desenhar o território, a nele deixar a sua mais permanente marca.
Funchal. 2016
 
Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

terça-feira, 13 de junho de 2017

Expansão e domínio

[funchal 41] O fogo recente foi uma tragédia diferente. Não nos vamos deter sobre a sua origem, mas sobre o seu desenrolar e domínio. Foram os madeirenses que controlaram uma tragédia de proporções bem maiores. Quem estava na cidade naquele dia 9 de agosto sabia que o fogo podia avançar sobre o centro histórico da urbe. Essa hipótese estava severamente equacionada. A população começou a juntar-se junto ao mar. As entradas e saídas da cidade, ruas, avenidas, vias rápidas, estavam bloqueadas pelo tráfego intenso e desorientado. Enquanto isso, na periferia, nas faces de avanço do fogo, incêndio era combatido com o espanto perplexo e o medo de quem o enfrentou na defesa das suas habitações, com meios que eram o nada de mangueiras de rega, baldes de improviso e coragem. As esses homens e mulheres que habitam os limites altos da cidade se deve a contenção de uma muito maior tragédia, o derrube de um gigante descontrolado.
Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

Funchal. 2016

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Paiol

[funchal 40] Deste antigo paiol vemos a cidade a desenvolver-se até às cotas mais baixas, ao local onde tudo começou no século XV. O Funchal foi a primeira cidade do além mar, do movimento de conhecimento, reconhecimento e globalização de toda a Terra que ainda hoje não terminou. A cidade sobreviveu a mais uma tragédia. A 20 de fevereiro de 2010 nada poderia ser feito naquele momento, os erros de construção, de planeamento urbano ou da ausência dele, já tinham sido realizados ao longo de muito tempo. A água resultante das chuvas tinha que chegar ao mar e fê-lo com o seu enorme poder destruidor.
Paiol, Funchal. 2017

Defesa

[funchal 39] O antigo paiol é o mirante de onde olhamos ao longe as áreas queimadas, os lugares, um a um, onde o fogo se insinuou na malha urbana. Parece que adivinhamos a sua progressão ao redor da grande cidade, como uma dança trágica de labaredas aleatórias ocultadas por um fumo denso, um fogo poderoso e sem artifício, verdadeiro. Mas, dos relatos escutados, e das imagens que nos foi possível observar, depreendemos que houve uma grande aleatoriedade na evolução do incêndio. O calor era imenso e os ventos irrequietos, repentinos, revoltos em direções improváveis. Percebemos que não haveria corpo de bombeiros capaz de combater esta realidade. Como pôde então ser contido o fogo no seu avanço sobre o centro da cidade? Questionamo-nos depois de concluído o reconhecimento pelo perímetro negro ao redor da cidade.
Funchal. 2016

Natureza betonada

[funchal 38] Não será pela betonagem de superfícies que se vão evitar tragédias futuras, mas por uma muito maior sabedoria aplicada ao local de construção e às próprias formas e modos de edificar. A arquitetura tem de ser pensada de modo diferente, de modo mais ativo na defesa contra as intempéries. Não se pode lutar contra a Natureza, mas saber interpretar as suas dinâmicas de mudança, o seu carácter evolutivo, saber ler os sinais que ela nos dá. Todas as espécies biológicas procuram formas de equilíbrio momentâneo num meio de grande complexidade e dinamismo. A arquitetura tem que ter uma plasticidade evolutiva e o desafio do desenho integrador e de diálogo com as várias forças que se jogam na ilha da Madeira. Compromisso e cumplicidade no habitar. O respeito pela natureza específica do lugar. Se a expressão de fenómenos naturais é inevitável, ciclicamente, as suas consequências podem ser menos nefastas se a ocupação do território e as formas arquitetónicas forem desenhadas com o rigor que deriva de um olhar atento e uma investigação cuidada.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

domingo, 11 de junho de 2017

Desenho

[funchal 37] Trazer o desenho para uma postura mais ativa de defesa ‘contra’ a Natureza. Temos que, permanentemente, procurar soluções de adaptação. Mas sabemos que há situações que são de evitar. As cheias podem regressar, o fogo pode voltar. A vegetação vai voltar a crescer nas ribeiras, nos seus declives de mais difícil acesso. E esta vegetação é necessária para a fixação das terras e das penedias. Este é um dos fatores mais seguros para controlar a erosão. Ao mesmo tempo “vegetal” é sinónimo de vida, de nichos ecológicos ricos e de biodiversidade.
Funchal. 2017

Apagamento identitário

[funchal 36] Mesmo depois das obras, as ribeiras do Funchal vão continuar a estruturar a malha urbana da cidade, como sempre o fizeram, mas deixarão de ser uma referência de Natureza no coração da cidade. Daí advinha a sua força, o seu singular carácter telúrico. Está em apagamento essa tão forte memória, essa textura de uma cidade antiga, sobrevivente. Uma das suas mais fortes marcas identitárias. Agora é como que cortado um pacto que se estabeleceu com a Natureza há séculos atrás, no período da fundação da cidade.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Terra

[funchal 35] As ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes são a incursão de Natureza na malha urbana, trazem a montanha, a expressão geográfica mais forte e intensa da Madeira, para o centro da cidade. As duas últimas tragédias foram transportadas pelas ribeiras. Nas cotas baixas permanecem as obras de regularização das paredes e solo dessas linhas de água. É ainda o resultado de uma intervenção ditada por essa tragédia maior que foi o dia 20 de Fevereiro de 2010, quando chuvas inusitadas se transformaram em caudais destruidores. Curiosamente foram as ribeiras, com as suas paredes seculares, construídas em pedra, que melhor resistiram aos violentos caudais. O problema não estava nas ribeiras, mas em situações pontuais em que, a montante, se construiu no seu leito de cheia. Essas obras de betonagem das paredes, depois de concluídas, certamente não vão evitar cheias maiores, com aquelas que aconteceram. Haverá sempre tragédias que não se vão poder evitar, que vão ser imprevisíveis, é o que nos diz a história do planeta que habitamos e do povoamento humano dos lugares.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

Funchal. 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A cidade pobre

[funchal 34] À medida que nos afastamos do coração da urbe e subimos as cotas de implantação, maior será a carência económica das populações. Não deixa de haver, no entanto, exceções a esta regra. Mas, curiosamente é neste perímetro de maior pobreza que podemos observar alguns exemplos muito interessantes de arquitetura popular contemporânea, feita sem projeto, nem arquitetos, que atualmente continua a exibir soluções muito qualificadas para a resolução de problemas espaciais concretos. Há uma certa constância nos modelos de edificar no Funchal. Em muitos casos lemos o trabalho sobre o ínfimo detalhe, particularmente na articulação com os terrenos inclinados e as vias de circulação. Esse detalhe existe em muitas construções, por vezes sublimes, mesmo que com materiais pobres. A cidade atual é feita desta teia de relações entre o centro e a periferia, entre as cotas baixas e a aproximação à montanha.
Funchal. 2016
 
Funchal. 2016

Habitar

[funchal 33] Na cidade monumental, histórica, havia a tradição da construção de torreões nas casas mais nobres do centro da cidade. Para além de alguns destes torreões que permanecem, percebemos, atualmente, que quase não existem edifícios altos, de habitação coletiva, e que a cidade se estende, se espraia e eleva, na direção da montanha. Há esta tradição de edificar naquele perímetro urbano que, de algum modo é contraditória com os solos exíguos, que poderiam sugerir uma rentabilização vertical do edificado. Mas também pode parecer óbvio que aquelas terras, mesmo nas cotas baixas, não suportariam, por diversos motivos, técnicos e de interpretação do anfiteatro, construções em altura. Também poderá ter havido, historicamente, a falta de investidores para essas construções ou uma política municipal restritiva nesse sentido.
Funchal. 2017

Funchal. 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Esmagar

[funchal 32] O Funchal é uma cidade que não se deixa esmagar pelas montanhas, que tem sabido conviver com a sua brutal dimensão. O núcleo mais antigo da urbe está voltado para o mar; o motivo da opção por este lugar terá sido esse ponto de distância às montanhas, ao mesmo tempo que a elas se ligava pela presença da água que vinha das suas alturas e abastecia a cidade. As levadas são um notável exemplo construtivo desta singular civilização. Uma marca de enorme força no desejo de colonizar e habitar um território difícil.
Funchal. 2017
 
Levada, Ribeira de Santa Luzia, Funchal. 2017

Fixação

[funchal 31] A Madeira é uma montanha que se ergue do mar. Quando, hoje, lemos uma carta topográfica da ilha, imediatamente percebemos a presença dominante dos grandes declives e a quase ausência de terras planas, particularmente junto ao mar. Pelas suas escarpas e por um clima mais instável e “duro”, a costa norte terá sido excluída da tentativa a para construção de um porto. A confluência das ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes, com grande proximidade entre si, num solo de declives pouco acentuados, criavam as condições de um bom lugar para o estabelecimento de uma comunidade. Isso também deve ter sido percetível para os primeiros navegadores que terão circunavegando a ilha em busca de um ponto de atracagem e, depois, para a fixação permanente. Pensamos nos primeiros colonizadores, na instalação das primeiras comunidades humanas, no erguer dos primeiros edifícios depois de apontado o plano para o desenho incipiente das primeiras ruas. No século XV começava a ser edificada a principal cidade da Madeira.
Madeira. 2006

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Dança do fogo

[funchal 30] A dança do fogo pode ser explicada, parcialmente, por questões geográficas, de ordenamento do território, de ventos fortes e irregulares em dias de temperaturas invulgarmente elevadas, mas não deixa de haver aleatoriedade no fenómeno, nas progressão das chamas.
Funchal. 2016