quinta-feira, 13 de abril de 2017

Nulo sentido

[arquivo cidade 075] No ensaiar a vida só tarde começaria a entender o sentido da sua própria dureza. Esse entendimento, curiosamente, seria extremamente pacificador, como se agora pudesse deixar de “combater”. Não seria deixar de lutar, mas aceitar essa condição de sobrevivente como regra. A vida é um desafio continuado em várias frentes. É este movimento de resistência que nos confere sentido, e o sentido, ausente, da própria vida. Ferramentas de permanência, aceitação do contínuo irrepetível
(2016)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Espaço mediado

[arquivo cidade 074] Este trabalho procura a sobrevivência, o seu próprio sentido. É, de algum modo, uma invenção de si próprio. Poderia desejar algum reconhecimento - são já trinta anos de fotografias do espaço português, trinta anos a descrever a terra, à procura dos mais recônditos lugares, a tentativa de fixação de um presente, do tempo que habitamos. Mas agora não é significativo que alguém repare neste espaço mediado, face construída de uma comunidade. Há uma opção que se assume. Há gestos de liberdade que têm que ser encarados como tal, com risco de falharem. Falhamos em vários momentos, adaptamo-nos às mudanças no meio envolvente, evoluímos sem deixar de arriscar novamente. São ciclos de amadurecimento e pontos de partida para novas caminhadas. Desafios de sobrevivência num mundo duro e fascinante.

(2012)

terça-feira, 11 de abril de 2017

Território efémero

[arquivo cidade 073] A conquista efémera de um território fugaz, ou o passo adaptativo a um mundo em que nada nunca é estático. 


(2016)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Procurar o frio

[arquivo cidade 072] Mais três anos volvidos, agora no ano de 2015, voltava aquela montanha, agora para ver a neve. Procurava uma paisagem diferente, talvez um lugar extremo de frio intenso, inabalável. Procurava a dureza da montanha, ou um clima arcaico próximo do tempo das glaciações, que por ali existira há cerca de 10.000 anos. Talvez procurasse, numa natureza quase intacta, as paisagens encontradas pelos primeiros hominídeos que a esta finisterra chegavam, depois de atravessarem os Pirenéus. Ou mesmo, ali, pensar nos grandes movimentos tectónicos, na deriva dos continentes sobre um oceano profundo de magma.
Serra do Gerês. 2015

sexta-feira, 7 de abril de 2017

As ruas de uma cidade

[arquivo cidade 071] As fotografias não eram quadros, arte, para pôr na parede, nem procurava já a perfeição de uma imagem, que talvez me tenha levado a fotografar no início deste percurso, ao mesmo tempo que desenhava, no final da década de 1970 e início da seguinte. Procurava agora fixar uma experiência intensa. As fotografias queriam ser esse registo de um espaço e de um tempo em fuga. As fotografias são aqui arquitetura, definem os edifícios e as ruas de uma cidade.
(2016)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Desconexas dimensões

[arquivo cidade 070] Mas a qualidade das imagens não era significativa. Havia, sim, o tempo que passou. O olhar mudara, não tanto a postura perante os lugares, mesmo depois de um mais denso e seguro conhecimento do espaço, das marcas nele deixadas pelo caminhar humano, da vida apenas, vestígios de desconexas dimensões. Ficava um processo em procura, adaptação, sobrevivência, a noção cristalina da impermanência. Um novo cosmos.
(2016)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Marca do caminhar

[arquivo cidade 069] A fotografia, o exercício da captura da imagem, é aqui um ato performativo que apenas nas fotografias deixa a marca do seu caminhar. Não se procuravam imagens para um livro, uma parede, uma tela luminosa. Comunicar sim, mas sem uma forma ou um destino específico. Havia, antes, a tentativa de reproduzir em contínuo uma experiência de vida, um momento singular de existir, de uma liberdade fluida longe de olhares estranhos; diálogo com o espaço e com o tempo. Na solidão da montanha encontrar uma aproximação possível a um modo primordial de habitar, uma condição humana arcaica que emerge. Passo, ao mesmo tempo, demorado e breve de afirmação evolutiva.
Serra da Peneda. 2012