sexta-feira, 21 de junho de 2019

9 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 14] Este viria ser o dia mais duro de toda a caminhada. Acordara com o tempo seco, se bem que coberto por nuvens relativamente baixas. Uma primeira dificuldade seria a passagem de Casal de Vale de Ventos para sul, no sentido longitudinal da serra, o lugar está completamente esventrado por uma pedreira de grandes dimensões. Já na altura chovia um pouco, mas não o suficiente para me impedir de fazer algumas fotografias do povoado, e depois também, pontualmente, da pedreira, dos grandes blocos calcários. Mas a Chuva viria a intensificar-se quando caminhava sobre a área mais desabrigada da serra. Uns poucos pinheiros eram os únicos elementos que se elevavam do solo. Os pés, que até aqui tinham permanecido secos, estavam agora completamente encharcados. Houve um momento em que tive mesmo que parar por se acentuarem as dores nas pernas já a acusarem algumas horas de caminhada, que começara às 6 horas da manhã. Num solo molhado sentei-me sob a copa de um desses pinheiros sobreviventes a todos os incêndios. Havia ali uma qualquer sensação de mínimo conforto, mas a chuva permanecia cortante. Ingiro alguma coisa. Talvez quinze minutos depois retomo a caminhada. Não muito mais tarde começo a atravessar áreas de pedreira em laboração. Pesados camiões passam por mim, sinto a vibração no solo. Parecia, cada vez mais, estar num processo de aproximação a uma condição animal. Quando entramos num estado de abstração, quando ficamos indiferentes perante os estados do clima. Deixava de sentir qualquer sofrimento, como se já nada tivesse a perder. Era o reencontro com as dimensões duras da vida sobre as quais não temos o mínimo controlo. Estava livre, entregue à resistência, à não-desistência, à força do próximo passo. A água escorre pelo rosto. Continuo. A chuva haveria de parar e, não muito mais tarde, amainou mesmo. O dia permaneceria sombrio até escurecer. Tinha o conteúdo da mochila seco e isso garantia um mínimo de conforto para a passagem da noite, ainda que, na manhã seguinte, tivesse que voltar a vestir a roupa molhada.

Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 9 de maio de 2019

Quando, extenuado, chego ao Alto da Serra, sigo o itinerário que havia desenhado no mapa. Caminho cerca de um quilómetro e meio até me deparar com uma gigantesca cratera. Uma pedreira barrava-me o caminho. Na carta militar, muito desatualizada, havia por ali passagem. Agora não havia caminho possível. A paisagem calcária é especialmente castigada por esta indústria extrativa, seja para as rochas ornamentais, para os passeios das cidades, para as britas, seja para as cimenteiras. Mas como se tudo isto não bastasse, há uma nova e séria ameaça no horizonte. 
Casal de Vale de Ventos, prox., Porto de Mós. 9 de maio de 2019

A prospeção de lítio está a avançar em vários pontos do país. O panorama é muito preocupante. A procura de elementos para integrar as baterias, sobretudo para essa indústria emergente dos automóveis elétricos, promete causar estragos consideráveis na paisagem. Se por um lado a eletricidade provém de fontes de energia limpas (vamos fazer de conta que em Portugal não existem centrais de queima de carvão como sejam as do Pêgo e do Carregado), por outro lado há os danos colaterais provocados por outras fontes de energia, todas elas com consequências severas sobre a paisagem. O risco que se corre é mesmo a da destruição de extensas áreas, destinadas agora exclusivamente à produção de energia elétrica. Há um imenso território que pode desaparecer e com ele pedaços, muitas vezes ricos, de biosfera, de biodiversidade, onde vivem muitas espécies das quais dependemos muito mais do que aquilo que poderíamos imaginar. Tem que haver uma defesa da Natureza e, a par desta, a educação no sentido da mudança de hábitos de consumo, a todos os níveis. Mas desaparece também a memória de tempos não muito recuados de uma ruralidade que, em condições de extrema dureza, acabou por desenvolver soluções de relação com a terra, que são hoje um notável exemplo de integração e de sobrevivência. São memórias que nos constituem como povo, que de algum modo explicam algo do presente e de um processo de desertificação humana que queremos reverter. O que poderá desaparecer são as soluções, longamente maturadas, de quem nos antecedeu. Não é apenas o passado que vamos destruir, é, em grande medida, soluções para um futuro breve que se vão apagar da superfície da terra.
Vale da Pedreira, Alto da Serra, Porto de Mós. 9 de maio de 2019

Esta viagem é também um olhar para esse país distante mas bem real, tabuleiro de tensões imanentes. 
Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 9 de maio de 2019

Do Alto da Serra sigo então na direção de Rio Maior. Antes de chegar a esta cidade desvio para Freiria e sigo na direção de Bocas, um local “sobrevoado” pelo IC2. O rio Maior cava aqui um vale encaixado. Constato que a pedreira que me tinha impedido de seguir o caminho previamente traçado tem neste local o seu limite sul. São vários quilómetros de uma imensa cratera. Posteriormente sigo na direção de Bairradas. A chuva continua a cair. De Casais da Serra vou até Venda do Freixo e depois Gouxaria. Paro um pouco em Alguber. Já se faz tarde. Caminho na direção do Cercal, que fica já no sopé da serra de Montejunto, que será a última montanha deste itinerário. Ficará para a manhã seguinte. Procuro um local de pernoita. Mais uma vez estou num eucaliptal.
Alto da Serra, Porto de Mós. 9 de maio de 2019

Bocas, Rio Maior. 9 de maio de 2019

Alguber, prox., Cadaval. 9 de maio de 2019



Dia: 2019/05/09, quinta-feira
Lugar referência: Serra dos Candeeiros
Pernoita: Alguber, prox., Cadaval
Quilómetros percorridos: 39,2
Quilómetros acumulados: 423,8
Concelhos atravessados: Porto de Mós; Alcobaça, Rio Maior; Caldas da Rainha; Cadaval
Cartas militares: 317; 327; 339; 351
Fotografia inicial: dg901908, 06h36
Fotografia final: dg902248, 19h26
Duração trabalho fotográfico: 12h50
Fotografias: 341
Somatório fotografias: 5465
Fotografias selecionadas: 86 (25,22%)

domingo, 16 de junho de 2019

8 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 13] Choveu durante toda a noite mas, ao acordar, tenho tudo seco. Faço o exercício matinal de mudar de roupa deitado. Saio da tenda e desmonto-a rapidamente para evitar o mais possível a chuva. Procurarei, durante uma pausa, secar a tenda, caso a meteorologia o permita. No solo ficam os fetos, verdes vivo, com que preparara o leito do sono. Ficava uma presença ausente, vestígio de passagem por ali. Intervenção mínima, sinal. Mensagem sem código óbvio, enigma. Seduzem-me, estas marcas de habitar temporário, passagem, como se outro alguém por ali tivesse passado.
São Mamede, prox., Batalha. 8 de maio de 2019

Quando começo a caminhar hesito na direção. No fim do dia anterior tinha uma linha de candeeiros que referenciavam a estrada, agora, desligados, não os via. Andei um pouco até perceber que estava perdido. Procuro reconstituir esses poucos metros de caminho e voltar ao local de pernoita. Consigo. Mas hesito novamente. A floresta é densa. Detenho-me. Uns dez minutos depois passa um automóvel. Sigo para a linha do seu rasto de som. Em breve estaria de novo na estrada.
São Mamede, prox., Batalha. 8 de maio de 2019

Depois de passar a São Mamede, apanho a estrada na direção do Alqueidão da Serra. Estou novamente em cotas relativamente elevadas. À chuva junta-se agora o nevoeiro. Está vento, ouço o som surdo das eólicas, mas não as consigo vislumbrar. Caminho na berma da estrada. Há um condutor que me buzina visivelmente irritado por o ter obrigado a travar ligeiramente, quando uma outra viatura, em direção contrária, se cruzara naquele mesmo local.
São Mamede, Batalha. 8 de maio de 2019
Alqueidão da Serra, prox., Porto de Mós. 8 de maio de 2019

Ao fim de alguns quilómetros estava em Porto de Mós. Na atualidade, em que cada vez mais se questiona a postura humana perante o ambiente e a destruição da Natureza, poderá haver a tentação de diminuir as cidades, a sua importância na evolução humana ao longo dos dez últimos milénios. Com todos os seus problemas, que crescem com a sua dimensão, as cidades são fabulosas construções humanas, a mais complexa “manufatura” que somos capazes de erguer. São elas que elevam indefinidamente o patamar do pensamento, a linguagem simbólica e a tecnologia. Podem ser predadoras, mas ao mesmo tempo são irrecusáveis e não param de crescer, praticamente todas. A cidade deve ser para todos. É o direito à cidadania e à liberdade. É como uma “cidade infinita”, contida num espaço delimitado, porque infinita é a capacidade de construirmos um imaginário em expansão. Conceito, território universal que se estende por um espaço-tempo ilimitado, que se espraia pelas galáxias do desconhecido. Mas para esta “cidade” existir, global, há que entender o seu espaço, as paisagens a partir das quais se ergue, os mais vastos territórios, mesmo que inabitados, e as dependências de uma biosfera da qual todas as formas de vida dependem. É este o nosso planeta.
Porto de Mós. 8 de maio de 2019

Os movimentos de regresso a uma Natureza intacta não são viáveis, são um sonho de uma realidade que ninguém hoje viveu, é o pretender voltar a um lugar que deixou de existir, que está profundamente transformado, que apenas existe em pensamento. Depois há um motivo para não tentarmos viagens impossíveis. Esse motivo é de uma feição quase poética. Muito do que construímos como civilização é belo, forte, extraordinário. A “terra prometida”, o “paraíso”, está em muitos aspetos das cidades contemporâneas. Quando estamos em campo aberto, quando caminhamos sob uma tempestade, percebemos a importância e parte do significado de uma cidade, como construção orgânica, poderosa máquina, mesmo com todas as suas fragilidades. A arquitetura, a arte, a literatura, são expressão de urbanidade.
Porto de Mós. 8 de maio de 2019

E se pudéssemos regressar que ponto no passado iríamos escolher? A nossa ruralidade faminta do Estado Novo, voltaríamos às trocas diretas, deixaríamos de usar computadores e telemóveis, os aviões ficariam para sempre no solo? E toda a tecnologia médica deixaria de ser usada? Iríamos voltar a assistir ao aumento da mortalidade infantil? O regresso à barbárie? Deixaríamos também o complexo aparelho jurídico que nos permite alguma igualdade? Sim, ainda há muito caminho para percorrer, mas nunca se viveu tão bem como hoje. Haverá regressões momentâneas em determinadas condições, mas não podem ser comparadas aos modos de vida humana em tempos bem recentes.
A câmara fotográfica que transporto comigo é um dispositivo de enorme complexidade. O telemóvel que uso para fazer chamadas, ou fazer pesquisas na Internet, tem uma capacidade de processamento superior àquela que há cinquenta anos levou o homem à Lua. Estes aparelhos resultam de um conjunto de conhecimentos adquiridos por uma reflexão prolongada ao longo de séculos por um incontável número de pessoas. O mesmo acontece com o papel em que tenho os mapas impressos, os riscadores, a tenda, os sacos-cama, a mochila, as botas, mesmo os alimentos que carrego comigo, sejam eles maçãs ou pão. Uma cidade é como a tabela periódica. Se naquela estão todos os elementos de que é feito o universo, nas cidades estão todas as formas de que é composta a nossa realidade, uma parte do futuro e a arte como a invenção desse mesmo futuro.
Que a "fuga" seja apenas para o futuro, pois mais não temos para onde ir. Mas poderíamos deixar a literatura, a arte, a arquitetura, o cinema, tantas, tantas, coisas mais? O que ficaria então, depois do abandono da razão, da linguagem simbólica? Não conseguimos regressar às árvores, perder o bipedismo, o polegar oponível. É muito provável que a espécie humana se venha a extinguir, como a tantas outras poderosas espécies aconteceu no passado, mas regressões não são possíveis. Uma viagem pedestre, com meios relativamente reduzidos, apenas quer vislumbrar a memória que permanece nas nossas células, porque o que aqui se procura é o futuro, é a impossibilidade de parar, mesmo a vertigem da velocidade, ou um ponto em que algo se funde e passa a ser uma matéria diferente. 
Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 8 de maio de 2019

Não é possível. As cidades são um sonho que não podemos abandonar. Termos que as continuar a aperfeiçoar, trazer mais natureza para dentro de si, integrar o conhecimento cada vez mais vasto que temos da realidade. As cidades são o berço da democracia e da participação, são confluência de saberes longamente maturados, são invenção do passado, comunicação, teia de relações entre diferentes. São possibilidade de futuro e de liberdade. São ameaçadoras, muitas vezes destruidoras, mas não deixam de ser também lugares de união, corpo de vanguarda, corpo de resistência ao retrógrado. São o espaço universal que continuamente se expande. Solo e casa comum, são arquitetura sublimada, são futuro, floresta, labirinto, construção e vazio, montanha e oceano, célula e ouro, pássaro e fogo, medo e desenho. Lugar único de fuga imóvel.
Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 8 de maio de 2019

Saio de Porto de Mós e inicio de imediato a subida à serra dos Candeeiros, pelo lado norte. Atingindo as cotas mais elevadas, deixa de haver desníveis relevantes. A paisagem é tranquila e o caminhar também. Ao fim do dia chego ao Cabeço Gordo e deste desço para o Arco da Memória, que evoca os domínios agrários da Abadia de Alcobaça. Irei pernoitar nas proximidades do Moinho da Portela. Estou também, de novo, com torres eólicas por perto. Não chovera durante toda a tarde. Quando monto a tenda tenho tudo seco.
Arco da Memória, Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 8 de maio de 2019

Serra dos Candeeiros, Porto de Mós. 8 de maio de 2019



Dia: 2019/05/08, quarta-feira
Lugar referência: Porto de Mós
Pernoita: Serra dos Candeeiros
Quilómetros percorridos: 32,5
Quilómetros acumulados: 384,6
Concelhos atravessados: Batalha; Porto de Mós; Alcobaça
Cartas militares: 308; 318; 317
Fotografia inicial: dg901467, 06h36
Fotografia final: dg901907, 20h17
Duração trabalho fotográfico: 13h41
Fotografias: 441
Somatório fotografias: 5124
Fotografias selecionadas: 105 (23,81%)

7 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 12] Chove. A previsão a que tivera acesso em Avelar confirma-se. Deveria ter chuva durante os próximos três dias. Retomo o caminhar sobre um estradão de terra. Mais à frente encontro o asfalto. Prossigo sem saber com precisão o local em que me encontrava. A cartografia que tenho comigo não está atualizada e em zonas de floresta, por vezes, os caminhos não coincidem, houve alterações dos talhões plantados. Chego a uma povoação e tenho a sorte de encontrar uma senhora. Pergunto-lhe onde estou. Cumeada é a sua resposta. Estava ligeiramente desviado do itinerário traçado, mas nada de muito significativo. Continuei a caminhar à chuva pelas monótonas paisagens do Pinhal Central, que em muitos casos era agora eucaliptal.

Alto da Cascalheira, Ourém/Pombal. 7 de maio de 2019

Já vinha a ouvir o ronco de motores há largas centenas de metros. De repente encontro a fonte do ruído. Um camião TIR, várias viaturas ligeiras, um ou dois carros de competição, de ralis, creio, de provas tipo “Paris-Dakar”. A propósito do pedido de informações sobre a direção que eu procurava, meto conversa com pessoas que ali se encontravam. Quase ninguém conhece aqueles lugares. A pergunta passa de uns para outros. Finalmente alguém me sabe responder. Ficámos um pouco na conversa. O que se passava ali era divertimento. Um conhecido treinador de futebol, que não cheguei a ver, ia testar um automóvel naqueles estradões, a grande velocidade. A viatura era uma espécie de nave espacial, muito ruidosa. Apressei o passo, afastei-me. Prossegui o meu caminho.
Urqueira, prox., Ourém. 7 de maio de 2019

O dia foi difícil. Para evitar perder-me entre pinheiros e eucaliptos, caminhei quase sempre por estradas. Passei a Urqueira, depois a Aldeia Nova, no concelho de Ourém. Segui, posteriormente, entre algumas hesitações e a chuva persistente, para Santa Catarina da Serra. Continuei para Loureira. O objetivo era seguir para São Mamede, mas mais uma vez opto por fazer uma alteração ao itinerário planeado.
Cova da Iria, Fátima, Ourém. 7 de maio de 2019

Em aproximação a Fátima, onde não estava previsto passar, parece acentuar-se o Portugal da estranheza, das intervenções na paisagem mais díspares, mais contraditórias, como que a falarem-nos de um mundo de perda. Perda das referências tradicionais da construção, da agricultura tradicional que se abandona para a indústria dos eucaliptos, ao mesmo tempo que não há referências comuns de urbanidade, que ajudem à construção de uma imagem coerente, coesa, equilibrada deste chão comum.
Cumeada, prox., Ourém. 7 de maio de 2019

O desistir nunca foi uma opção durante o caminho. Era uma ideia recorrente, diária, mas não, nunca estive perto de abreviar este tempo. À passagem por Fátima, pela rotunda norte, estaria a cerca de 500 metros do terminal rodoviário. Aqui teria transporte para Viseu ou para Lisboa. Em cerca de duas horas estaria em casa. Segui na direção de São Mamede. A passagem por Fátima nem estava prevista no meu itinerário inicial. Mas a cartografia que tinha era antiga, a autoestrada A1 existia ainda. Pelo meu desenho, depois de Santa Catarina da Serra, passaria a Loureira e daqui seguiria por caminhos rurais até São Mamede. Em Loureira perguntei a um senhor de idade se havia caminho pelo eucaliptal até São Mamede. Sim, que havia, mas que o melhor seria conhecer esse caminho, pois não era retilíneo, havia algumas voltas menos óbvias, que me perderia com facilidade. Decido então seguir a estrada em relação à rotunda norte, que distava dali cerca de 3 quilómetros. 
Loureira, Leiria. 7 de maio de 2019

Estes são alguns dos aspetos que falharam na viagem, mas pouca coisa, de facto, falhou que não sejam estas pequenas alterações de itinerário. A cartografia desatualizada não ajudou, tinha feito falta fazer uma análise de todo o itinerário em imagem de satélite. Mas os últimos dias, antes da partida, precipitaram-se e não tive disponibilidade. A forma mais segura de preparar tudo isto seria o reconhecimento, no terreno, de carro, das etapas mais sensíveis. Mas nunca equacionei esta possibilidade, até pelo carácter da viagem, o desenho “pobre”, os poucos meios com que a fiz. Uma aproximação ao "vazio" como conceito. Uma das vantagens do caminhar solitário é esta, o sermos responsáveis apenas por nós próprios, não levarmos ninguém ao sofrimento, a uma dureza excessiva, como que gratuita, ou de sentido duvidoso, para quem tem outras opções. De qualquer modo a dureza e o sofrimento nunca foram uma opção de partida. Aconteceram aqui, sim, por falta de preparação. Mas tudo se passou com naturalidade, sem qualquer questionar de transcendência. Uma viagem como uma vida, com alegrias e contrariedades no correr dos dias.
Barrocaria, Ourém. 7 de maio de 2019

Nas povoações ocasionalmente reparo em casas modestas em que tudo parece normal, estão em bom estado, com algumas marcas do tempo na pintura, eventualmente. As cortinas nas janelas parecem indicar que o espaço é habitado. O crescimento de vegetação à frente da porta de entrada diz-nos que aquele acesso não é pisado há algum tempo. Há um silêncio visual ali. Alguém terá saído e nunca mais voltara. Como se uma vela permanecesse acesa indeterminadamente. 
Urqueira, prox., Ourém. 7 de maio de 2019

Quando estamos muito tempo sozinhos, ou, mesmo não sendo muito tempo, mas um período de intensa solidão, dias longos que nos inscrevem memórias fortes, começamos a sentir algum descolamento de modos de vida com os quais vamos quebrando laços. A aparente solidão afinal é apenas uma vida diferente. Um mundo de referências diferente, de códigos indiciais singulares. É como estarmos ausentes, quando estamos com amigos e a conversa segue fluída. Aqui, no campo, temos algo que não podemos partilhar. Tivemos, ou vivemos, uma experiência de vida limite. Este uso do corpo no extremo da exaustão, as noites brancas, as dores, os poucos contactos com pessoas, a dureza de alguns troços do percurso, a luta estúpida e determinada por atingir um ponto imaginário, tudo me transportava ao recolhimento. Depois viria esse desejo de verter a vivência dos dias caminhantes em palavras. Mas não era o relato de uma viagem, não poderia ser literatura de viagem, apenas por manifesta incapacidade para o fazer, era a experiência da escrita deste território de passagem, como que com o espaço descrever o tempo, numa equação impossível. Os limites da comunicação eram, aliás, uma barreira que queria ultrapassar, mesmo não tendo ferramentas para esse rompimento. Que "tudo" podemos dizer com as palavras? Ou, como poderemos entretecer palavras com mapas, com desenhos, com fotografias, de modo a que cada elemento perca o seu próprio modo de leitura, individual, e todos se fundam numa mensagem, numa experiência contínua, sem quebras, como o foi a própria viagem? Como poderemos transportar alguém connosco, aqui, sem que saibamos, sequer, quem é esse alguém? Movimento de abstração progressiva em que as coisas, quaisquer e todas, deixem de ter nomes, se afastem de toda a representação. É esta a impossível viagem desejada. Anular uma condição de presente, de "aqui", de "agora".
Cumeada, prox., Ourém. 7 de maio de 2019

A noite cai. Procuro um local para dormir. Entro por um eucaliptal à beira da estrada. Está tudo molhado, mas a chuva havia parado no fim do dia. Preparo um leito de fetos apanhados na imediação do local onde decido montar a tenda. É a forma de ter uma "cama" um pouco mais confortável.



Dia: 2019/05/07, terça-feira
Lugar referência: Urqueira
Pernoita: São Mamede, Batalha
Quilómetros percorridos: 40,3
Quilómetros acumulados: 352,1
Concelhos atravessados: Ourém; Pombal; Leiria; Batalha
Cartas militares: 287; 286; 298; 309; 308
Fotografia inicial: dg901035, 06h41
Fotografia final: dg901466, 20h05
Duração trabalho fotográfico: 13h24
Fotografias: 432
Somatório fotografias: 4683
Fotografias selecionadas: 128 (29,63%)

sábado, 15 de junho de 2019

6 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 11] Depois de uma noite mal dormida, levantei-me e iniciei a marcha. Estava no nono dia de caminho. Já tinha passado o ponto médio da viagem, tanto do tempo que dispunha, como da distância a percorrer. Dormir bem ou mal, já me parecia relativamente indiferente. A dureza do caminhar sobrepunha-se a qualquer eventual sonolência. Esta apenas a poderia sentir numa paragem mais demorada, quando aliviasse as dores nos pés. 
Serra de São João, Figueiró dos Vinhos. 6 de maio de 2019

Arrumo a tenda e os sacos-cama, tudo meio molhado, e avanço para o novo dia. Atravesso Ferraria de São João. É cedo. Não encontro ninguém. A aldeia tem a marca de “Aldeias do Xisto”, nota-se uma preocupação em construir as casas de acordo com processos tradicionais, pelo menos na aparência das paredes exteriores. Há ainda casas que destoam do conjunto pela sua arquitetura, pelos seus acabamentos ou volumetria, mas talvez um dia tudo esteja mais uniformizado, como esteve num passado de pobreza. Procura-se qualquer coisa de cenográfico, ou apenas uma imagem de arquitetura que nos liberte de uma modernidade descontrolada que avança informe pelo tempo e pelo espaço. Esta arquitetura tradicional é como um porto seguro para um ambiente visual pacificado, reconciliado com os tempos do equilíbrio, da relação próxima com a terra.
Ferraria de São João, Figueiró dos Vinhos/Penela. 6 de maio de 2019

Prossigo a caminhada. Deixara para trás as eólicas e encontrava-me a descer, por estrada. Estava numa paisagem de transição do xisto para o calcário. Ao fim de cerca de 7 quilómetros deparo-me com uma autoestrada. A linha norte-sul definida pela A13 parece marcar a fronteira entre dois mundos diferentes. Vinha do alto das montanhas e de uma ruralidade integrada na natureza, para uma ruralidade de cariz mais urbano, mais interligada entre si, em paisagens de cotas mais baixas. 
Abrunheira, Figueiró dos Vinhos. 6 de maio de 2019

Chego a Avelar, no concelho de Ansião. Aqui haveria de fazer o primeiro reabastecimento alimentar. Estava no largo da igreja. Ligo o telemóvel, o que só fazia de dois em dois dias, envio algumas mensagens para três ou quatro pessoas que me acompanhavam à distância. Consulto a caixa de correio eletrónico e a previsão meteorológica. Terei chuva nos próximos dias. Estava no nono dia de caminhada e com a mochila consideravelmente mais leve em relação ao dia da partida. Agora, depois de passar por um supermercado, iria voltar a sentir um pouco mais de peso. De qualquer modo, três dias depois previa passar por Porto de Mós. Aí voltaria a reabastecer uma última vez.
Avelar, Ansião. 6 de maio de 2019

Doravante não mais teria declives tão longos e acentuados para vencer. Adensavam-se as marcas de povoamento humano e a estranheza de tantos gestos que se materializavam em inusitadas construções e desarranjos. É a paisagem contemporânea, definida em gestos de liberdade, construída, não raras vezes, sobre uma tremenda falta de cultura arquitetónica, sentido de espaço comunitário, noção de equilíbrio, de qualquer geometria que trace uma linha sensível e delicada.
Serra do Mouro, Ansião. 6 de maio de 2019

A paisagem mais humanizada, de algum modo, torna mais complexa a forma de a registarmos fotograficamente. Há estímulos de natureza muito diversificada. Há detalhes surpreendentes e inusitados. Pensava, ocasionalmente, na linha que já tinha percorrido, como se esta, pelas fotografias, ficasse desenhada na terra, ziguezagueante. O intrincado desta linha tinha uma sedução: percorrer um território vago. Tenho uma especial gratidão por essa construção humana, tecnológica, que é a fotografia. Encontro na fotografia uma forma de expressão dos lugares, e do tempo que os transforma, especialmente conseguida. Talvez seja o melhor modo de falar do espaço, de o representar mesmo não sendo isso possível, será, pelo menos, o modo mais fácil e acessível. Depois, queiramos ou não, o tempo também fica nas imagens. As imagens fotográficas são objetos planos, ambíguos e dúbios. Uma fotografia, seja de que natureza for, fala-nos de várias ordens de tempo. Mesmo que este não esteja retratado na imagem, por ser um qualquer detalhe com um nível de abstração elevado, esse tempo estará na ótica utilizada, na tecnologia, no processo de impressão, no carácter do olhar de quem a produziu. Mas há ainda uma questão que me liga a esta linha desenhada num mapa. Continuamos, no âmbito da reflexão sobre a natureza da imagem fotográfica, a fazer uma separação clara entre a fotografia artística, nobre, e a fotografia documental, o parente pobre. A linha da viagem, desenhada no mapa, tem uma beleza própria, é sugestiva, desafiante, algo enigmática. Este é também o retrato desse imenso espaço que fica entre a fotografia dita artística e a fotografia documental. A linha do mapa é muito redutora em relação à realidade, assim é esta fronteira entre a arte e o documento. Das cumieiras das montanhas vemos o infinito, o território de ninguém. Entre o documento e a arte temos o espaço de uma indizível liberdade. É o território do descomprometimento em relação aos interesses instalados, dos rótulos redutores, dos jogos de poder e exclusão. Mas como a linha, este é um espaço de solidão, da experimentação de uma certa radicalidade, de limite, de estar à beira de um abismo e poder cair. Uma linha é um risco. E o risco é aqui quase como uma compulsão e uma fatalidade que tem que ser habitado. É a viagem, maior, da vida.
Monte da Ovelha, Ansião. 6 de maio de 2019

Depois de atravessar as terras de Avelar dirijo-me à Serra do Mouro, uma pequena localidade no sopé das elevações cársicas de baixa altitude de que me aproximo. Daqui subo para a Serra do Casal Soeiro e, na continuidade, para o Monte da Ovelha. Depois da Portela de São Lourenço, seguir-se-iam a serra do Castelo e a serra dos Ariques, ambas com uma vegetação muito densa. Em Marzugueira já estava na base da serra de Alvaiázere, a mais elevada desta paisagem. Decido contornar esta montanha calcária por poente, pela serra Pequena. Volto a estar em lugares menos povoados e a vista é muito abrangente. Não muito mais tarde estarei a atravessar o rio Nabão. O Sol já baixava no horizonte.
Serra Pequena, Alvaiázere. 6 de maio de 2019

Quando o dia chega ao fim estou no meio de um eucaliptal. Da floresta das eólicas passava agora para a aridez desta paisagem aromatizada. Este parecia ser o retrato de identidade de um Portugal interior contemporâneo que ninguém quer conhecer, mas que todos, aparentemente, sabem da sua existência.



Dia: 2019/05/06, segunda-feira
Lugar referência: Avelar
Pernoita: Granja, prox., Ourém
Quilómetros percorridos: 40,4
Quilómetros acumulados: 311,8
Concelhos atravessados: Figueiró dos Vinhos; Penela; Ansião; Alvaiázere; Ourém
Cartas militares: 264; 263; 275; 287
Fotografia inicial: dg900508, 06h11
Fotografia final: dg901034, 20h35
Duração trabalho fotográfico: 14h24
Fotografias: 527
Somatório fotografias: 4251
Fotografias selecionadas: 115 (21,82%)