segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Estrada

[Maia 06] Um lugar ao longo de uma estrada, urbanidades incompletas em afastamento ao aeroporto, em aproximação ao centro urbano, vias rápidas. Um rio esquecido em torno do qual a vegetação procura a densidade do seu sentido, a ocupação lenta de uma ordem própria e divergente. A reconquista dos lugares esquecidos por quem, num movimento célere, não repara em mundos paralelos, vigorosos. As espécies vegetais procuram a fixação e o alargamento dos seus territórios. Fazem-no quando nos esquecemos delas. Lenta mas com a determinação da mais abstrata força da vida. Criam a diversidade, alimentam, secretamente, a nossa própria viabilidade como espécie biológica. Que a natureza não sejam apenas jardins urbanos mas lugares de espanto e perplexidade para quem os visita.

Maia. 15 de fevereiro de 2020

Maia. 15 de fevereiro de 2020

Maia. 15 de fevereiro de 2020

Maia. 15 de fevereiro de 2020

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Aeroporto

[Maia 05] O aeroporto desenhou um pedaço de cidade. Parques de estacionamento automóvel, vias de acesso, uma antiga aldeia, um campo de feira, uma cintura de campos agrícolas que permanece alheia ao avanço da urbanidade. É uma cidade de fragmentos e de extremos, de viagens, partidas e chegadas, de permanências na terra. Tudo é instável e o tempo tudo altera. Imaginamos o regresso de uma longa viagem, a aproximação à pista, o sobrevoo do solo próximo do aeroporto. Há uma cidade em expansão, mas permanecem, retalhados, os campos verdes. Talvez seja esta a maior evidência observada em imagens de satélite, a relação de uma Natureza em perda com a cidade que vai ocupando todos os lugares.

Pedras Rubras, Maia. 15 de fevereiro de 2020

Pedras Rubras, Maia. 15 de fevereiro de 2020

Pedras Rubras, Maia. 15 de fevereiro de 2020

Pedras Rubras, Maia. 15 de fevereiro de 2020

 

sábado, 3 de outubro de 2020

Avioso

[Maia 04] Há um núcleo primitivo, próximo da igreja de São Pedro, onde se sente a dimensão lenta da ruralidade. Quando nos afastamos um pouco, observamos unidades de habitação, com um limite de dois três pisos, a ocuparem terrenos onde não é clara uma ordem urbana. Os campos agrícolas, em parcelas de variadas dimensões, continuam em uso pela comunidade local. São poucos os terrenos que não têm nenhuma ocupação. Numa observação de imagens de satélite, é percetível, não longe da igreja, a existência de algumas pedreiras de pequena dimensão. Entrar numa destas crateras como mergulhar no interior da terra por breves momento. A vegetação cresce entregue ao seu próprio ritmo. Há vestígios de presença humana. O que mais se destaca é, no entanto, a dimensão de silêncio do lugar.

Avioso, Maia. 3 de fevereiro de 2020

Avioso, Maia. 3 de fevereiro de 2020

Avioso, Maia. 3 de fevereiro de 2020

Avioso, Maia. 3 de fevereiro de 2020

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Origem

[Maia 03] Um pequena elevação topográfica estará na origem da sacralização do lugar, pela construção da capela de Santo Ovídeo, em torno do qual se viria a desenvolver um pequeno núcleo urbano que, no entanto, nunca assumiu uma dimensão relevante. Castêlo da Maia é o mais primitivo lugar do concelho. A decisão da deslocalização para sul, de uma nova centralidade para o município, viria a acontecer em tempos muito mais recentes. Há uma noção de tempo e espaço que aqui é particularmente evidente. Em torno da capela vemos quase toda a gramática de tipos de ocupação do espaço que se vão replicar pelo território do concelho.

 

Castêlo da Maia. 3 de fevereiro de 2020

Castêlo da Maia. 3 de fevereiro de 2020

Castêlo da Maia. 3 de fevereiro de 2020

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Regresso

[Maia 02] À procura da densidade da passagem do tempo, percorro algumas imagens de arquivo que eu próprio fizera, em 1996, na Maia. Estava então em construção a Torre do Lidador. Mais tarde, em 2003, regresso aos mesmos lugares e vou ainda a outras freguesias do concelho. Desisto de fazer alguma comparação. Numa primeira abordagem ao mapeamento fotográfico do território, desloco-me livremente a partir do centro da cidade. Quase todos os edifícios são relativamente recentes, de duas, três décadas, outros há que estão em construção. Mas a cidade apresenta-se compacta, de algum modo consolidada. Mas há descontinuidades. Estas ocupações ou vazios que se inscrevem numa lógica urbana, ou rural, diferente, não deixam de nos chamar a atenção. São janelas de estranheza que se abrem na cidade. É claramente percetível a inversão de uma ideia de intrusão. Os edifícios altos, de vários pisos, sobretudo de habitação, dominam a malha urbana. O que resta de tempos antigos constitui-se, hoje, como descontinuidade.

Maia. 3 de fevereiro de 2020

Maia. 3 de fevereiro de 2020

Maia. 3 de fevereiro de 2020

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Trinta e Cinco Anos de Ordenamento Territorial da Maia

[Maia 01] Entre os dias 2 e 16 de fevereiro do corrente ano, fiz um conjunto de fotografias no concelho da Maia. O objetivo foi a recolha de imagens para a caracterização do território a partir de uma ideia de planeamento urbano que está a ser desenvolvida no município desde 1984. Essas fotografias viriam a integrar uma exposição e um livro apresentado no passado dia 23, na Biblioteca Municipal da Maia. A coordenação do trabalho foi de José Carlos Portugal, que, por curiosidade, foi meu professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto no ano 1987/88, a equipa editorial foi composta pela Ana Resende, que assina o design gráfico do livro e por Daniel Duarte Pereira, que assegurou, nas várias frentes, o desfecho muito bem conseguido desta iniciativa.

 

Biblioteca Municipal da Maia. 23 de setembro de 2020

Biblioteca Municipal da Maia. 23 de setembro de 2020

Biblioteca Municipal da Maia. 23 de setembro de 2020

Biblioteca Municipal da Maia. 23 de setembro de 2020

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Centro Português de Serigrafia

No passado dia 25 de setembro foi aberta a exposição O Tempo das Imagens III - 35 anos do Centro Português de Serigrafia, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. Há uns meses tinha sido desafiado a fotografar o espaço de impressão do Centro Português de Serigrafia. A essa seleção de imagens “oficinais”, recentes, juntei um outro conjunto de fotografias do meu arquivo pessoal. São imagens das gravuras rupestres do vale do Côa. Para estabelecer a ponte entre os dois núcleos de fotografias escrevi um pequeno texto:


Memória e futuro


As gravuras rupestres de Foz Côa são singulares representações de vida e de tempo. Nelas estará a essência da imagem como forma primeva do que atualmente chamamos Arte. O desejo de aquisição do representado, o sublime da linguagem que se desprende da consciência quando nos apercebemos da finitude da vida. 


No espaço oficinal do Centro Português de Serigrafia encontramos, dezenas de milhar de anos depois de Foz Côa, a mesma procura da imagem, em processos que, de algum modo, são já arcaicos. Hoje tudo parece poder ser feito num computador. Mas aqui permanecem os rastos e os restos da tinta, a matéria, os objetos de um labor que nos falam da demora, do tempo da construção das imagens. É a expressão do significado, simultaneamente aberto e difuso, do interminável desenho da memória e do futuro.

 

Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. 25 de setembro de 2020

Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. 25 de setembro de 2020

Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. 25 de setembro de 2020

Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. 25 de setembro de 2020