quarta-feira, 18 de março de 2015

Notas para biografia (fotografica) breve

[arquivar 15] Fazendo uma biografia breve de um processo de arquivo de fotografia ao longo de cerca de 30 anos de trabalho, posso definir algumas fases desse trabalho específico, em fotografia, até ao presente. Seguir-se-ão algumas notas a partir da interpretação do arquivo ao longo do tempo.
Período 1. As fotografias soltas e o fascínio pelo visível. A procura do belo, numa certa proximidade da fotografia-objeto, próxima da pintura como entendimento da sua expressão e inserção num discurso da história da arte. Não estava ainda, numa fase muito embrionária, definida a ideia de projeto. As fotografias eram procuradas numa espécie de abstração do real. Formas e geometrias colhidas do visível. Uma primeira exposição individual, em Lisboa, na Galeria Pedro e o Lobo, haveria de alterar definitivamente esta abordagem.

A segunda viagem

[Jesus Cristo 08] A segunda "viagem", já anteriormente referida, foi de natureza aparentemente muito diferente, pois era feita dentro desse primeiro movimento de contacto com a terra. Estava a fazer uma seleção alargada de fotografias num arquivo fotográfico vasto a que paulatinamente regressava, mais de dez anos depois de iniciada a extensa recolha fotográfica, de mais de 600.000 imagens, que viria a dar origem à obra Portugal Património. Comum a estas duas viagens foi a intuição lateral de que algo estava próximo. Em ambos os momentos eu não fazia a ideia da possibilidade de coerência forte deste conjunto de imagens.
Covas de Barroso. Boticas, Vila Real. 31.05.2003

Senhora da Guia, Santa Leocádia de Geraz do Lima. Viana do Castelo. 23.08.2001

Cótimos. Trancoso, Guarda. 15.04.2004




terça-feira, 17 de março de 2015

Conduzir ao vazio

[arquivar 14] Depois, para acentuar essa vertigem, há as fotografias de fotografias, o fotografar o próprio arquivo, como se ele passasse a ser um objeto do fotografar como outro qualquer, como um pedaço de paisagem, um edifício, um penedo polido, uma raiz. Mas não é. Há um acentuar da procura do belo dentro de uma progressiva abstração, mas há, sobretudo, o fotografar um território irrepetível, algo a que mais ninguém tem acesso. Entramos numa espécie de gruta do Ali Babá, cujo único tesouro é a abertura de portas para mundos, eventualmente, novos, para o sentimento de caminhar num território imensamente sedutor, mas progressivamente vazio. Há, também, a experiência de uma liberdade enorme, conferida pelos nossos passos sobre a terra. Havia, talvez, a noção de que tanto fotografar, tantas fotografias, poderia conduzir a um enorme vazio.


Revelado

[Jesus Cristo 07] A fotografia, aqui, claramente revela mais do que o nosso olhar nos mostra no lugar. Foi como se tratasse da observação do espaço sideral com um poderoso telescópio, uma mirada distante, mostra-nos a finura do detalhe de mundos de vida apenas sonhada, em lugares longínquos, profundamente diferentes.
Santuário de São Salvador do Mundo, Alto das Macieiras. São Salvador de Viveiro, Boticas. 31.05.2003

São Roque, Rosmaninhal. Idanha-a-Nova, Castelo Branco. 12.03.2003

Gateira, Afife. Viana do Castelo. 19.06.2002




segunda-feira, 16 de março de 2015

Duplo sentido de ilimitado

[arquivar 13] Numa ideia de espaço, e da tentativa de o capturar pela imagem fotográfica, há um duplo sentido do ilimitado: extensão centrífuga e extensão centrípeta. O campo aberto, as paisagens, são ilimitadas. O espaço é limitado, mensurável, mas a dimensão temporal torna-o infinito. Se nos concentrarmos num 'pedaço' de espaço de reduzidas dimensões, constatamos que há matéria, superfícies, que parecem tornarem-se cada vez mais ínfimas, num processo de redução sem limite.

domingo, 15 de março de 2015

Encontros ocasionais

[Jesus Cristo 06] Nestes encontros ocasionais, tidos nos locais da feitura das fotografias, havia ainda outro facto relevante. Era difícil, à distância que fazia a tomada de vista, ter a noção da riqueza do detalhe destas esculturas em pedra, que são de pequena dimensão e estão elevadas alguns metros do solo. Há uma expressão facial e corporal que não é imediatamente acessível, por estar longe. Mesmo a visão aproximada, proporcionada por uma teleobjetiva, perde detalhe por perder luminosidade. Por isso só após uma observação mais cuidada das fotografias, me foi possível tomar consciência do significado destas peças.
 
Aldreu. Barcelos, Braga. 10.09.2003

Guia, Sapardos. Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo. 26.06.2002

Dem. Caminha, Viana do Castelo. 20.06.2002





Intuição renovadora

[arquivar 12] Nas ciências humanas, na arte, há, por vezes, a sensação de que nós vamos aproximando de algo. Há uma intuição nos nossos passos, algo que não conseguimos objetivar. Quando nos desprendemos do conceito de imagem fotográfica como se fosse uma pintura, abrem-se portas a mundos novos, humanos, renovadores. Tantas vezes falhamos, mas mesmo nessas alturas fica o rasto de um caminho do qual não vamos desistir. Vamos regressar um dia aos vestígios de passos passados deixados num arquivo imenso de imagens. Nesse espaço sem códigos poderá estar escrita uma linguagem que no passado não tivéramos possibilidade de interpretar por lhe faltar a espessura do tempo.