sábado, 10 de março de 2018

Escuro

[agora 11] Quando a luz se apaga e o escuro entra. Ciclos de luz e sombra definem uma condição permanente do habitar um planeta. Todas as espécies vivas, todos os lugares. Há uma simplicidade desconcertante no caminhar. Movimento de ausência e reconciliação com as tensões inomináveis da condição sobrevivente.
Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

Imagem passagem

[agora 10] O que é a fotografia? Como se representa o movimento, a vida, numa imagem parada? Dispomos fotografias em paredes, exposições. A evolução do processo fotográfico tem-nos mostrado uma cada vez maior acessibilidade à imagem. Fixação de tempo e espaço. Podemos, com imagens, construir gramáticas próprias do nosso universo contido, mas plural, contaminado por vivências fragmentadas. O movimento é também a passagem do tempo longo, que não está visível numa única imagem, mas num corpus extenso que nos revela o espaço-tempo do nosso habitar, da nossa passagem.
Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 8 de março de 2018

Expressão

[agora 08] Não irá ser a ciência a substituir a religião. Poderá ser o pensamento associado à liberdade. A arte é expressão desse pensamento em variadas e múltiplas formas. Mas a arte não pode ficar refém de quem a nomeia, de quem a deseja dominar. Arte, poesia, são matéria esquiva, são a expressão da leitura e interpretação do real, dessa extraordinária ferramenta evolutiva que, ao mesmo tempo que nos oprime, nos mostra um mundo em aberto a que nenhuma condicionante se poderá opor, nenhuma narrativa, nenhum discurso, nenhuma promessa. Não temos mais do que o tempo de uma vida para a construção do nosso próprio sentido.
Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de março de 2018

Lugar de procura

[agora 09] Há uma matriz nesta procura, neste espaço que se serve da fotografia como motor de existência. A cidade infinita é um lugar aberto de procura de conhecimento e demanda de formas concretas para o entendimento da vida humana, da razão, da criação de sentido, interpretações do finito vago e ilimitado. Coerência como jogo de aleatoriedade. Palavras.

Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de março de 2018

Descodificar

[agora 07] Trabalhamos incansavelmente na descodificação da morte. Se a juventude, na sua demora, nos parece mostrar a imortalidade, o avanço no tempo da nossa existência, vai-nos revelando um fim do qual estamos em aproximação. Ao contrário do que prometem religiões, não haverá eternidade. O paraíso será também uma inexistência. A conquista do vazio, daquela que parece ser a ausência de sentido da própria vida, para além da sua materialidade e do seu carácter biológico, poderá ser uma fascinante base para a “escrita” de uma narrativa, necessariamente evolutiva.
Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 5 de março de 2018

Dois gumes

[agora 06] O pensamento simbólico e a linguagem são uma arma de dois gumes. São uma poderosa ferramenta na procura de alimento, na arte da guerra ou na construção de uma casa; mas são também a consciência aguda do infinito e da morte. As primeiras religiões terão surgido da necessidade prolongar a vida para além da morte e de explicar o mundo, de ligar causas e efeitos, de povoar o pensamento de seres imaginários na repulsão de um vazio intolerável. Nomear a eternidade.

Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018

domingo, 4 de março de 2018

Sem chão

[agora 05] A ideia de Deus terá sido extremamente importante na criação de um “chão sólido” para a resolução de um “problema” evolutivo de uma espécie específica do planeta Terra. O intolerável vazio, a finitude e a morte. Ao longo de um hiato temporal de poucos milhões de anos, hominídeos adquirem um conjunto de ferramentas que os levarão a povoar um planeta praticamente em toda a sua extensão de terra. Foi um processo impressionantemente célere nunca antes observado no passado, como o atesta o registo fóssil. A consciência está longe de ser uma qualidade única da espécie Homo Sapiens, mas o pensamento simbólico e a linguagem são uma singularidade nossa.
 
Serra da Estrela, 19 de fevereiro de 2018