quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estuário do Sado

[três viagens 29] Nas margens do estuário do Sado procurei das marcas da industrialização em diálogo com um extenso lençol de águas tranquilas, a evocar também o Mar da Palha e a singularidade tão rara destes dois estuários, de duas serras, da Arrábida e de Sintra, tão diferentes entre si. Dois microcosmos tão próximos, de representação do Mediterrâneo e do Atlântico, tão próximos e tão distantes. Paisagens que nos erguem, que descodificamos, que atribuímos sentido com as fotografias, com artefactos de comunicação que construímos. Terminava assim esta viagem ao Sul.

Estuário do Sado, Setúbal, 2022

 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Ribeira de Pena

[três viagens 36] Ribeira de Pena foi a paragem seguinte. Queria captar o vale do Tâmega e a barragem próxima, de construção recente. É o mais complexo sistema de produção elétrica que existe no nosso país, que articula a produção hídrica, diurna com a eólica, noturna, para bombar de novo a água para uma cota elevada, quando o consumo é significativamente mais reduzido, o que daria origem a desperdício da energia captada pelas eólicas, no alto das serras envolventes. Até ao cair da noite fotografei a vila. Os dias são curtos, tento rentabilizar ao máximo a luz disponível.

Ribeira de Pena, 2022

 

Operação Militar Especial

[três viagens 28] A vila de Monchique, pouco a norte das termas, foi a paragem seguinte. Estes dois povoados não faziam parte dos lugares que tinha que fotografar. Foram paragens apenas para atualização do meu acervo de registo de lugares. Ao cair da noite, ainda com a luz do final da tarde, avancei para norte, em direção ao Alentejo, por uma estrada que serpenteia pela serra. Pouco depois fazia um desvio à estrada asfaltada e procurava um local para montar a tenda. Na manhã seguinte tenho uma mensagem no meu telemóvel. A Rússia tinha invadido a Ucrânia. Depois de mais de duas décadas de paz, havia de novo uma guerra na Europa. A Rússia, com as palavras de “Operação Militar Especial”, iniciou uma guerra de futuro imprevisível, relegando para segundo plano essa outra batalha iniciada em 1972, na Conferência de Estocolmo, contra as alterações climáticas, que já nessa altura se enunciavam. 

Segui para a barragem de Santa Clara, um extenso lençol de água que rega as numerosas estufas do litoral, da zona de São Teotónio, Odemira. Depois de uma breve paragem em Garvão, prossegui para Messejana, onde uma vez pernoitei na casa de um casal de amigos arquitetos, numa viagem a Serpa, enquadrada num concurso para um edifício público. O pelourinho comprova um antigo poder municipal. Do antigo castelo praticamente não restam vestígios, mas o povoado mantém a brancura da cal nas paredes das casas. As ruínas do convento de São Francisco, são também vestígio de um passado onde a religião assumia uma dimensão de estruturação espacial e social do lugar.

Monchique, 2022

Albufeira da Barragem de Santa Clara, Odemira, 2022

Messejana, Aljustrel, 2022

Convento de São Francisco, Messejana, Aljustrel, 2022


 

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Caldas de Monchique

[três viagens 27] Nas Caldas de Monchique localiza-se uma praça de singular beleza, de equilíbrio arquitetónico muito bem conseguido, entre o terreiro, os edifícios que o conformam e as árvores que o povoam. Cada vez que volto a este lugar não deixo de pensar quando é que alguém se vai lembrar de fazer obras de melhoramento e destruir o carácter daquele lugar termal.
Caldas de Monchique, Monchique, 2022

 

domingo, 18 de setembro de 2022

Geografia, cartografia, fotografia

[três viagens 26] E cada projeto puxa novos projetos, neste caso concreto, ia desenvolvendo a ideia de aprofundar este atlas do espaço português, de apertar a malha e representar muitos mais lugares. Juntar geografia, cartografia, fotografia, algumas palavras.

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Praia de Monte Clérigo

[três viagens 25] Perto da praia de Monte Clérigo estava, mais uma vez, numa franja de território, numa quadrícula, onde nunca tinha estado. As franjas do mapa onde tinha que ir para completar este mapeamento fotográfico. O litoral vicentino, com as suas escarpas em xisto, é uma paisagem que impressiona. Estes lugares, onde a terra acaba e o mar começa, ou vice-versa, têm sempre um enorme dinamismo para quem deles se aproxima para fotografar. São sempre diferentes em função do estado do mar, das marés, da hora do dia, da estação do ano, que trazem consigo uma luminosidade sempre diferente. Há, invariavelmente, a dimensão sonora provocada pela rebentação das ondas que ajuda a que nos ausentemos na abstração da tentativa de captar a natureza esquiva destas fronteiras.

Praia de Monte Clérigo, Aljezur, 2022

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Praia da Rocha

[três viagens 24] A Praia da Rocha foi, ainda na década de 1960, um dos principais cartazes turísticos de uma corrida às praias que nessa altura se iniciava. O movimento, que ainda hoje permanece, traria consequências profundas na urbanidade de todo o litoral português, com algumas raras exceções, como seja a Costa Vicentina, onde a pressão não deixa de ser forte. Atualmente, a Praia da Rocha é um lugar de servidão turística onde o primitivo carácter paradisíaco das arribas areníticas, em amarelo e ocre, praticamente não se vê face à imponência dos blocos habitacionais que parecem querer avançar sobre o mar. Este não deixa de ser um lugar de estranheza abstrata e fascinante, perturbadora. Fiquei com o desejo de regressar a Portimão, que representa a continuidade desta cidade desconexa. Cada viagem é a vontade de regresso. É a tentativa de registo de um tempo célere que tudo apagará na sua passagem. 

Praia da Rocha, Portimão, 2022