sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão (V)


Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
Fim da tarde
Pendilhe (prox.). Vila Nova de Paiva. Viseu. 20 de Maio de 2004

Talvez como antologiar poemas de um poeta maior, a selecção de lugares de um território vasto é uma tarefa fascinante mas inquietante, não tanto pelo que contém, mas pelo que tem de se excluir. Há uma escolha básica que reúne os principais monumentos, espaços urbanos das maiores urbes e os parques e reservas naturais. Mas a realidade é muitas vezes feita do detalhe que pode passar despercebido a um olhar menos atento. Juntar numa mesma abordagem diferentes tipologias de património, sem que aparentemente tenham algo em comum, pode revelar quadros insuspeitos que estimulam o conhecimento e o desenvolvimento de linhas de intervenção de natureza diversa, que antes não seriam imaginadas. O detalhe de uma paisagem ou a rua de uma cidade, podem revelar a singularidade de um gesto inovador, algo de profundo da vida humana, dos sonhos e ambições de alguém. No olhar e nas construções humanas está plasmada uma luta intemporal de procura de um mundo melhor, que reproduz aspectos da própria lógica da vida e dos princípios evolutivos das espécies biológicas. Horizonte Portugal quer trabalhar na ideia de pôr todo um país em relação e que o conhecimento do espaço e dos lugares extrapole a dimensão local e regional e se estenda a todo o território português, para o estímulo de um desenvolvimento social e cultural dos cidadãos e comunidades.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão (IV)


Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
Manhã
Calvão. Chaves. Vila Real. 30 de Julho de 2001

Seria fastidioso aqui enumerar as tarefas que levam à elaboração de um projecto desta natureza e ao posterior desenvolvimento do trabalho. Finda a primeira fase de Horizonte Portugal, trabalho na segunda de três fases, em que a última será uma tentativa de colocar na página 'todos' os lugares de Portugal, organizados numa base de dados. Todos os espaços de que alguém se lembre de pesquisar uma fotografia que os represente. A segunda fase, em que actualmente laboro, que me toma estes dias quentes de Verão, é talvez o maior desafio desta iniciativa: uma selecção de lugares, que neste momento se encontra aberta, mas que deverá contribuir para uma visão renovada do que é a complexidade das formas de povoamento em Portugal e o modo como se articulam com as paisagens que lhes deram origem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão


Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
meio-dia
Serra da Estrela, Janeiro 1991
Horizonte Portugal é uma reflexão continuada e sistemática sobre Portugal, que se iniciou em 1985 com viagens que, na altura, ainda não tinha um propósito definido, mas que mais tarde iriam dar origem aos primeiros trabalhos publicados como Portugal - O Sabor da Terra, a que se seguiram outros livros e exposições de caráter regional ou local. A obra mais exaustiva, que levou cerca de cinco anos de trabalho de campo, foi aquela que deu origem a Portugal Património, cujo trabalho fotográfico desenvolvido constitui a espinha dorsal do projecto agora iniciado.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Horizonte Portugal - Diário imaginário em dias de Verão

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
madrugada

Gosto de iniciar o dia de trabalho antes das oito da manhã. Por vezes é na curta viagem de bicicleta, entre a casa e o estúdio, que defino o que vou fazer nas horas seguintes, outras vezes, na noite anterior, esboço uma lista de tarefas. Não tenho uma agenda. O trabalho que ocupa a maior parte do meu tempo é, agora, Horizonte Portugal, uma página na Internet onde pretendo colocar um conjunto significativo do meu arquivo fotográfico sobre Portugal, que neste momento ascenderá a mais de oitocentas mil fotografias. A primeira fase do projecto foi terminada recentemente e já pode ser visitada em www.horizonteportugal.org. Apresenta um conjunto de intenções e de objectivos para um futuro breve. É um trabalho que deverá ser desenvolvido em três momentos, mas nunca terá um fim, pois pretende-se que seja permanentemente atualizado com novas fotografias, com novas formas de navegação, não apenas pelo próprio sítio, mas principalmente pelo território português, por uma paisagem que está em constante transformação. Aqui reside o maior desafio deste projecto: reinventar uma geografia de Portugal em moldes completamente novos, baseados na imagem fotográfica, em cartografia e, eventualmente, em pequenos textos.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

esfera

A forma de uma esfera. Todas as pedras pareciam estar próximas dessa forma. Depois de um olhar mais atento via que a presença de um mínimo que fosse de simetria já era algo de raro. Estava na praia do Castelejo, no sul da costa Vicentina. Uma praia que habitualmente está coberta de areia no horizonte de rebentação das ondas. Naquele ano não havia areia, mas apenas os calhaus rolados que aquela habitualmente esconde. Não me era possível fazer uma quantificação, mas deparava-me com milhares de pedras, de calhaus arredondados pela força do mar, de diferentes dimensões. Decidi procurar uma pedra cuja forma se aproximasse a uma esfera. Não recordo o tempo de demora da tarefa. Não terá sido pouco. Esta procura começava a ter qualquer coisa de obsessivo, era aí que começava um curioso jogo de aproximação e fuga, de autodomínio, de controlo de todas as procuras, síntese de um caminhar humano. Encontrei um pedra-ovo de uma simetria quase perfeita, uma pedra de matéria uniforme, quase preta, quase sem veios. Aproximava-se um pouco da forma esférica com que começara a minha procura. Trouxe a pedra comigo e juntei-a a outras, poucas, que me transportam a lugares distantes. 
Um dia o meu filho mais novo, de três anos, tendo atingido uma estatura que lhe permitia ver as pedras, arrastou uma cadeira para chegar ao local onde se encontravam. Pegou na pedra-ovo, na não-esfera, e tornou-a sua.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

chuva

Por vezes gostava de ter maior capacidade para trabalhar em condições muito adversas. A própria tecnologia fotográfica não se adequa, de uma forma linear, à água ou a níveis elevados de humidade, de uma forma geral. Há que avançar por metodologias singulares. Uma meteorologia severa revela diferentes condições dos lugares, relacionados com o habitar humano. A chuva é como uma realidade arcaica, analógica, uma condição da fuga para espaços abrigados. Talvez um dos motivos que nos levaram, como espécie, a erguer as cidades. A chuva leva-nos a um desconforto ontológico e é este universo que gostaria de registar.