quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vulcãozinho

[Fogo 12] Observo as rochas formadas na última erupção ocurrida na ilha em 1995, no Vulcãzinho. Neste mundo de pedra negra, cinza, castanha, vermelha, o solo é feito de lavas solidificadas de diferentes tempos de um vulcanismo que nunca deixou de estar ativo desde que a ilha foi visitada pela primeira vez, no século XV. Encontramos uma das páginas vivas mais fascinantes da formação e da história do nosso planeta. Tudo ali parece 'cheirar a fresco', terra nova, enxofrada. Não há fumarolas, nem quaisquer sinais de perigo que não seja a possibilidade de desabamentos de penedos das partes mais altas da cratera.






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Impossível parar

[Guadiana 86-14_24] Concluída a montagem, avançar, de novo, para o rio. Chegava ao Pomarão a meio da tarde do dia 8 de maio de 2014, para aí iniciar uma caminhada até à Mina de São Domingos. O Pomarão era o antigo porto fluvial para o ecoamento do minério explorado na mina que havia sido a maior da penísula ibérica. Uma ligação ferroviária unia os dois pontos. Hoje permanece no solo, vestigial, essa obra humana. A linearidade deste itinerário evoca o grande rio, mas aqui tudo é diferente. No início do percurso há um conjunto de túneis. Mergulhamos na escuridão profunda, no frio de um dia quente. Pelas margens do rio, pelo trilho ferroviário, por todas as paisagens, uma viagem ininterrupta. É impossível parar. (Ficam aqui concluídas as publicações relativas ao projeto Guadiana 86-14)






Monte Orlando

[Fogo 11] Reencontro Orlando Ribeiro pelo topónimo de um vulcão estudado pelo geógrafo português em 1951 e a que a população local, na altura, apelidou de Monte Orlando. Seria, creio, o primeiro vulcão a ser estudado por esse geógrafo que, como ninguém, descodificava alguns mistérios da terra. Mais tarde, em 1957, Orlando Ribeiro estudaria também o vulcão do Capelinhos, fazia a primeira descrição científica de uma erupção vulcânica submarina que, pouco depois aflorava à superfície marítima e, mais tarde, se ligaria a terra. Ficava ali exposta a forma como se formavam as ilhas açoreanas.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ruas da Luz

[Guadiana 86-14_23] No dia 7 de maio é iniciada a montagem da exposição. Ao fim do dia há o caminhar pelas ruas da aldeia, que continua na madrugada seguinte. Não podemos de deixar de refletir sobre o desenho, o projeto, desta nova aldeia e a sua relação com a primitiva aldeia da Luz cujo local de implantação se encontra, agora, submerso. Em termos estritamente arquitetónicos e urbanísticos a aldeia original era incaracterística, nem tão pouco apresentava a singularidade espontânea de alguns, muitos, povoados alentejanos. Raramente em Portugal se construíram povoações de raiz. Vila Nova de Santo André, é um dos poucos exemplos. O novo traçado da aldeia da Luz apresenta elementos espaciais muito interessantes. A maior perda em relação ao antigo povoado foi, seguramente, o conjunto definido pela igreja, cemitério e praça de touros. A igreja foi reconstruida e perto dela, projetado o Museu da Luz, para perpetuar a memória de um lugar original.









domingo, 14 de dezembro de 2014

Guia

[Fogo 10] É muito recomendável fazermos-nos acompanhar por um guia quando subimos ao Pico do Fogo, e mesmo a outros locais da ilha que revelam detalhes de vulcanologia fascinantes. No Fogo, ao caminhar pelas ruas, somos várias vezes abordados por pessoas que se oferecem para nos acompanhar ao topo da grande montanha. Por uma questão metodológica do meu trabalho, tento sempre dispensar essa companhia. É difícil dispensar a liberdade de movimentos, a possibilidade de, a qualquer momento, decidir seguir outro percurso, não planeado. Há riscos, sim, mas temos que edificar os nossos passos sobre a experiência das caminhadas demoradas, sobre a leitura da terra, sobre uma intuição que, por vezes, parece adquirir os contornos de uma voz mágica que nos chama. Há uma curiosidade sem limite que nos vai revelando um mundo inapelavelmente belo.




sábado, 13 de dezembro de 2014

Desenho, objeto

[Guadiana 86-14_22] Os suportes expositivos foram feitos desenhados e executados especificamente para esta exposição. Pode não parecer haver uma relação direta entre os trabalhos da mão, as caminhadas pela margem do rio, a recolha fotográfica de campo, finalmente a pesquisa de fotografias do Guadiana num arquivo vasto, a sua seleção e edição. Mas há momentos em que todos esses aspetos se relacionam, como que confluem num único caudal que recebe, ao longo do tempo e de uma geografia vasta, vários tributários. É o grande rio da vida, com toda a sua imponderabilidade. Nem todos os passos da preparação da exposição estão aqui documentados por estas fotografias. Aqui está o essencial da construção dos suportes, a face visível do que se vai mostrar. Há momentos do processo que nem sequer são fotografáveis, como as linhas de pensamento que se tecem no princípio da conceção da própria exposição. Quais as fotografias as selecionar, como as ordenar, em que dimensões as imprimir, que tipo de suporte e sua expressão? Que conceito está por trás daquilo que se pretende dar a conhecer? Depois há a matemática, as numerosas contas que têm que ser feitas a partir do levantamento da sala de exposição. Mas há também o plano de corte dos materiais e, depois, o corte desses mesmos materiais, papel e diversos tipos de cartão, quer para a estrutura das caixas, quer para o acabamento. O processo exige racionalidade e a planificação de todas as fases de execução. Numa operação aparentemente simples acabamos por encontrar o processo de aprendizagem de várias décadas, tantas, talvez, como o próprio tempo retratado nesta exposição em que o caminhar e o labor da mão são parte indissociável de uma mesma cosmogonia. Estas fotografias são as entranhas de um processo, são a face não visível e, algum modo, uma relação quase que de intimidade com os materiais, com a construção de uma estrutura, como se fosse uma casa para ser por nós habitada. Há aqui demora, razão, ordem, gesto, desperdício, erro, imperfeição, texturas diferentes. Há a vivência do tempo disponível, contabilizado, cronometrado, quase. Há espaço organizado com laivos de aparente caos, num limite entre precariedade e a depuração do desenho de um objeto que se deseja.








sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O vulcão maior

[Fogo 09] Este ponto cimeiro, o Pico do Fogo, resulta de um vulcão que hoje nos parece de grandes dimensões, mas que não passa de um cone resultante de uma erupção secundária ocorrida no bordo da grande caldeira de abatimento do vulcão que deu origem à Ilha do Fogo. Toda a ilha não passa de um gigantesco cone vulcânico que, no momento culminante da sua atividade principal, deverá ter ultrapassado os 4000 metros de altitude. Finda essa fase eruptiva, com o arrefecimento progressivo do seu eixo, dá-se o abatimento do cone, configurando a enorme caldeira, que, ao longo dos séculos, milénios talvez, se foi tornando progressivamente plana, muito devido às pequenas erupções que foram surgindo ao longo do tempo nesse espaço.