[Linha do Tua 88] Não demora muito até encontrarmos outro túnel, do Remisquedo. Retilíneo e relativamente extenso, segue os princípios de construção utilizados nos demais túneis da Linha do Tua. Este, no entanto, tem as paredes e a abóbada construídas em toda a sua extensão, ao contrário do que observámos até agora nas penetrações em grandes maciços rochosos, sobretudo na primeira etapa desta viagem. À saída do túnel voltamos a mergulhar no cenário de vegetação densa. Depois de uma curva à esquerda, logo após a saída do túnel, e de uma contracurva, atravessamos a Estrada Nacional n.º 15, de que nos afastáramos na estação de Santa Comba de Rossas. Neste local deve ter existido uma passagem de nível, mas atualmente já não existem vestígios da via-férrea. Atravessada a estrada, chegamos ao apeadeiro de Remisquedo. A vegetação é agora rasteira e precipita-se sobre o espaço do apeadeiro: um pequeno edifício muito interessante do ponto de vista da arquitetura, particularmente pelo alpendre em madeira, que apresenta uma feição contemporânea à construção da via. O conjunto, muito isolado, está abandonado. Este isolamento é acentuado pelo vale que se segue, cavado por uma ribeira com origem na serra da Nogueira da qual já estamos muito próximos. O vértice geodésico mais elevado desta montanha dista cerca de três quilómetros deste local, para poente, numa linha com um declive muito íngreme.
Fotografar um território vasto. Procurar em Portugal as raízes de uma identidade coletiva que se perde num tempo longo. Construir um arquivo fotográfico. Reinventar uma paisagem humana, uma ideia de arquitetura, uma cidade nova.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Sortes
[Linha do Tua 87] Na aproximação a Sortes passamos perto da aldeia do Viduedo, e só depois chegamos à estação com esse nome, que, por uma questão de topografia, está um pouco afastada desta paragem homónima. A aldeia de Sortes está implantada num local elevado em relação à via-férrea, o que obrigou à construção de um pequeno túnel que passa por baixo do espaço urbano. Uma rua liga o centro à estação, em cujas imediações foram construídos alguns edifícios ligados ao tráfego rodoviário. Tal como acontecia com a estação de Salsas, também a de Sortes foi objeto de uma intervenção arquitetónica já depois do fecho da linha-férrea. No entanto, as alterações em obra foram ligeiramente diferentes. Se em Sortes se optou por respeitar o carácter original dos edifícios, aqui mantiveram-se as características volumétricas do conjunto, mas foi removido o reboco que cobria as alvenarias de pedra das paredes exteriores do edifício da estação e das instalações sanitárias. No armazém de mercadorias foi aplicado o mesmo esquema e foi ainda construído, sobre o cais, um alpendre parcialmente fechado. A posição inicial do cais de embarque, bem como as rampas de acesso, foi mantida no lugar de origem. Abandonamos a estação de Sortes e o núcleo urbano que se desenvolveu na sua proximidade, atravessamos o túnel e, do lado esquerdo, podemos observar um segundo núcleo urbano que antecedeu o primeiro, onde se localiza, rodeado de casas de diversas épocas, uma interessante capela de feição arcaica. Prosseguimos viagem num troço cujo ambiente é quase despido de marcas de povoamento que não estejam relacionadas com a agricultura. Atravessamos uma área dominada por culturas arbóreas onde prevalece o Castanheiro, por vezes de dimensões impressivas, mas também o carvalho, ao mesmo tempo que vemos campos de cereais, sobretudo de centeio. Quando a linha mergulha num troço aberto por escavação, as copas das árvores de um lado e do outro da linha tocam-se, obscurecendo o caminho. Neste lugar temos uma sensação de mistério e solidão.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Entre Rossas e Sortes
[Linha do Tua 86] Entre as estações de Santa Comba de Rossas e a seguinte, Sortes, percorrem-se sete quilómetros, que na Linha do Tua é a maior distância entre duas paragens, facto que reforça a ideia de isolamento que se tem ao longo deste troço. Nesta última etapa já não existem carris e a via foi transformada em estradão. São quase sempre visíveis as pedras que serviam de leito às travessas onde se fixavam os carris, mas em alguns casos nem sequer esse vestígio é percetível. Foi neste troço que o comboio começou a deixar de circular, a última composição passou por aqui no dia 17 Dezembro de 1991, quando ocorreu um descarrilamento em Sortes. O troço entre Macedo de Cavaleiros e Bragança ficava isolado da restante rede ferroviária nacional, dois dias depois de ter sido encerrado o percurso entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Desenhos vários
[Linha do Tua 85] Ao abandonar a estação de Rossas, a linha percorre um dos troços mais interessantes desta etapa. Após o quilómetro 112, o comboio entrava no maior túnel da Linha do Tua, e depois percorria uma concha definida pela ribeira de Lanção. Até Bragança, a via-férrea segue um trajecto já delineado pela Estrada Nacional n.º 15 e que, posteriormente, também foi adotado pelo IP4. É curioso observar as diferenças nos traçados destas três vias. Quanto mais recentes, mais alongadas são as suas curvas. O traçado da via-férrea tem como principal condicionante o declive do terreno, ao passo que a via rápida rodoviária é condicionada, principalmente, pela grande dimensão dos raios de curvatura. A Estrada Nacional é a que apresenta a maior capacidade de adaptação ao terreno, com curvas apertadas (possíveis em velocidades reduzidas) e declives acentuados. Na proximidade de Santa Comba de Rossas observamos, muito próximos entre si, estes modos diferentes de desenho viário. Esta observação é reforçada pelo facto de neste troço até Bragança o povoamento ser muito esparso, e por na maior parte dos casos as povoações estarem afastadas das vias de circulação. Por isso, as vias percorrem a paisagem como se fossem um corpo estranho, num território que nos transmite um forte sentimento telúrico.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
A última etapa
[Linha do Tua 84] Depois de ter atingido o seu ponto mais elevado, a Linha do Tua desce até Bragança, estação terminal do seu percurso e o maior núcleo urbano do itinerário. A paisagem transforma-se gradualmente à medida que nos aproximamos da Terra Fria Transmontana. Continuamos na transição entre a Terra Quente, com o seu coração em Mirandela, e a Terra Fria, que se eleva a norte de Bragança. As temperaturas já não atingem valores tão elevados como um pouco a sul, por isso a exploração do solo agrícola também apresenta algumas diferenças. Nas culturas arbóreas dominam o carvalho negral e o castanheiro, que por vezes atingem grandes dimensões. O choupo é visível nas proximidades dos cursos de água. Tal como na Terra Quente, também aqui encontramos em abundância a vinha, a oliveira e a amendoeira, mas também outras culturas, como a batata e o centeio. As encostas mais inclinadas, como as vertentes das serras de Bornes ou da Nogueira, são utilizadas para exploração florestal, onde o pinheiro e por vezes o eucalipto são as espécies predominantes.
domingo, 2 de novembro de 2014
O ponto mais elevado
[Linha do Tua 83] A estação encontra-se atualmente um pouco degradada, mas mantém na íntegra os três elementos característicos das estações de média dimensão desta linha: o edifício da estação, em dois pisos, semelhante ao de Carvalhais, de Romeu ou Grijó, o pequeno edifício das instalações sanitárias e, um pouco mais a norte, o armazém de mercadorias. O comboio partia da Linha do Tua, a aproximadamente 85 metros de altitude. Estamos a 849 metros de altitude, nas faldas da serra da Nogueira, cujo topo dista cerca de seis quilómetros em linha reta e atinge os 1320 metros. Em 110 quilómetros o comboio vencia um desnível de 764 metros. Em seguida, iniciamos uma longa descida até Bragança.
sábado, 1 de novembro de 2014
Santa Comba de Rossas
[Linha do Tua 82] Em seguida, a linha contorna uma elevação do terreno, pela direita, através de uma curva bastante aberta. Depois cruza o ponto onde hoje existe o IP4, do qual se tinha afastado em Jerusalém do Romeu, e reencontra também a Estrada Nacional n.º 15, que acompanha lado a lado até muito perto da estação de Santa Comba de Rossas. Estamos no sopé da serra da Nogueira, uma das montanhas mais elevadas de Trás-os-Montes; a linha atinge aqui o seu ponto mais alto, que é também o ponto de maior altitude do sistema ferroviário português. Esta povoação desenvolve-se em dois núcleos próximos entre si. O mais antigo, a povoação primitiva, localiza-se a uma cota mais baixa e tem como centro a igreja matriz. O segundo núcleo tem origem no lugar da estação, facto que se nota pelo seu próprio traçado.
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