terça-feira, 8 de julho de 2014

Fragas Más

[Linha do Tua 17] Depois do túnel do Tralhariz e de um troço bastante rectilíneo através de um vale sinuoso, numa curva acentuada para a direita encontramos uma sequência de dois túneis, os túneis das Fragas Más. O primeiro é mais extenso e curvilíneo. O topónimo, Fragas Más, é bem sugestivo das características deste troço do vale. Há relatos, em fontes bibliográficas que referem as dificuldades de construção da linha. Devido à inacessibilidade do local, um dos processos referidos para colocar os explosivos necessários para abrir caminho consistia em fazer descer homens suspensos por cordas. Depois de ateado o rastilho do explosivo, e dada a impossibilidade de se conseguir outro itinerário de fuga em segurança, esses homens faziam sinal a outros, que por sua vez se encontravam a segurar as cordas a cotas mais elevadas, a fim de serem içados rapidamente.
Túneis das Fragas Más. 2008





segunda-feira, 7 de julho de 2014

São Mamede de Ribatua

[Linha do Tua 16] São Mamede de Ribatua é uma sede de freguesia do concelho de Alijó, situada nas margens da ribeira de São Mamede, a cerca de um quilómetro da margem direita do Tua. É uma povoação com alguma dimensão, que foi sede de concelho até ao início do século xix. O povoamento da aldeia é concentrado e alberga algumas unidades com valor patrimonial. No Largo do Pelourinho está localizado o antigo edifício da Câmara Municipal, que, simultaneamente, albergava a prisão. O Pelourinho, que se pode enquadrar na tipologia de gaiola, data de 1573. A Igreja Matriz de São Mamede data de 1737 e é o edifício mais significativo do conjunto urbano. É constituída por nave e capela-mor, o exterior é revestido a azulejos com elementos de granito salientes. O portal, enquadrado por pilastras, é sobrepujado por um nicho com a imagem de São Mamede. Num local elevado, um pouco afastado do centro urbano, está implantada uma pequena capela e, à sua frente, um calvário, de onde se obtém uma vista abrangente dos encaixes dos vales do Douro e do Tua e das serranias envolventes.
São Mamede de Ribatua. 2010





domingo, 6 de julho de 2014

Tralhariz

[Linha do Tua 15] Passado o primeiro troço de garganta do vale, começamos a encontrar pequenos terrenos agrícolas, onde são construídos taludes e plantadas oliveiras. Noutros pontos, a via foi aberta com explosivos e desenvolve-se sobre desaterros. Em pontos elevados do vale existem algumas povoações, que não são visíveis da linha. Fiolhal é um pequeno lugar implantado a uma cota de mais de 300 metros de altitude, embora se localize muito perto do rio Tua, cuja foz está a cerca de 70 metros. No Fiolhal, uma pequena capela estrutura o espaço construído, ao mesmo tempo que parece dominar visualmente o vale. Um pouco a norte desta aldeia localiza-se outra povoação, a uma cota de 500 metros. Tralhariz deu nome a um pequeno apeadeiro na Linha do Tua, uma obra de arquitetura muito simples, de planta quadrangular e com um alçado para a via-férrea marcado por três portas. A cobertura é em duas águas, de onde se elevam duas chaminés de dimensão acentuada. Como noutras estações que se lhe seguem, este primeiro apeadeiro da Linha do Tua não tem acesso rodoviário. Cerca de 200 metros à frente encontramos um túnel, ligeiramente curvo, que tem também o nome da aldeia.
Apeadeiro do Tralhariz. 2008

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Profundo alheamento

[Linha do Tua 14] Microcosmos de profundo isolamento e grande inacessibilidade, o vale parece alhear-nos da realidade. Uma sensação bem diferente da que temos nas cotas mais elevadas, onde o cenário continua a ser dominado pela paisagem do Douro Vinhateiro, pela imponência do seu vale e pela forma como as encostas de xisto foram trabalhadas pelo homem através da construção de socalcos monumentais e de um sistema de acessibilidades por caminhos e escadas que, muitas vezes, se revelam como soluções de desenho elaborado e complexo. A construção da linha do Tua usou este mesmo saber e modo de edificar. O rio Douro abriu o seu curso entre serras e planaltos, em encostas de declive íngreme, num clima local muito próprio, particularmente quente no verão e relativamente ameno no inverno, que, conciliado com a natureza seca do solo de xisto, deu origem a um processo de exploração vinícola que já dura há mais de três séculos, numa luta diária com a natureza agreste. Todo o modo de produção, desde a construção dos socalcos, à plantação das vinhas e aos trabalhos associados à sua manutenção, bem como a vindima, eram feitos de forma manual. As transformações tecnológicas e comerciais da atividade agrícola, que rejeitam a dureza de um ofício intermitente, conduziram ao longo das últimas décadas a uma mecanização dos processos de exploração vinícola, assistindo-se assim a uma progressiva transformação destas paisagens. Nos locais onde as encostas são menos inclinadas a vinha em patamares tem vindo a ser substituída pela «vinha ao alto». No entanto, os socalcos, na sua impressionante dimensão de modelador da paisagem, continuam a dominar o vale. A vinha domina a região, mas a oliveira também está presente, assim como a amendoeira. Um ou outro cipreste marca o lugar de uma quinta, muitas delas de origem no século xviii, as quais constituem uma das expressões mais marcantes da arquitetura da região, onde as povoações, quase sempre, se localizam a cotas mais elevadas. Por vezes vemos pequenos matos entremeados na extensão da vinha. São, quase sempre, solos antigos onde a vinha foi abandonada após o ataque da filoxera, uma das pragas mais difíceis de combater, testemunhos de uma história que não se esqueceu e que continua evidente nesses socalcos abandonados, conhecidos na região por mortórios. Mas a vinha, com as suas cores que se alteram ao longo do ano, domina a paisagem e suplanta qualquer expectativa que se pudesse ter de um lugar imaginado. Este é o mundo duriense, o país do vinho.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Taludes

[Linha do Tua 13] Se as pontes e os túneis, as obras de arte da engenharia, são um dos principais indicadores de dificuldade de construção deste caminho-de-ferro, existem outros elementos que não deixam de impressionar. Há taludes construídos com pedras de dimensão ciclópica, que se desenvolvem por extensões consideráveis. São, seguramente, os troços de construção mais difícil. A pedra era removida das encostas e afeiçoada para construir taludes de sustentação da linha. O betão armado, tecnologia que na época começava a dar os primeiros passos, não foi utilizado para a construção desta linha. O emprego de cimento, areia e ferro provavelmente teria facilitado muitos aspetos da construção e aliviado a mão-de-obra de trabalhos pesados e extremamente duros.
Muro de de suporte. Linha do Tua. 2008

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Disciplina

[Linha do Tua 12] Apesar de ser uma estrutura pesada, a via-férrea é capaz de circular por este vale com uma leveza notável. Pelo facto de circularem sobre carris, os comboios são muito «disciplinados» e conseguem trilhar uma via muito estreita, ao contrário de, por exemplo, um automóvel, cuja circulação necessita de mais espaço e exige uma via bastante mais larga. O calibre da via-férrea permite uma intervenção construtiva de menor dimensão. Esta é também a imagem do tempo em que este projeto foi construído. Na segunda metade do século xix, o automóvel não era ainda um veículo usual; ele só apareceu como o conhecemos perto da transição para o século xx, e o seu uso só começou a ser generalizado décadas mais tarde. Se, por um lado, a ferrovia era a única via de transporte terrestre coletivo possível para os meios tecnológicos da época, por outro lado o trajecto era pouco recomendável para outros meios de transporte. Este facto constitui, por si só, uma das singularidades da linha do Tua no contexto da rede de transportes portuguesa.
 
Linha do Tua. 2008

Linha do Tua. 2008

terça-feira, 1 de julho de 2014

Presas

[Linha do Tua 11] A Ponte das Presas e o túnel com o mesmo nome, que imediatamente lhe segue, são a primeira expressão da intervenção que constituiu um grande desafio da engenharia portuguesa do século xix. O conjunto enquadra-se perfeitamente na paisagem, e revela uma delicadeza singular face à grandiosidade do vale. Este curioso conjunto, de ponte e túnel contíguo, faz uma excelente introdução ao troço inicial do percurso, que, sensivelmente até à povoação da Ribeirinha, 33 quilómetros a montante, tem características homogéneas. A ponte não atravessa a linha de água, como as restantes pontes ao longo deste percurso, mas faz a consolidação em estrutura metálica do «chão» da linha. De repente, parece que a paisagem do Douro Vinhateiro ficou para trás. As encostas passam a ser fortemente dominadas pelo granito, e já não pelo xisto que constitui o solo dos melhores vinhedos da região. Pontualmente, ainda se encontram pequenos talhões com vinha plantada, mas a natureza agreste tem aqui uma presença avassaladora, apenas quebrada pela superfície estreita e horizontal do caminho-de-ferro.
Ponte e túnel das Presas. 2008

 
Ponte e túnel das Presas. 2003