quarta-feira, 12 de junho de 2019

3 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 08] O adiantado da tarde anterior e a aproximação da noite, não me permitira baixar um pouco mais de altitude — estava a cerca de 1580 metros. Estava sobre uma linha de festo sem a possibilidade de procurar um lugar mais abrigado. O solo pedregoso, o declive acentuado, não me ofereciam alternativas. Não foi possível montar a tenda, mas consegui um local minimamente abrigado para estender os sacos-cama. Estava na beira de uma ravina. Ouvia com toda a clareza um ribeiro que resultava do degelo das últimas neves da serra e, ao longe, via a serra da Gardunha e o Fundão, no seu sopé, como uma mancha de luzes que da cidade irradiava e se estendia pela planície. Ainda conseguia ver Castelo Branco e lembrar-me de momentos em que, naquelas terras baixas e de verões tórridos, observava ao longe, estes mesmos lugares serranos onde agora me encontrava. Estava no coração montanhoso de Portugal. A escuridão tinha descido. Pontos luminosos começavam a despontar no céu. Infinito de ausências maiores, a solidão lenta da espera da manhã seguinte em sono descontínuo. A noite fora desconfortável, fria.
Cova da Beira, Fundão. 2 de maio de 2019
Cerro do Pombalinho. Covilhã/Seia. 3 de maio de 2019
Só dias mais tarde, quando abandonava as montanhas, viria a perceber o significado do local em que agora me encontrava. Estava no Cabeço dos Pinheiros, numa cumeeira sensivelmente entre Unhais da Serra e Alvoco da Serra. A singularidade deste lugar apenas se devia às escassas marcas de presença humana. Foram cerca de seis ou sete quilómetros sem trilhos ou estradas. Este seria o único troço de toda a caminhada em que me sentia num lugar esquecido, numa terra em que ninguém reparara. Era um espaço de uma enorme liberdade. São muito raros, no território hoje Portugal, pedaços de terra onde não estejam bem vincadas intervenções humanas.
Cabeço dos Pinheiros. Covilhã/Seia. 3 de maio de 2019
Muralha. Covilhã/Seia. 3 de maio de 2019
Alto das Portelinhas. Covilhã/Seia. 3 de maio de 2019
Continuo a caminhar. Passo ao vértice geodésico Muralha, depois de uma descida acentuada chego a uma portela para, imediatamente, me "fazer" à próxima subida, até ao Alto das Portelinhas. Prossigo por terrenos vagos até ao vértice Fojo, onde encontro terras revolvidas e uma estrada lajeada. Este aparenta ter sido um local onde se fez alguma prospeção mineira, mas há muito abandonada. Um pouco mais tarde deparava-me com uma primeira torre eólica, seguir-se-ia uma série interminável.
Fojo. Covilhã/Seia. 3 de maio de 2019
Aproximava-me da serra do Açor, mas não chegaria a ir a um dos seus pontos mais elevados, São Pedro do Açor. Subiria ao Cabeço do Gondufo, que tem exatamente a mesma altitude que aquele outro ponto: 1342 metros acima do nível médio do mar. A partir daqui desceria para sul por uma colina, a acompanhar as primeiras águas do rio Ceira, que tem a nascente neste local. Pouco depois regressava à proximidade das eólicas, que iria acompanhar ao longo de muitos quilómetros. A serra do Açor era também a memória de ali ter estado noutras ocasiões, umas das quais, na década de 1990, em que o cabeço estava coberto por um nevão da noite anterior. Ao longe podia então observar a serra da Estrela e toda esta linha de topos que acabara agora de percorrer. Talvez tenha nascido nessa altura, há quase três décadas, o desejo de percorrer essa linha de festo.
Serra do Açor. Arganil/Covilhã. 3 de maio de 2019
O caminhar ia sendo entrecortado por pausas. Era inevitável parar, descansar, comer qualquer coisa, descalçar as botas, abstrair-me da dureza continuada do caminhar, das dores nos pés. As pausas eram acompanhadas de uma certa disciplina com os horários. À hora de almoço fazia uma interrupção mais prolongada. Punha então a tenda a secar da humidade noturna e, quando estava sol, aproveitava também para pôr os sacos cama a arejar. Deitava-me um pouco e ausentava-me de mim mesmo. Dormitava, porventura. Abstraía-me do cansaço. Pensava no significado desta viagem. De um desejo de desenho, de mapa, de atlas, de toda a terra representada. Esse desenho poderia não ser feito de traços sobre papel, ser arquitetura imaginada, lugar novo, antes por ninguém percorrido. Um planeta subitamente transformado em universo. Um rio que atravessa uma biblioteca. Um arquivo onde de repente nos descobrimos. Luz que não era luz, o princípio de tudo, como se sempre andasse à procura desse ponto recuado num tempo que não era acessível, jamais. Todas as paisagens, meio áridas ou desertas, mas também as florestas, as planícies abertas, os rios torrenciais, os abismos, as grutas intermináveis. O topo de uma montanha gelada que se precipita sobre o mais seco deserto. Tudo isto antes e depois de uma cidade. Que derradeira fotografia poderia representar esta linha de partida, este desenho desmaterializado?
Serra da Cebola. Arganil/Covilhã. 3 de maio de 2019
Calçava as botas, arrumava a mochila. Lento, retomava a caminhada. Em breve estaria quente, com uma passada costumeira. Contínua.

Dia: 2019/05/03, sexta-feira
Lugar referência: Açor
Pernoita: Portela de Silva
Quilómetros percorridos: 28,9
Quilómetros acumulados: 201,9
Concelhos atravessados: Covilhã; Seia; Arganil; Pampilhosa da Serra
Cartas militares: 223; 234; 233; 244
Fotografia inicial: dg898918, 05h46
Fotografia final: dg899452, 20h49
Duração trabalho fotográfico: 15h03
Fotografias: 535
Somatório fotografias: 2669
Fotografias selecionadas: 129 (24,11%)

terça-feira, 11 de junho de 2019

2 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 07] A manhã praticamente começa com a subida a partir da Portela do Folgosinho. Este é um passo claramente visível da região de Viseu, que habito e que sempre me seduzira a sua transposição. A partir daqui estarei nas cotas mais elevadas da serra da Estrela. Ainda terei cerca de 12 quilómetros de caminhada até à represa de vale Rossim. Daí seguirei na direção da Nave da Mestra. É na proximidade desta nave que observo a neve.
Portela do Folgosinho, prox. Gouveia. 2 de maio de 2019
A presença da neve, invulgar nesta altura do ano, era quase como o completar pleno de uma experiência de habitar uma paisagem com todos os estados de clima que podemos presenciar aqui na Terra. Três dias antes estava a lutar contra a desidratação pelo calor, agora o frio intenso, o solo coberto de neve.
Serra da Estrela. Gouveia. 2 de maio de 2019
A neve era como encontrar desenhos pousados sobre o solo. Eram como esboços efémeros para pinturas. Sobre este branco desenharia todas as viagens. Era algo de mágico o que ali encontrava. Manchas sobre texturas, tudo em movimento. A água corria célere, no degelo. Avanço para encontrar o resto do caminho. As linhas e as manchas são um fascínio. Voltava a recordar as gravuras do Côa. Quem teria feito aqueles desenhos? A neve evocava o branco do papel, mas ali, com o granito escuro recortado pelo branco sobreposto, tudo aquilo pareciam ser traços sem limites. O frio contracenava com a sedução efémera de toda aquela paisagem que agora, de hora para hora, desaparecia, ao voltar aos dias comuns que o tempo quente das terras baixas anunciava.
Serra da Estrela. Manteigas/Seia. 2 de maio de 2019
A beleza da neve escondia a dificuldade em caminhar sobre ela. Os trilhos ficam parcialmente ocultos, por vezes obstruídos, os pés afundam-se inesperadamente a qualquer momento. Sobre o manto branco há água a correr. Quanto mais subia na direção do ponto mais elevado da serra, mais neve encontrava, mais difícil era a progressão no terreno. Detenho-me. Olho para trás. Deixara os meus passos inscritos na neve. Era como se aquela curta linha apontasse todo o percurso feito até aqui. Vida condensada em esquiço efémero. O calor iria apagar os passos. Dentro de meses, no próximo Inverno, outros nevões se abaterão sobre aquele solo. Chego finalmente à estrada que liga Seia à Covilhã. Muito em breve estaria na Torre.
Serra da Estrela. Manteigas/Seia. 2 de maio de 2019
Há três lojas num centro comercial. Entro numa delas. A ideia era apenas comprar uma garrafa de água para ter maior capacidade, para ficar com perto de 4 litros de armazenamento. Saí de lá com uma sandes de queijo e presunto que não estava nos meus planos. Não resisti. Sentei-me, não longe daquele conjunto de edifícios, a comer aquele que seria o meu jantar, pois o dia já estava no fim. O excesso de sal, para a alimentação que eu vinha a fazer, deixou-me com uma necessidade acrescida de água. Só me aperceberia desta realidade mais tarde, já noite entrada, quando me fixara a meia encosta da montanha.
Serra da Estrela. Manteigas/Seia/Covilhã. 2 de maio de 2019
Este final de tarde, depois de me abastecer de água do próprio degelo, é também uma celebração da luz, de um fim de tarde que ilumina o trajeto dos dias vindouros. Desço das cotas mais altas como quem percorre o dorso de um grande animal. É este animal que nos transporta, que nos imprime o movimento. É o movimento sobre o movimento. Estamos unidos, em vida e para a morte, sobre o imenso corpo terrestre que partilhamos com todos os seres vivos, pois todos temos uma mesma origem.
Serra da Estrela. Seia/Covilhã. 2 de maio de 2019
Se o dia começara com uma subida a partir da Portela do Folgosinho, agora avançava, da mesma forma, sobre um plano acentuadamente inclinado. O objetivo era o de também abandonar as terras altas onde o frio se faz sentir com mais intensidade e para o qual eu não estava devidamente preparado.
Serra da Estrela. Seia/Covilhã. 2 de maio de 2019
Por ter atingindo um dos principais, e talvez o mais simbólico objetivo, houve a sensação de ter chegado ao fim da viagem. Mas apenas estava cumprido o primeiro terço da caminhada. Quando ao fim do dia me debruçava, como que de uma varanda, para as terras a sul desta mole montanhosa, imediatamente se tornava claro que o “combate” iria continuar por linhas tortuosas, muitas vezes sem marcas inscritas no solo por anteriores caminhantes.
Serra da Estrela. Seia/Covilhã. 2 de maio de 2019


Dia: 2019/05/02, quinta-feira
Lugar referência: Torre
Pernoita: Cerro do Pombalinho
Quilómetros percorridos: 40,6
Quilómetros acumulados: 173
Concelhos atravessados: Gouveia; Manteigas; Seia; Covilhã
Cartas militares: 202; 213; 212; 223
Fotografia inicial: dg898371, 06h08
Fotografia final: dg898917, 22h03
Duração trabalho fotográfico: 15h55
Fotografias: 547
Somatório fotografias: 2134

segunda-feira, 10 de junho de 2019

1 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 06] Ainda não eram sete da manhã quando passei por Açores, uma aldeia com um singular largo de grande dimensões, com alinhamentos de plátanos muito podados. Pouco depois estava a atravessar a A25 e, logo a seguir, o rio Mondego. A partir desta linha o caminho seria quase sempre a subir até ao ponto mais elevado da serra da Estrela, onde previa chegar no dia seguinte. De permeio, na aproximação à serra, decido fazer uma pequena alteração ao itinerário. O calor que já estava na altura fez-me temer que muito dificilmente encontraria água nas terras altas. Decido apenas “atacar” a serra a partir de aldeia de Rapa, onde reabasteci. O mais provável seria apenas voltar a encontrar água no plano mais elevado da serra, que ainda estava nevado.
Açores. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
A25, Lajeosa do Mondego, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
Rio Mondego. Lajeosa do Mondego, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
A partir de Rapa sigo pela estrada que se dirige para Aldeia Viçosa. Ao chegar à portela, depois de uma distância de cerca de um quilómetro, inflito à direita, na direção sul. Doravante iria caminhar por essa linha das mais elevadas cotas do eixo Montejunto-Estrela. Era este o principal objetivo desta caminhada.
O desnível é agora relativamente acentuado, em cerca de um quilómetro e meio subirei de uma cota de 735 metros para os 985 metros, no vértice geodésico Soida. Há nuvens nesta aproximação ao alto das montanhas. Oiço foguetes. Não longe do vértice geodésico está um grupo relativamente grande de homens a prepararem um almoço. Atravesso o grupo como se fosse transparente, parecendo que ninguém reparava em mim. Avancei. A vontade de comer umas febras grelhadas não se concretizou. Havia um número considerável de automóveis dispersos pelas bermas do estradão que levava àquele ponto, que, por sua vez ficava no prolongamento da via de acesso a um parque eólico que se desenvolvia um pouco mais a sul e que se prolongaria por alguns quilómetros de cumeeira.
Soida, prox. Celorico da Beira/Guarda. 1 de maio de 2019
Desta linha comecei por avistar o cabeço do Tentinolho, na direção nascente e, pouco depois, tinha a Guarda no horizonte, a mais elevada cidade portuguesa. Parecia muito perto, embora estivesse a cerca de 10 quilómetros, em linha reta, do ponto em que me encontrava. Para norte via, com grande clareza, a serra da Marofa que tinha contornado há apenas dois dias. Esta montanha era, desde o início, um marco do meu caminhar, uma referência visual. A leitura do horizonte era a afirmação de um certo poder do movimento pedestre, de que não nos apercebemos com clareza quando nos deslocamos sobre rodas. Impressiona esta perceção da distância que como que nos transporta a um tempo muito recuado, deambulante e nómada, e, simultaneamente, se oferece como espaço inusitado de liberdade e independência.
Soida, prox. Celorico da Beira/Guarda. 1 de maio de 2019
Não tardaria estava junto aos campos cultivados da Cabeça Alta, os mais elevados solos agrícolas de todo o espaço português. Esta é uma área da montanha em que observamos as terras de xisto e, não distantes, paisagens onde o granito é dominante. A topografia da linha de festo é bastante plana. A serra da Estrela tem cerca de 60 quilómetros de extensão, se traçarmos uma linha desde Lajeosa do Mondego até à Torre.
Cabeça Alta, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
Esta viagem era como um imperativo e uma urgência, mais uma tentativa de entendimento do impalpável solo que nos ergue como humanos, dentro de uma cultura determinada que foi sendo construída ao longo de milénios. Desenho uma linha, um infinito conjunto de paisagens, de partidas para lugares próximos ou distantes. Desejo de regresso a pontos observados no passado, mas também de futuro. Estar profundamente dentro e comprometido com a terra, com os lugares concretos que nos acolhem, que nos abrigam, que nos expõem a um clima duro. Este é o meu país.
Cumeada, prox. Gouveia. 1 de maio de 2019
Ao fim da tarde, num pequeno bosque, interrompo a caminhada. Era um bom local para passar a noite, abrigado do vento e de alguém que por ali pudesse passar. Não passou ninguém. Se na noite anterior tinha ficado junto de uma autoestrada, agora estava num recanto vegetal antes de avançar para as penedias ciclópicas do alto da montanha. Estava perto da Portela do Folgosinho. Fazia-se já sentir a descida da temperatura
Sorte da Velha, prox. Gouveia. 1 de maio de 2019

Dia: 2019/05/01, quarta-feira
Lugar referência: Cabeça Alta
Pernoita: Portela do Folgosinho, prox.
Quilómetros percorridos: 35,2
Quilómetros acumulados: 132,4
Concelhos atravessados: Celorico da Beira; Guarda; Gouveia
Cartas militares: 192; 203; 202
Fotografia inicial: dg898141, 06h20
Fotografia final: dg898370, 19h51
Duração trabalho fotográfico: 13h31
Fotografias: 230
Somatório fotografias: 1587
Fotografias selecionadas: 43 (18,7%)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

30 de abril 2019

[Caminhar oblíquo 05] Quando acordo o ruído do rio Côa parecia bem menor do que estava na noite anterior. Talvez o caudal tivesse baixado consideravelmente, motivado pelo fecho das comportas na barragem do Sabugal. Não hesitei e iniciei a marcha em direção a Pinhel, num desvio considerável em relação aos meus planos iniciais. Durante toda a viagem apenas previra passar por duas sedes de concelho, Porto de Mós, onde faria um reabastecimento alimentar, e Mafra, já próximo do fim da viagem.
Rio Côa. Figueira de Castelo Rodrigo/Pinhel. 30 de abril de 2019
O dia seria tranquilo, sem desníveis acentuados que não fosse este de subir a Milheiro, um lugar muito pequeno, daí seguir até à estrada que seguia para Pinhel, descer novamente à cota do Côa e finalmente uma subida lenta, por estrada, vencendo um desnível acumulado de cerca de 300 metros. Daí em diante as diferenças de cota seriam pouco acentuadas até atravessar a linha ferroviária da Beira Alta que aqui atinge, numa curva acentuada, o ponto mais a norte de todo o seu itinerário. Depois começaria a descer em aproximação ao rio Mondego.
Milheiro. Figueira de Castelo Rodrigo. 30 de abril de 2019
Atravessava um mundo rural que teve o seu apogeu na década de 1950 e início da seguinte, quando o país estava completamente fechado ao exterior, “orgulhosamente só”. As imagens de uma ruralidade aparentemente equilibrada, que produziu notáveis obras de arquitetura integrada na paisagem, edificada com os materiais da terra, era afinal o reverso de uma pobreza muito acentuada e da fome que grassava neste mundo de prisioneiros. A arquitetura, o desenho extremo das paisagens agrícolas, não era o produto de um ato deliberado de integração, eram uma necessidade, quase como uma condição animal sobrevivente num limbo. Sem dúvida que se desenvolveu um saber notável, quase se puseram as pedras a “dar” batatas e cenouras. Qualquer pedaço de terra arável era cultivada. Mas era como um mundo de ilusão. Assim que o regime político começou a abrir brechas, provocadas pela sua própria insustentabilidade, teve início a passagem da fronteira a salto. A emigração foi crescendo na direta proporção em que as terras se começaram a esvaziar. Muita gente resistiu, também pela chegada das remessas que os familiares enviavam. Foi um mundo que se manteve, sempre em perda. No final da década de 1960 estavam a ser construídas novas casas, eram introduzidas novas arquiteturas, novos materiais. A imagem das aldeias começava a mudar. Hoje, mesmo este mundo das casas dos emigrantes está em perda, tudo está em transformação. A memória da fome continua a passar para as gerações mais novas, que rejeitam esta ruralidade, a escravatura da terra. E é esta terra que agora atravesso na aproximação lenta à serra da Estrela.
Pinhel. 30 de abril de 2019
Há estradas que serpenteiam por estes territórios, que tudo ligam. Quilómetros que se sucedem sem que praticamente ninguém passe. Esta rede viária é uma teia que se afeiçoa ao terreno, que sugere caminhos menos óbvios, desvios, alguns para a perdição. O caminhar a pé mostra-nos uma realidade que, sobre rodas, é trespassada pela vertigem da velocidade. Há um imenso detalhe em tudo à nossa volta, como se cada elemento da matéria nos contasse a história de todos estes mundos em ligação. Redes sobre redes. Uma parte da liberdade que vivemos poderá estar na abstração de todas estas direções, mantendo-nos concentrados na ausência, a janela aberta, que afinal, não existe.
Maçal do Chão, prox. 30 de abril de 2019
Muitos quilómetros em asfalto vago. Algumas passagens por povoados. Pala, Ervas Tenras, Cerejo. Quando passo em Velosa, Celorico da Beira, abasteço de água. A tarde estava avançada. Desde a alvorada já percorrera mais de 45 quilómetros. Ainda antes de chegar a Açores, procuro um local de pernoita. Escolho um terreno relativamente perto da estrada com uma vista muito abrangente sobre o vale aberto da Ribeira da Velosa. Diante de mim tenho a A25, numa curva larga que antecede, para quem vem de poente, uma longa subida em direção à Guarda. Depois de um dia de silêncio tenho agora a companhia ruidosa dos motores dos automóveis e dos camiões. Um país de contrastes, de velocidades díspares. Esta viagem seria também feita desta matéria de realidade célere, que não se quer esconder. São os tão diferentes mundos que cada um de nós traz dentro de si. Se ali, de onde observo a autoestrada, pensar num desses condutores e no seu mundo em passagem e quão diferente será a sua condição da minha própria, ali em solidão. Adormeço a ouvir a circulação automóvel, que parece ser acentuada pelo cair da noite. Pontualmente acordo. Na madrugada regressara o silêncio, entrecortado por algum condutor solitário de olhos fixos no seu próprio clarão.
Açores, prox. Celorico da Beira. 30 de abril de 2019
Açores, prox. Celorico da Beira. 30 de abril de 2019

Dia: 2019/04/30, terça-feira
Lugar referência: Pinhel
Pernoita: Açores, Celorico da Beira
Quilómetros percorridos: 46,5
Quilómetros acumulados: 97,2
Concelhos atravessados: Figueira de Castelo Rodrigo; Pinhel; Trancoso; Celorico da Beira
Cartas militares: 171; 182; 181; 192
Fotografia inicial: dg897679, 06h15
Fotografia final: dg898140, 20h34
Duração trabalho fotográfico: 14h19
Fotografias: 462
Somatório fotografias: 1357
Fotografias selecionadas: 118 (25,5%)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

29 de abril 2019

[Caminhar oblíquo 04] Desperto ao raiar da aurora. Ainda dentro do saco-cama, ouço o cântico de aves. Esta é uma das mais gratas formas de acordar. É a sonoridade e a memória de mais de trinta anos de uma vida que procura esta proximidade a um sentido de verdade que se eleva da terra e que é, simultaneamente, benigno e cruel.
Barca d'Alva, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
Quando nos fixamos numa paisagem para passar a noite e quando esta já está avançada, é sempre com espanto que, na madrugada seguinte, observamos a paisagem. Do local onde me encontrava via as águas do rio Douro e a terra trabalhada pelos agricultores ao longo de sucessivas gerações em trabalhos árduos. Muito em breve abandonaria este vale para me dirigir na direção da serra da Marofa, que por agora ainda não se vislumbrava a recortar o horizonte. Atravessava terrenos lavrados, de solos acentuadamente pobres, de uma agricultura de subsistência, um mundo que não está abandonado, mas que está em perda, em processo de desertificação humana mas onde ainda é notada a resistência de quem, por vários motivos, não abandona a terra.
Barca d'Alva, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
Este é um país “normal” onde nada parece ocorrer. Quietude. São os caminhos rurais e o entrar nas aldeias pela porta dos fundos, por veredas, pelo silêncio do próprio caminhar. Reencontrava a memória das primeiras caminhadas que fizera, nos anos oitenta do século passado, quando o país era substancialmente diferente do que é hoje, mas onde os problemas da desertificação já se faziam sentir há mais de vinte anos. Lembro a serra do Alvão, particularmente, que percorri com amigos em 1989. Era quase como se o tempo tivesse parado, esperado por algo que nunca viria a acontecer.
Esta é a imagem de uma paisagem rural “imemorial”, não contaminada por elementos "dissonantes", descontinuidades que perturbam um qualquer arquétipo visual que associamos a equilíbrio, a estabilidade, permanência. Mas pode haver muito de enganador, ou escondido, numa imagem de um mundo rural ordeiro e belo.
Vilar de Amargo, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
A meio da tarde contornava as faldas poente da Marofa e iniciava a descida para o Côa. Aí deveria fazer a travessia do rio a vau, junto ao local em que este recebe um seu tributário, a Ribeira das Cabras. O caudal do rio estava invulgarmente forte para esta época do ano. Procurados vários pontos para fazer o atravessamento, todos se revelaram excessivamente perigosos e arriscados, sobretudo devido à mochila. A opção foi a de acompanhar o rio para montante na esperança de encontrar um ponto de passagem. Nada. Ao fim de um dia esgotante, particularmente devido ao calor, deparava-me com este duro obstáculo, que seria a de ter de fazer um desvio considerável para encontrar uma ponte, a montante. Ainda não era tarde mas decidi não mais prosseguir a jornada. Precisava de descansar e processar esta contrariedade. O desvio obrigar-me-ia a fazer mais cerca de 12 quilómetros. Montei a tenda nas margens do rio, num local muito tranquilo, perto de uma quinta abandonada, cuja ruína, de vários edifícios se encontrava muito avançada.
Rio Côa, Moinho da Susana, prox. Figueira de Castelo Rodrigo/Pinhel. 29 de abril de 2019
Ao rio Côa não posso deixar de associar as gravuras rupestres, cujos principais núcleos se localizam a cerca de 30 quilómetros a jusante deste local onde iria passar a noite. Em 1995, uma barragem de grandes dimensões estava em construção. É então revelado um achado arqueológico de grande significado: um conjunto de gravuras rupestres representando, generalizadamente, animais, alguns deles já extintos. A datação das gravuras viria a confirmar a sua singularidade. Eram imagens do Paleolítico Superior. Ao longo de meses foram sendo comunicados mais achados. Estávamos perante o sítio mais extenso e com maior número de gravuras ao ar livre conhecido até hoje. As gravuras apresentavam outra particularidade, definham um arco temporal de intervenção desde aquele período remoto, há cerca de 30.000 anos, até aos anos 50 do século XX.
Há qualquer coisa fascinante no desenho. É a possibilidade de inscrever um traço sobre uma superfície. A simplicidade de um gesto que abre mundos. Talvez tenha sido das primeiras formas de comunicar desenvolvida por humanos, muito antes da escrita. O desenho inventará a palavra. A pintura virá como uma representação “final” da realidade. A fotografia evoluirá já como uma complexificação extrema da imagem: “é” a própria realidade com os seus significados dúbios, antagónicos, indefinidos. Mundo quântico em explosão. A arte caminha ao lado da ciência. Conhecimento, futuro, infinito gelado e silencioso, espaço sideral. Paraíso perdido na impossibilidade de fixação num lugar determinado. Movimento contínuo. A interminável viagem da vida. A alguém deixaremos o registo da nossa etapa, um testemunho para outros caminhos. Desenhos sobre desenhos. Palimpsesto. Mapas para o futuro. Uma linha sobre a terra é um gesto solitário, arquitetura recriada para o tempo vindouro. Algures haverá chuva. A dureza de um mundo mineral, ou a neve branca, fria como o universo que observamos antes de sermos tomados pelo sono das noites ao relento.

Dia: 29 de abril de 2019, segunda-feira
Lugar referência: Rio Côa, Serra da marofa
Pernoita: Rio Côa, prox. Pinhel
Quilómetros percorridos: 33,7
Quilómetros acumulados: 50,7
Concelhos atravessados: Figueira de Castelo Rodrigo
Cartas militares: 142; 151; 152; 161; 171
Fotografia inicial: dg897184, 05h57
Fotografia final: dg897678, 19h43
Duração trabalho fotográfico: 13h46
Fotografias: 495
Somatório fotografias: 895
Fotografias selecionadas: 87 (17,58%)