segunda-feira, 10 de junho de 2019

1 de maio 2019

[Caminhar oblíquo 06] Ainda não eram sete da manhã quando passei por Açores, uma aldeia com um singular largo de grande dimensões, com alinhamentos de plátanos muito podados. Pouco depois estava a atravessar a A25 e, logo a seguir, o rio Mondego. A partir desta linha o caminho seria quase sempre a subir até ao ponto mais elevado da serra da Estrela, onde previa chegar no dia seguinte. De permeio, na aproximação à serra, decido fazer uma pequena alteração ao itinerário. O calor que já estava na altura fez-me temer que muito dificilmente encontraria água nas terras altas. Decido apenas “atacar” a serra a partir de aldeia de Rapa, onde reabasteci. O mais provável seria apenas voltar a encontrar água no plano mais elevado da serra, que ainda estava nevado.
Açores. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
A25, Lajeosa do Mondego, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
Rio Mondego. Lajeosa do Mondego, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
A partir de Rapa sigo pela estrada que se dirige para Aldeia Viçosa. Ao chegar à portela, depois de uma distância de cerca de um quilómetro, inflito à direita, na direção sul. Doravante iria caminhar por essa linha das mais elevadas cotas do eixo Montejunto-Estrela. Era este o principal objetivo desta caminhada.
O desnível é agora relativamente acentuado, em cerca de um quilómetro e meio subirei de uma cota de 735 metros para os 985 metros, no vértice geodésico Soida. Há nuvens nesta aproximação ao alto das montanhas. Oiço foguetes. Não longe do vértice geodésico está um grupo relativamente grande de homens a prepararem um almoço. Atravesso o grupo como se fosse transparente, parecendo que ninguém reparava em mim. Avancei. A vontade de comer umas febras grelhadas não se concretizou. Havia um número considerável de automóveis dispersos pelas bermas do estradão que levava àquele ponto, que, por sua vez ficava no prolongamento da via de acesso a um parque eólico que se desenvolvia um pouco mais a sul e que se prolongaria por alguns quilómetros de cumeeira.
Soida, prox. Celorico da Beira/Guarda. 1 de maio de 2019
Desta linha comecei por avistar o cabeço do Tentinolho, na direção nascente e, pouco depois, tinha a Guarda no horizonte, a mais elevada cidade portuguesa. Parecia muito perto, embora estivesse a cerca de 10 quilómetros, em linha reta, do ponto em que me encontrava. Para norte via, com grande clareza, a serra da Marofa que tinha contornado há apenas dois dias. Esta montanha era, desde o início, um marco do meu caminhar, uma referência visual. A leitura do horizonte era a afirmação de um certo poder do movimento pedestre, de que não nos apercebemos com clareza quando nos deslocamos sobre rodas. Impressiona esta perceção da distância que como que nos transporta a um tempo muito recuado, deambulante e nómada, e, simultaneamente, se oferece como espaço inusitado de liberdade e independência.
Soida, prox. Celorico da Beira/Guarda. 1 de maio de 2019
Não tardaria estava junto aos campos cultivados da Cabeça Alta, os mais elevados solos agrícolas de todo o espaço português. Esta é uma área da montanha em que observamos as terras de xisto e, não distantes, paisagens onde o granito é dominante. A topografia da linha de festo é bastante plana. A serra da Estrela tem cerca de 60 quilómetros de extensão, se traçarmos uma linha desde Lajeosa do Mondego até à Torre.
Cabeça Alta, prox. Celorico da Beira. 1 de maio de 2019
Esta viagem era como um imperativo e uma urgência, mais uma tentativa de entendimento do impalpável solo que nos ergue como humanos, dentro de uma cultura determinada que foi sendo construída ao longo de milénios. Desenho uma linha, um infinito conjunto de paisagens, de partidas para lugares próximos ou distantes. Desejo de regresso a pontos observados no passado, mas também de futuro. Estar profundamente dentro e comprometido com a terra, com os lugares concretos que nos acolhem, que nos abrigam, que nos expõem a um clima duro. Este é o meu país.
Cumeada, prox. Gouveia. 1 de maio de 2019
Ao fim da tarde, num pequeno bosque, interrompo a caminhada. Era um bom local para passar a noite, abrigado do vento e de alguém que por ali pudesse passar. Não passou ninguém. Se na noite anterior tinha ficado junto de uma autoestrada, agora estava num recanto vegetal antes de avançar para as penedias ciclópicas do alto da montanha. Estava perto da Portela do Folgosinho. Fazia-se já sentir a descida da temperatura
Sorte da Velha, prox. Gouveia. 1 de maio de 2019

Dia: 2019/05/01, quarta-feira
Lugar referência: Cabeça Alta
Pernoita: Portela do Folgosinho, prox.
Quilómetros percorridos: 35,2
Quilómetros acumulados: 132,4
Concelhos atravessados: Celorico da Beira; Guarda; Gouveia
Cartas militares: 192; 203; 202
Fotografia inicial: dg898141, 06h20
Fotografia final: dg898370, 19h51
Duração trabalho fotográfico: 13h31
Fotografias: 230
Somatório fotografias: 1587
Fotografias selecionadas: 43 (18,7%)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

30 de abril 2019

[Caminhar oblíquo 05] Quando acordo o ruído do rio Côa parecia bem menor do que estava na noite anterior. Talvez o caudal tivesse baixado consideravelmente, motivado pelo fecho das comportas na barragem do Sabugal. Não hesitei e iniciei a marcha em direção a Pinhel, num desvio considerável em relação aos meus planos iniciais. Durante toda a viagem apenas previra passar por duas sedes de concelho, Porto de Mós, onde faria um reabastecimento alimentar, e Mafra, já próximo do fim da viagem.
Rio Côa. Figueira de Castelo Rodrigo/Pinhel. 30 de abril de 2019
O dia seria tranquilo, sem desníveis acentuados que não fosse este de subir a Milheiro, um lugar muito pequeno, daí seguir até à estrada que seguia para Pinhel, descer novamente à cota do Côa e finalmente uma subida lenta, por estrada, vencendo um desnível acumulado de cerca de 300 metros. Daí em diante as diferenças de cota seriam pouco acentuadas até atravessar a linha ferroviária da Beira Alta que aqui atinge, numa curva acentuada, o ponto mais a norte de todo o seu itinerário. Depois começaria a descer em aproximação ao rio Mondego.
Milheiro. Figueira de Castelo Rodrigo. 30 de abril de 2019
Atravessava um mundo rural que teve o seu apogeu na década de 1950 e início da seguinte, quando o país estava completamente fechado ao exterior, “orgulhosamente só”. As imagens de uma ruralidade aparentemente equilibrada, que produziu notáveis obras de arquitetura integrada na paisagem, edificada com os materiais da terra, era afinal o reverso de uma pobreza muito acentuada e da fome que grassava neste mundo de prisioneiros. A arquitetura, o desenho extremo das paisagens agrícolas, não era o produto de um ato deliberado de integração, eram uma necessidade, quase como uma condição animal sobrevivente num limbo. Sem dúvida que se desenvolveu um saber notável, quase se puseram as pedras a “dar” batatas e cenouras. Qualquer pedaço de terra arável era cultivada. Mas era como um mundo de ilusão. Assim que o regime político começou a abrir brechas, provocadas pela sua própria insustentabilidade, teve início a passagem da fronteira a salto. A emigração foi crescendo na direta proporção em que as terras se começaram a esvaziar. Muita gente resistiu, também pela chegada das remessas que os familiares enviavam. Foi um mundo que se manteve, sempre em perda. No final da década de 1960 estavam a ser construídas novas casas, eram introduzidas novas arquiteturas, novos materiais. A imagem das aldeias começava a mudar. Hoje, mesmo este mundo das casas dos emigrantes está em perda, tudo está em transformação. A memória da fome continua a passar para as gerações mais novas, que rejeitam esta ruralidade, a escravatura da terra. E é esta terra que agora atravesso na aproximação lenta à serra da Estrela.
Pinhel. 30 de abril de 2019
Há estradas que serpenteiam por estes territórios, que tudo ligam. Quilómetros que se sucedem sem que praticamente ninguém passe. Esta rede viária é uma teia que se afeiçoa ao terreno, que sugere caminhos menos óbvios, desvios, alguns para a perdição. O caminhar a pé mostra-nos uma realidade que, sobre rodas, é trespassada pela vertigem da velocidade. Há um imenso detalhe em tudo à nossa volta, como se cada elemento da matéria nos contasse a história de todos estes mundos em ligação. Redes sobre redes. Uma parte da liberdade que vivemos poderá estar na abstração de todas estas direções, mantendo-nos concentrados na ausência, a janela aberta, que afinal, não existe.
Maçal do Chão, prox. 30 de abril de 2019
Muitos quilómetros em asfalto vago. Algumas passagens por povoados. Pala, Ervas Tenras, Cerejo. Quando passo em Velosa, Celorico da Beira, abasteço de água. A tarde estava avançada. Desde a alvorada já percorrera mais de 45 quilómetros. Ainda antes de chegar a Açores, procuro um local de pernoita. Escolho um terreno relativamente perto da estrada com uma vista muito abrangente sobre o vale aberto da Ribeira da Velosa. Diante de mim tenho a A25, numa curva larga que antecede, para quem vem de poente, uma longa subida em direção à Guarda. Depois de um dia de silêncio tenho agora a companhia ruidosa dos motores dos automóveis e dos camiões. Um país de contrastes, de velocidades díspares. Esta viagem seria também feita desta matéria de realidade célere, que não se quer esconder. São os tão diferentes mundos que cada um de nós traz dentro de si. Se ali, de onde observo a autoestrada, pensar num desses condutores e no seu mundo em passagem e quão diferente será a sua condição da minha própria, ali em solidão. Adormeço a ouvir a circulação automóvel, que parece ser acentuada pelo cair da noite. Pontualmente acordo. Na madrugada regressara o silêncio, entrecortado por algum condutor solitário de olhos fixos no seu próprio clarão.
Açores, prox. Celorico da Beira. 30 de abril de 2019
Açores, prox. Celorico da Beira. 30 de abril de 2019

Dia: 2019/04/30, terça-feira
Lugar referência: Pinhel
Pernoita: Açores, Celorico da Beira
Quilómetros percorridos: 46,5
Quilómetros acumulados: 97,2
Concelhos atravessados: Figueira de Castelo Rodrigo; Pinhel; Trancoso; Celorico da Beira
Cartas militares: 171; 182; 181; 192
Fotografia inicial: dg897679, 06h15
Fotografia final: dg898140, 20h34
Duração trabalho fotográfico: 14h19
Fotografias: 462
Somatório fotografias: 1357
Fotografias selecionadas: 118 (25,5%)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

29 de abril 2019

[Caminhar oblíquo 04] Desperto ao raiar da aurora. Ainda dentro do saco-cama, ouço o cântico de aves. Esta é uma das mais gratas formas de acordar. É a sonoridade e a memória de mais de trinta anos de uma vida que procura esta proximidade a um sentido de verdade que se eleva da terra e que é, simultaneamente, benigno e cruel.
Barca d'Alva, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
Quando nos fixamos numa paisagem para passar a noite e quando esta já está avançada, é sempre com espanto que, na madrugada seguinte, observamos a paisagem. Do local onde me encontrava via as águas do rio Douro e a terra trabalhada pelos agricultores ao longo de sucessivas gerações em trabalhos árduos. Muito em breve abandonaria este vale para me dirigir na direção da serra da Marofa, que por agora ainda não se vislumbrava a recortar o horizonte. Atravessava terrenos lavrados, de solos acentuadamente pobres, de uma agricultura de subsistência, um mundo que não está abandonado, mas que está em perda, em processo de desertificação humana mas onde ainda é notada a resistência de quem, por vários motivos, não abandona a terra.
Barca d'Alva, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
Este é um país “normal” onde nada parece ocorrer. Quietude. São os caminhos rurais e o entrar nas aldeias pela porta dos fundos, por veredas, pelo silêncio do próprio caminhar. Reencontrava a memória das primeiras caminhadas que fizera, nos anos oitenta do século passado, quando o país era substancialmente diferente do que é hoje, mas onde os problemas da desertificação já se faziam sentir há mais de vinte anos. Lembro a serra do Alvão, particularmente, que percorri com amigos em 1989. Era quase como se o tempo tivesse parado, esperado por algo que nunca viria a acontecer.
Esta é a imagem de uma paisagem rural “imemorial”, não contaminada por elementos "dissonantes", descontinuidades que perturbam um qualquer arquétipo visual que associamos a equilíbrio, a estabilidade, permanência. Mas pode haver muito de enganador, ou escondido, numa imagem de um mundo rural ordeiro e belo.
Vilar de Amargo, prox. Figueira de Castelo Rodrigo. 29 de abril de 2019
A meio da tarde contornava as faldas poente da Marofa e iniciava a descida para o Côa. Aí deveria fazer a travessia do rio a vau, junto ao local em que este recebe um seu tributário, a Ribeira das Cabras. O caudal do rio estava invulgarmente forte para esta época do ano. Procurados vários pontos para fazer o atravessamento, todos se revelaram excessivamente perigosos e arriscados, sobretudo devido à mochila. A opção foi a de acompanhar o rio para montante na esperança de encontrar um ponto de passagem. Nada. Ao fim de um dia esgotante, particularmente devido ao calor, deparava-me com este duro obstáculo, que seria a de ter de fazer um desvio considerável para encontrar uma ponte, a montante. Ainda não era tarde mas decidi não mais prosseguir a jornada. Precisava de descansar e processar esta contrariedade. O desvio obrigar-me-ia a fazer mais cerca de 12 quilómetros. Montei a tenda nas margens do rio, num local muito tranquilo, perto de uma quinta abandonada, cuja ruína, de vários edifícios se encontrava muito avançada.
Rio Côa, Moinho da Susana, prox. Figueira de Castelo Rodrigo/Pinhel. 29 de abril de 2019
Ao rio Côa não posso deixar de associar as gravuras rupestres, cujos principais núcleos se localizam a cerca de 30 quilómetros a jusante deste local onde iria passar a noite. Em 1995, uma barragem de grandes dimensões estava em construção. É então revelado um achado arqueológico de grande significado: um conjunto de gravuras rupestres representando, generalizadamente, animais, alguns deles já extintos. A datação das gravuras viria a confirmar a sua singularidade. Eram imagens do Paleolítico Superior. Ao longo de meses foram sendo comunicados mais achados. Estávamos perante o sítio mais extenso e com maior número de gravuras ao ar livre conhecido até hoje. As gravuras apresentavam outra particularidade, definham um arco temporal de intervenção desde aquele período remoto, há cerca de 30.000 anos, até aos anos 50 do século XX.
Há qualquer coisa fascinante no desenho. É a possibilidade de inscrever um traço sobre uma superfície. A simplicidade de um gesto que abre mundos. Talvez tenha sido das primeiras formas de comunicar desenvolvida por humanos, muito antes da escrita. O desenho inventará a palavra. A pintura virá como uma representação “final” da realidade. A fotografia evoluirá já como uma complexificação extrema da imagem: “é” a própria realidade com os seus significados dúbios, antagónicos, indefinidos. Mundo quântico em explosão. A arte caminha ao lado da ciência. Conhecimento, futuro, infinito gelado e silencioso, espaço sideral. Paraíso perdido na impossibilidade de fixação num lugar determinado. Movimento contínuo. A interminável viagem da vida. A alguém deixaremos o registo da nossa etapa, um testemunho para outros caminhos. Desenhos sobre desenhos. Palimpsesto. Mapas para o futuro. Uma linha sobre a terra é um gesto solitário, arquitetura recriada para o tempo vindouro. Algures haverá chuva. A dureza de um mundo mineral, ou a neve branca, fria como o universo que observamos antes de sermos tomados pelo sono das noites ao relento.

Dia: 29 de abril de 2019, segunda-feira
Lugar referência: Rio Côa, Serra da marofa
Pernoita: Rio Côa, prox. Pinhel
Quilómetros percorridos: 33,7
Quilómetros acumulados: 50,7
Concelhos atravessados: Figueira de Castelo Rodrigo
Cartas militares: 142; 151; 152; 161; 171
Fotografia inicial: dg897184, 05h57
Fotografia final: dg897678, 19h43
Duração trabalho fotográfico: 13h46
Fotografias: 495
Somatório fotografias: 895
Fotografias selecionadas: 87 (17,58%)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Mochila

[Caminhar oblíquo 03] Antes da partida, em processo de sistematização de todo o conteúdo da mochila, também na tentativa de reduzir ao máximo aquilo que levaria comigo, fotografo cada elemento.
— Tenda (uma tenda individual, que já utilizo há quase duas décadas, baixa e leve, cujo único inconveniente é não ter espaço, quando montada, para me sentar no seu interior);

— Dois sacos-cama leves (utilizarei apenas um em noites mais amenas e os dois quando o frio se fizer sentir).
— Colchão de meio-corpo;
— Mudas de roupa, e roupa para dormir;

— Almofada insuflável;
— Poncho para a chuva;
— Escova e pasta de dentes (uma bisnaga pequena a apontar apenas os dias estimados em campo) e dois palitos;

— Protetor solar;

— Chapéu;

— Pequeno saco com primeiros socorros, como adesivo, pensos rápidos, analgésicos;

— "Cartão" tipo canivete suíço, com vários utensílios, como uma lâmina, pinça, alfinete, tesoura entre outros;
— Sabonete, pequeno (que haveria de não utilizar, pois os banhos seriam sempre muito sumários e com a preocupação de não poluir com fosfatos as águas ocasionais de que me servia);

— Lenços de papel;

— Óculos;

— Documentos (cartão de cidadão, cartão multibanco e carta de condução) e algum dinheiro (85,00 €);
— Cartografia com implantação de todo o itinerário (transportei comigo uma cópia da carta militar de Portugal, escala 1/25000, reduzida e, cada folha, cortada em 6 partes por forma a formar um, quase, quadrado. Este quadrado seria depois dobrado em dois e andava no bolso das calças para fácil acesso). O verso da cartografia, não impresso, serviria para tomar apontamentos de campo;
— Esferográfica Bic, com quatro cores;

— Lanterna (frontal);
— Telemóvel (para ser usado com muita moderação, uma vez que a bateria teria que durar os entre 15 e 17 dias estimados para o percurso);

— Kindle (o mais leve e versátil "livro" de que pude dispor, um pequeno luxo, que pode parecer dispensável);
— Câmara fotográfica, lente de 50mm, 224Gb em cartões de memória, 4 baterias suplementares (foi estimada uma bateria para cada três dias de viagem, para um limite de cerca de 7.500 fotografias, ou 500 imagens por dia).
— Relógio;

— Duas garrafas para água, uma de 1,5 litros e outra com metade dessa capacidade (em função dos locais a percorrer, onde estime encontrar, ou não, água, assim doseio a quantidade que transporto comigo);

— Alimentação para 8 dias de caminhada (24 sandes com diferentes conteúdos em função da conservação dos alimentos - os primeiros dias incluem vegetais frescos, como alface e tomate - 20 maçãs, bolachas doces e salgadas, chocolates e barritas. Tudo é rigorosamente contado e ingerido sempre de acordo com o previamente estipulado, em termos de horário. A ideia base é não passar demasiada fome, mas é prevista alguma perda de peso,
— O quadro completa-se com a roupa do corpo, em que o calçado assume uma importância relevante.


segunda-feira, 27 de maio de 2019

28 de abril 2019

[Caminhar oblíquo 02] Um marco geodésico assinala um ponto elevado. O Penedo Durão, não longe de Freixo de Espada à Cinta, é um lugar que, simultaneamente, revela e oculta uma realidade geográfica singular. O rio Douro é um dos elementos mais vincados na estruturação do território português. Vindo de montante, com a direção nordeste-sudoeste, o rio abriu, ao longo de milhões de anos, um profundo sulco sobre terras graníticas, planálticas. Ao “dobrar” o Penedo Durão o rio inflete na direção nascente, como se procurasse agora o caminho mais curto para o mar. Poucos quilómetros à frente, na foz do rio Águeda, o rio deixa de fazer fronteira entre Espanha e Portugal e passa a navegar em território português. A constituição da matéria geológica das suas margens também se altera significativamente. Do granito, do profundo canhão fluvial, passamos para as terras de xisto, com as margens de inclinações menos acentuadas e onde vamos encontrar uma civilização da vinha e do vinho. O Penedo Durão é, assim, uma rótula que articula diferentes paisagens, diferentes mundos. Quando estamos no marco geodésico pode não ser evidente esta variação, mas lentamente começamos a perceber que este ponto é como um farol que põe em diálogo mundos diferentes.
É aqui o ponto de partida para uma viagem que quer traçar uma linha oblíqua sobre o espaço português. É um farol sem luz ao contrário de esse outro que será o destino deste caminhar, o Cabo da Roca. No fundo esta é uma viagem entre dois pontos notáveis entre os quais cabe um país inteiro.

Dado o adiantado da hora da partida, eram cerca de 18 horas, o objetivo deste primeiro dia de caminhada seria a aproximação a Barca d’Alva. Partia de uma cota de 730 metros de altitude para descer cerca de 600 metros, até ao nível das águas do Douro, a rondar os 130 metros. Quase todo o percurso seria feito por estradas de terra e o atravessamento de alguns olivais. Depois tomaria a estrada nacional 221 que, após o atravessamento da ponte Almirante Sarmento Rodrigues, estaria em Barca d’Alva. Já estava a noite feita aquando da passagem da ponte. Dois barcos turísticos estavam atracados. No seu interior pessoas jantavam. O atravessamento do Douro seria como que o abandonar a civilização e mergulhar numa viagem com muitos quilómetros pela frente. Foram mais uns minutos de caminhada, apenas para deixar de ouvir os motores das embarcações, que permaneciam em funcionamento, e procurar um local para passar a noite. No escuro, em solos próximos de um rio, com inclinações mais ou menos acentuadas, nem sempre é fácil encontrar uma área plana para montar a tenda. O sítio não era perfeito mas tinha silêncio e imaginava já a paisagem da madrugada.




















Dia: 28 de abril de 2019, domingo
Lugar referência: Barca d'Alva
Pernoita: Barca d'Alva
Quilómetros percorridos: 17
Quilómetros acumulados: 17
Concelhos atravessados: Freixo de Espada à Cinta; Figueira de Castelo Rodrigo
Cartas militares: 142
Fotografia inicial: dg896784, 17h51
Fotografia final: dg897183, 21h15
Duração trabalho fotográfico: 3h24
Fotografias: 400
Somatório fotografias: 400
Fotografias selecionadas: 48 (12,0%)

Penedo Durão. Freixo de Espada à Cinta. 28 de abril de 2019



Rio Douro. Freixo de Espada à Cinta. 28 de abril de 2019

Rio Douro, Barca d'Alva. Figueira de Castelo Rodrigo. 28 de abril de 2019

Barca d'Alva. Figueira de Castelo Rodrigo. 28 de abril de 2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

Caminhar Oblíquo

No dia 28 de abril domingo, às 18h, iniciava uma viagem pedestre no Penedo Durão, Poiares, Freixo de Espada à Cinta. O objetivo seria o de atravessar uma longa diagonal montanhosa do centro de Portugal e chegar ao Cabo da Roca, Colares, Sintra. Esta é uma linha que divide o Portugal Atlântico, a norte, daquele outro meio país, a sul, sob influência climática da bacia do Mediterrâneo. Iria percorrer essa linha imaginária que, de forma indelével, distingue duas realidades que se entretecem num território relativamente pequeno mas com uma extraordinária diversidade paisagística. Este percurso de limbo, será um espelho disso mesmo.
Quinze dias após a partida, no dia 12 de maio, por volta das 14h30, chegava ao Cabo da Roca. Para trás ficavam 530 km percorridos numa viagem solitária de acentuada dureza, não apenas pela distância percorrida, as noites no campo ou pelo peso da mochila imposto pelos apenas dois reabastecimentos alimentares durante todo o percurso, mas também pela dificuldade de alguns troços atravessados, ou pelo clima a que não faltou o sol intenso e o calor, a chuva persistente, a neve ou o nevoeiro.
O únicos apoios que viria a ter seriam prestados por dois grandes amigos. O Luís Oliveira Santos viajou de Aveiro para se encontrar comigo em Viseu, onde resido, e me transportou para o ponto de partida, próximo do local onde o rio Douro deixa de ser fronteira entre os dois países Ibéricos e passa a correr em território português. O segundo apoio foi prestado no fim da viagem. O João Abreu foi ter comigo ao Cabo da Roca e deixou-me em Queluz. Embora tenha tido a disponibilidade destes e de outros amigos para apoio durante a caminhada, foi desde o início um objetivo a independência e autonomia desta travessia. Mesmo o uso de telemóvel estava extremamente limitado, uma vez que dispunha apenas de uma carga de bateria para todos os dias passados no campo. As comunicações seriam usadas para contactos esporádicos, orientações de recurso, ou para pedir ajuda no caso de acidente em lugar inóspito, contando que tivesse rede.
Foi uma viagem de solidão, um exercício pontual de afastamento a um mundo concreto diverso e disperso. Foi a voz silenciada, imersão em pensamentos, o percorrer toda uma vida em fragmentos de alegria e tristeza, condensada em passos de silêncio. Foram as noites ao relento sob a abóbada celeste e o despertar, na madrugada escura, ao som do chilrear dos pássaros invisíveis. Eram as noites mal dormidas, o cansaço extremo, as dores nos pés e nas pernas antes do adormecer. Era o reerguer-me, sempre com uma irracional determinação, para um novo dia.
Este é o relato sumário dessa travessia, da sempre procurada, na terra, reinvenção, redescobrerta, de um país. Talvez mais do que qualquer questão cultural ou identitária relacionada com o habitar de uma terra ao longo de sucessivas gerações que se perdem num tempo longo, este é também um processo de diálogo com essa mesma terra, com um regresso impossível a uma condição animal em que as angústias decorrentes de uma consciência racional, que se serve da linguagem simbólica e da tecnologia, se esbatem perante o continuado espanto de estar vivo, de descodificar o mundo visível, de atribuir nomes e significados às coisas, de tomar a consciência de um universo de iguais em que nos integramos e não nos distinguimos de qualquer outro ser, de uma árvore, de um inseto, de uma penedo, de uma nuvem.

Itinerário percorrido entre o Penedo Durão e o Cabo da Roca.