segunda-feira, 12 de maio de 2014

Entrar em Bragança

A chegada à cidade grande de Trás-os-Montes representava o fim de um percurso rural e a entrada na civilização. Antes da construção da linha-férrea a viagem do Porto a Bragança fazia-se em cerca de dois dias de viagem, se a meteorologia assim o permitisse, e com condições de segurança precárias, num território muitas vezes inóspito e sujeito a emboscadas de criminosos. Com a construção do caminho-de-ferro, essa duração passa a pouco mais que meia dúzia de horas. Os comboios a vapor adicionaram a uma paisagem arcaica e profundamente isolada uma nova velocidade e a marca do progresso tecnológico. As principais cidades do território de Portugal Continental, na época ainda centro de um vasto império colonial, estavam finalmente ligadas com a velocidade, a segurança e o conforto do transporte ferroviário. Hoje, mais do que em qualquer momento do passado recente, a Linha do Tua confronta-se com o seu fim. A obra da barragem de Foz Tua vai submergir o seu troço mais notável e que lhe confere sentido.
Linha do Tua. Bragança. 2009. (Todas as fotografias)




sexta-feira, 9 de maio de 2014

A descrição da linha

Este itinerário tem início na Linha do Douro, na estação do Tua. Após um curto trajeto, o comboio faz uma curva apertada, para a direita, e entra no vale do rio Tua, que deu o nome à linha ferroviária. O comboio entrava num desfiladeiro extremamente cavado, naquela que foi uma obra notável da engenharia do final do século xix português, afirmação positiva de uma nação num momento em que o Ultimatum inglês fazia tremer a sua identidade. O comboio seguia viagem, numa linha sinuosa, através de uma paisagem grandiosa, até Mirandela, o ponto médio da sua construção e coração da Terra Quente Transmontana. À medida que subia até Santa Comba de Rossas, o ponto mais alto da Linha do Tua, a pendente da linha tornava-se mais acentuada. O comboio atravessava uma paisagem de carácter rural, imagem de uma relação de proximidade e compromisso com a própria Natureza. Por entre castanheiros de grande porte, nas faldas da serra Nogueira, acentuava-se ainda mais o carácter telúrico da viagem. Depois subir continuamente ao longo de 110 quilómetros – desde a estação do Tua, no Douro, a cerca de 80 metros de altitude, até Santa Comba de Rossas, a 849 metros de altitude –, o comboio iniciava a descida para Bragança, 23 quilómetros a norte.
Linha do Tua. 2008. (Todas as fotografias).





terça-feira, 6 de maio de 2014

Povoar

A Linha do Tua continua a ser um itinerário de extraordinária diversidade, que simboliza uma região. Embora os comboios já não circulem, este percurso ferroviário deixou uma marca indelével na paisagem. Este percurso continua a ser extremamente interessante para quem o percorrer, não apenas por lhe estar associado um traçado ferroviário, mas porque atravessa uma multiplicidade de lugares que, no seu conjunto, espelham o carácter de Trás-os-Montes. A construção desta linha de caminho-de-ferro foi uma grande obra da engenharia portuguesa e representou a capacidade de superar as adversidades de uma geomorfologia difícil. Independentemente de uma parte dele estar em vias de ser submerso, é um itinerário que, hoje, nos liga a uma história de povoamento duro e ao processo de união do espaço nacional, num período em que o Nordeste Transmontano vivia num profundo isolamento.
Linha do Tua. 2009 (Todas as fotografias)




segunda-feira, 5 de maio de 2014

Tua, em viagem antiga

No dia 17 de Setembro de 1987 partia do Porto rumo a Barca de Alva. Nesse dia iniciava uma longa caminhada pedestre, solitária, até Miranda do Douro, onde chegaria a 22 de Setembro. No dia seguinte, de madrugada, apanhava uma camioneta com destino a Bragança com o objectivo de aí apanhar o comboio e de fazer a Linha do Tua, um percurso que considerava quase mítico. Apanhava o comboio em Bragança com destino ao Tua e, ainda no dia 23, regressava ao Porto, o ponto de partida da viagem. É um itinerário que quem percorre não esquece.
Deste itinerário não tenho fotografias. Os tempos da película eram de maior contenção e todos os rolos que transportava nessa viagem tinham sido utilizados na viagem pedestre. Hoje apenas guardo na memória essa viagem.
Estação do Tua. Linha do Douro. 1997
Estação de Bragança. 2009

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Luísa Correia Pereira

Luísa Correia Pereira. Pesca Desportiva, técnica mista s/papel arches. 1998
Em 2004 em resposta a um pedido da Fundação Ilídio Pinho, para o projeto Anamnese, escrevi um pequeno texto sobre a pintura de Luísa Correia Pereira. Agora, numa exposição inaugurada no dia 1 de abril na Galeria Ratton, em Lisboa, volto a surpreender-me com o seu trabalho, onde um imaginário inesgotável se exprime com uma força que não pode deixar de impressionar. "A pintura de Luísa Correia Pereira, executada sobre tela, ou aguarela sobre papel, revela uma dimensão de enorme perplexidade e espanto face a um mundo próprio: é a singular construção de um sentido, de enorme expressividade, de uma aparente desarmante simplicidade na representação de formas coloridas, signos, desenhos de um todo que parecem convocar o sagrado. Caminha, sem retorno possível, sobre um limbo: um percurso que tem tanto de difícil e arriscado, como de um irrecusável belo e fascinante mundo de fragmentos, de um novo lugar para habitar, ou um tempo não trilhado. Luísa Correia Pereira, com uma força estranha e poderosa, desenha  um mundo que nos é próximo e distante, lúcido e crítico, cru e terno. Linguagem que é, por fim, um monólogo sobre o humano, sobre uma inesgotável capacidade de inventar, sobre as perplexidades e contradições de um quotidiano surpreendente. Convida-nos para a viagem alucinada e descontínua a todas as idades das nossas vidas, desde o momento actual que vivemos, à mais remota e desconhecida infância."




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Passador

Todas as quinze fotografias que se seguem foram feitas em Viseu,no dia 2 de abril de 2014, entre as 19h46 e as 20h10.
Sem ser apreciador da escrita diarística, hoje ao sair à rua, ao fim da tarde, faz uma série de fotografias, com o telemóvel, do local onde se encontrava ou do curto percurso, entre casa e um supermercado. Havia uma compra que não podia ser adiada devido a uma atividade gastronómica momentânea. Fora comprar um passador e regressava à cidade infinita depois de alguns meses em territórios vagos, outras paisagens.













 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Caminhar antigo

Terreiro do Paço. 20 de novembro de 2013

Há mais de vinte e cinco anos quando estudava em Lisboa e, vivendo em Queluz, tinha que apanhar o comboio em dias de greve de transportes, pensava que um dia faria aquele percurso a pé. Entretanto libertava-me para as grandes caminhadas pedestres pelas serras portuguesas, mas fui deixando o itinerário urbano para mais tarde. Na quarta-feira passada, dia 20 de novembro, não havia greves na CP, mas não quis apanhar o comboio. Saí do Terreiro do Paço por volta das 18h15 e cheguei ao Monte Abraão duas horas e meia depois. Caminhara cerca de 15 quilómetros. Estava cumprido um desejo antigo. Gosto muito de comboios, gosto mais de caminhar.
Monte Abraão. 20 de novembro de 2013