quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Celebração da Cultura Costeira

Praia da Salema. Vila do Bispo. 2002
Hoje está na moda falar do mar, do seu potencial económico. Quase sempre se pensa então, creio, em grandes projetos que, invariavelmente não passam disso mesmo. Todos os dias há homens e mulheres que olham o imenso oceano, que lhe perscrutem os sinais, que no impercetível movimento das marés, na direção e intensidade do vento e com uma intuição estranha e misteriosa, desenham a eminência de uma saída para a pesca. Raramente se ouve falar deste labor, de quem como ninguém enfrenta o mar num quotidiano temerário, em gestos repetidos, milenares.
Celebração da Cultura Costeira foi um projeto que conheci recentemente e que, justamente, propõe-se fixar e inventariar as formas e culturas de relação das comunidades piscatórias com o mar.
Ficam aqui os principais objetivos tangíveis, desta iniciativa, como que o lançamento de uma rede para não deixar escapar um valor cultural ímpar, mas precário e, de alguma forma, ameaçado:
Em http://ccc.mutuapescadores.pt/ é exposto o essencial do projeto.
«Objectivos tangíveis:
- Criar uma rede de inventariantes locais da cultura costeira com o fim de identificar elementos desta herança cultural;
- Sistematizar uma metodologia de formação que possa servir um perfil de inventariante com experiência e prática cultural e profissional diversificadas e que assegure o recrutamento de novos inventariantes locais e a consequente renovação do processo de consciencialização cultural, contribuindo para a emergência de iniciativas de desenvolvimento regional;
- Conceber uma exposição itinerante e publicações que difundam a necessidade e o perfil deste trabalho, uma base de dados on-line e uma unidade de validação, que assegurem a sustentabilidade do processo findo o projecto fundador.»

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Multidão

Litoral de Sintra. 2012
[Ler, fazer, caminhar 12] Antes de subir ao cabo da Roca, desço a uma outra enseada que lhe está localizada imediatamente a sul. É uma paisagem grandiosa, onde enormes afloramentos rochosos se erguem do mar, próximos da costa. Até aqui cruzara-me com cinco pescadores e dois montanhistas, que ensaiavam escalada técnica numa escarpa perto do forte de Espinhaço. Subo finalmente ao Cabo e encontro uma multidão de gente à procura de um pôr do sol, atrás das nuvens. São turistas que ali se dirigem para estarem no ponto mais ocidental da Europa continental. O local é marcado por um cruzeiro, onde se concentram a maior parte das pessoas. Este é seguramente um local muito menos interessante que outros que lhe são muito próximos, como aqueles por onde passei, ou outros mais a norte, como a praia da Ursa, onde pensava não passar agora mas onde acabarei por regressar.
Litoral de Sintra. 2012
Cabo da Roca. 2012
Cabo da Roca. 2012

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Espinhaço

Forte do Espinhaço. Sintra. 2012
[Ler, fazer, caminhar 11] Prossigo a caminhada na direção do Norte. Pouco depois estou no forte do Espinhaço. É o regresso a um lugar onde tinha estado aquando do levantamento feito para o trabalho Portugal Património. Encontro, no espaço que constituíra o terreiro do forte, a lápide evocativa de um pescador que desaparecera naquele local, provavelmente na sequência de uma queda, no dia 22 de janeiro de 2006. Carlos Manuel Ramos Manaia nascera em 1967, e ali fora visto pela última vez. Continuo a caminhada pelo alto da falésia. Desço à enseada de Assentiz, um local deste litoral onde nunca tinha estado, mas que já por ele me deixara seduzir em viagens cartográficas. O acesso não é fácil, mas a enseada apresenta esse carácter de lugar intocado que nos parece falar do principio do mundo, da ausência de leituras humanas das paisagens. Não há muitos lugares em Portugal em que, olhando em redor, não se vejam numerosos vestígios do povoamento humano. Aqui há um quase impercetível trilho desce a ravina, há também detritos diversificados trazidos por um mar muito batido, mas não há muito mais do que isso.
Enseada de Assentiz. Sintra. 2012
Enseada de Assentiz. Sintra. 2012
Enseada de Assentiz. Sintra. 2012


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Desprendimento

Litoral de Sintra, próximo do Forte do Espinhaço. 2012
[Ler, fazer, caminhar 10] Já muito próximo da linha de costa, faço uma primeira paragem para fotografar desabamentos recentes da falésia rochosa. Encontro a rocha viva; o desprendimento de uma superfície vertical com cerca de 15 metros de altura deve ter acontecido neste Outono, talvez com as primeiras chuvas após o Verão. Recordo o vulcão dos Capelinhos, sobre o qual fiz um trabalho em 2007, por ocasião das comemorações do cinquentenário da erupção que lhe deu origem (http://www.duartebelo.com/02-trabalhos/0202-trabalhos/0202_33-dbt0192-fogo_frio/dbt0192_1rt.html). Os Capelinhos representam, de uma forma muito clara, alguns dos processos da fabricação das paisagens e a ação da erosão, marítima e atmosférica, a que a superfície terrestre está sujeita. Habituamo-nos desde cedo a associar às rochas a imutabilidade, face a um tempo devorador que continuamente transforma todos os seres vivos. Um olhar atento para o mundo mineral, revela-nos que nada escapa a essa voragem da seta do tempo, que nem a mais sólida das rochas deixará de a revelar.
Litoral de Sintra, próximo do Forte do Espinhaço. 2012
 











Litoral de Sintra, próximo do Forte do Espinhaço. 2012
Litoral de Sintra, próximo do Forte do Espinhaço. 2012

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O valor e o preço

Portinho da Arrábida. 2012
[Ler, fazer, caminhar 09] Tenho feito uma lista de viagens a realizar; algumas são de regresso, outras são a ida a sítios onde nunca tenha estado. Alguns regressos são para comparar espaço e tempo; outras idas são para melhorar a recolha fotográfica em relação a uma tecnologia mais arcaica. Um trabalho que nunca terá fim, que reencontra a cada viagem novas possíveis direções a tomar. Há novas ideias que surgem para o desenvolvimento de projetos editoriais, sejam em suporte de livro, sejam destinadas à publicação online. Em quase todos os momentos há a procura da viabilidade de uma atividade incerta que, creio, tem um valor elevado, mas um preço baixo, particularmente no tempo atual em que os valores da terra e do trabalho parecem não parar de perder valor, face aos movimentos especulativos ligados ao setor financeiro.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Partir para o mar


[Ler, fazer, caminhar 08] Antes de sair para a primeira viagem, verifico se as duas fotografias já coladas estão prontas, se a secagem correu bem, se não houve escorrimento de cola para sítios indesejados. Estava tudo de acordo com o planeado. A fotografia, quando colocada na vertical, apresenta a robustez necessária. Monto e colo mais uma fotografia matinal e saio para a primeira viagem. Parto em direção a Sintra. Estaciono na Azoia, perto do Cabo da Roca, e inicio a descida para o mar. Sigo trilhos de pescadores. Em breve estou a ouvir a rebentação das ondas. O dia está claro e frio. Algumas nuvens brancas percorrem céleres o céu sobre esta linha de mar agitado.
Litoral. Azoia. Sintra. 2012

Litoral. Azoia. Sintra. 2012


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Colar

[Ler, fazer, caminhar 07] Chegado a casa imediatamente começo o trabalho de corte e montagem das molduras que vão envolver as fotografias. Havia, há sempre, a possibilidade de o trabalho não correr como previsto. Dado o tempo disponível não permitir grandes margens de erro, avanço com as primeiras colagens para assegurar a feitura do trabalho e deixar a escuridão para a secagem da cola. Uso, na maior parte das situações, cola branca, vulgarmente destinada a papel, cartão e madeira, que oferece uma ótima resistência, apesar da secagem ser relativamente lenta, particularmente no inverno, com o tempo frio e húmido. De qualquer forma o comportamento das superfícies coladas é muito bom ao longo do tempo.