segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Debate sobre a cidade de Lisboa

Mesa: Gonçalo Byrne, Joana Vilhena, João Pedro Falcão de Campos, José Adrião, Manuel Salgado, Ricardo Carvalho. Lisboa, 2012.
[Lisbon Ground 6] O espaço urbano comum; alguns edifícios desenhados na afirmação da contemporaneidade; ateliês de arquitetura. Três elementos de fotografia para "falar" sobre a cidade. As cidades são quase sempre feitas de um imenso passado que se perde nas sucessivas vagas, e progressivamente distantes, de um inacessível tempo recuado. Mas essa ancestralidade deixa-nos os vestígios dispersos e desconexos de gestos que perduraram até à atualidade. A cidade, o nosso habitar, a arquitetura, as fotografias, a palavra, são elementos de fabricação da nossa própria existência e possibilidade, num quadro evolutivo, de vida, de milhões de anos. Nos escritórios dos arquitetos como que se desenha a nossa própria evolução, a nossa capacidade adaptativa a um mundo que,  eventualmente, se quer afastar de uma anterior lógica de progresso urbano e social. Talvez o desenvolvimento humano passe agora muito mais por um universo de razão que a cidade edificou, por um quadro de imaginação e criatividade. A arquitetura cria o cenário do futuro humano, cria o tabuleiro, a base, as janelas e os caminhos para onde poderemos caminhar. As poderosas forças de uma natureza-mãe permanecem, muitas vezes ameaçadoras, mas a humanidade soube criar o seu território e o seu afastamento progressivo a um meio hostil de feras e dilúvios devastadores. Vivemos na escala da nossa dimensão e é nesse espaço que construímos o nosso mundo. (As fotografias foram feitas aquando da realização das mesas de debate sobre as arquiteturas e o espaço urbano recente de Lisboa, destinadas à captura de imagem para a realização de um filme de Catarina Mourão).
Mesa: João Gomes da Silva, João Luís Carrilho da Graça, João Nunes, Manuel Graça Dias, Manuel Salgado, Paulo Mendes da Rocha, Ricardo Bak Gordon, Rui Furtado. Lisboa, 2012

Mesa: João Gomes da Silva, João Luís Carrilho da Graça, João Nunes, Manuel Graça Dias, Manuel Salgado, Paulo Mendes da Rocha, Ricardo Bak Gordon, Rui Furtado. Lisboa, 2012




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lisboa é sobrevivência

Terreiro do Paço. Lisboa. 2012

[Lisbon Ground 5] Lisboa é sobrevivência. O que tem acontecido com a evolução da vida na Terra, é que a seguir a uma grande catástrofe, de destruição em massa, a vida volta a florescer, passados alguns milhões de anos, com uma muito maior diversidade e complexidade. Mas com as civilizações, com cidades muitas vezes, o que se segue ao um cataclismo é o abandono do lugar. Lisboa não parou de crescer. Há em novos lugares uma dimensão quotidiana, como que espelho de uma luta contida pela continuidade de um determinado entendimento do território urbano comum, uma paisagem cultural que se ergue contra todas as catástrofes. Há uma discreta imposição da consciência, pelo desenho, das novas arquiteturas, de levar um pouco mais além o pensamento sobre os lugares humanos nesse singular percurso de afastamento progressivo e determinado a uma Natureza-mãe que, ao mesmo tempo que tudo nos parece permitir, nos deixa sempre na certeza do mais inquietante e surpreendente futuro. Estamos afeiçoados por forças poderosas. As cidades são os mais arrojados gestos humanos na construção do seu próprio e único universo, na afirmação de uma espécie, num tortuoso e acidentado quadro evolutivo de vida, num planeta singular.
Alfama. Lisboa. 2012

Lisboa. 2012

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Chiado


Chiado. Lisboa. 2012
[Lisbon Ground 4] Se o momento de destruição maior provocado pelo terramoto, fenómeno geológico de que à época não havia memória em toda a Europa, constituiu o poderoso renascimento de Lisboa, uma nova tragédia urbana, de muito menor escala, pois não vitimou ninguém, vai constituir um novo ponto de viragem do entendimento da cidade. Na madrugada do dia 25 de agosto de 1988 deflagra um grande incêndio no Chiado. Vários edifícios ficam completamente destruídos, apenas permanecendo algumas paredes estruturais. O arquiteto Siza Vieira é chamado para desenhar a reconstrução urbana. O que aconteceu, ao invés do talvez esperado, foi um desenho subtil que acentuou a permanência da arquitetura pombalina, que afirmou a sua contemporaneidade e o seu sentido histórico. O que este gesto contido evidenciava eram as múltiplas possibilidades de uma intervenção sensível numa paisagem urbana de forte carácter identitário. Esta atitude será tomada como referência para intervenções posteriores, em que se opera sobretudo no espaço interior, este sim passa a ser o território de projetos que se prendem fortemente a intervenções inovadoras, reflexas de um tempo envolvente. Este é o coração, e elo de ligação, da urbe atual que entretanto se espraia por limites difíceis de definir. Mas este lugar, a Baixa, continua a ser o ponto de articulação de diferentes malhas urbanas de diferentes épocas.
Chiado. Lisboa. 2012
Chiado. Lisboa. 2012

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A cidade renovada

Terreiro do Paço. Lisboa. 2012
[Lisbon Ground 3] No dia 1 de novembro de 1755 uma cidade milenar é transformada numa escombreira. A um violento terramoto segue-se uma onda gigante que invade a zona ribeirinha da cidade para onde se havia deslocado uma parte significativa da sua população, fugindo dos numerosos focos de incêndio que entretanto deflagraram. Muitos atribuíram aos deuses semelhante gesto de ira contra uma sociedade por outros interpretada como degradada. Foi, no entanto, a vontade, coragem e determinação, de um grupo de homens que em poucos anos reedificou uma cidade nova, num vale entre colinas. Na foz desse pequeno vale edificou-se uma praça que se abre ao rio, ao mar e ao mundo, na expressão tendencialmente perfeita de um sistema de pensamento iluminista e esclarecido. Sobre os escombros de uma cidade medieval, orgânica, adaptada a uma topografia de colinas, foi construída uma malha urbana de escala majestosa que ainda hoje espanta pela sua imponência.
Terreiro do Paço. Lisboa. 2012
Terreiro do Paço. Lisboa. 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Tejo infinito berço

Terreiro do Paço. Lisboa. 2012
[Lisbon Ground 2] O Tejo é como um infinito berço, espaço líquido atemporal que sempre terá exercido um misto de fascínio, pelo que pode dar, e medo, pela sua indeterminada força, acentuada aqui pela presença próxima do mar, elementos que terão condicionado, definitivamente, a fixação de comunidades humanas no lugar, primeiro vindas, talvez, de uma viagem de gerações com início na Europa central. Toda a frente oceânica era uma finisterra. Uma face a partir da qual não era possível ir mais além. Até ao século XV a frente de rio era lugar de várias atividades funcionais ligadas à pesca, mas foi daqui em diante que iriam partir as primeiras naus que transportavam a civilização europeia para lugares antes não visitados por ninguém vindo de longe, por via marítima. Hoje, escavações que se façam neste solo quase invariavelmente se deparam com embarcadouros ou com as fundações de estaleiros navais. Com o passar dos anos já em tempos recentes, desde o advento da revolução industrial, a frente ribeirinha, dada a sua posição a bordejar a cidade, vai assumir-se como um privilegiado eixo viário, seja pela rodovia, seja pela ferrovia. Uma relação lúdica com o rio, em quase toda a sua extensão, é cortada durante mais de cem anos. É algo deste espaço que se pretende agora recuperar, e afirmá-lo também como um notável miradouro sobre Lisboa.
Terreiro do Paço. Lisboa. 2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

2012

Castelo de São Jorge. Lisboa. Abril de 2012
Num momento em que Portugal parece estar à beira de um prolongado colapso que fará tremer a sua própria existência num prazo não muito longo, olho em volta, para o chão que pisamos, e encontro as marcas de uma cultura milenar, cuja raiz se encontra bem mais recuada que a fundação da nacionalidade. Não creio que a culpa da situação que se vive atualmente seja do sistema económico, ou dos mercados financeiros. Vivemos, creio, um dos mais desafortunados momentos da história europeia. Há a reunião de uma invulgar constelação de governantes e dirigentes incompetentes que tomou posse nos mais elevados cargos de países e instituições europeias. Portugal é disso um bom exemplo. A alienação e falta de sentido de Estado de quem neste momento está no poder, em quase todas as oposições e mesmo noutras instituições, apresenta-nos um horizonte de fome para um elevado número de cidadãos.

Os Portugueses não são maus, não são preguiçosos, não são estúpidos, são, na sua enorme maioria, trabalhadores briosos que querem desenvolver as suas atividades, continuar a viver e a construir a Nação das gerações que nos antecederam. Nem creio que precisemos de um pai, de uma moral ideológica mesquinha, ignorante e gananciosa. D. Sebastião não vai voltar. Mas também não precisamos de governantes, dirigentes políticos, que, sem o mínimo de pudor, nos mostram a sua mais fina incompetência e arrogância, sem que delas tenham a mínima noção e que nos prometem o colapso eventual de uma democracia, ou um impensável recuo civilizacional. Continuamos dentro de uma Europa que conquistara o mais elevado desenvolvimento humano do planeta.

Gostava de, em 2013, continuar a fotografar e a trabalhar sobre o espaço português, sobre este tão grandioso lugar de diversidade e afirmação tenaz de uma cultura e de uma língua. Continuar a procura da palavra, a partilha da expressão de um sentir e de um universo de vivências. Continuar os passos encetados com algumas pessoas que conheci neste ano corrente, ou que reencontrei. Trabalhar as memórias, pessoais e coletivas, e a continuada construção do passado.

Nunca fiz balanços de anos passados, mas sobre este ano 2012 avanço algumas linhas. Antes de mais talvez seja aquele em que definitivamente se dissiparam todas as dúvidas sobre a negação do autismo do meu filho Afonso, a quem esse espectro de comportamento fora diagnosticado no Hospital Pediátrico de Coimbra, história de que dei conta recentemente aqui, na Cidade Infinita. História que a meus olhos é como uma metáfora do tempo presente ou a afirmação descontrolada do erro. Mesmo tendo uma tremenda confiança no meu filho, há dúvidas que nos assaltam pontualmente. As crianças dizem-nos, já mo dissera o meu filho mais velho, Pedro, que a vida é um "pontapé para a frente", é a impossibilidade de nos opormos à seta do tempo, à evolução contínua dos seres vivos, de todas as coisas, do pensamento humano. A vida é uma dança, um imponderável equilíbrio, um grande salto. É também, em mim, o acreditar de um enorme vazio que nos rodeia, no qual erguemos uma ilha de racionalidade, um monumento à descodificação progressiva dos mais densos mistérios, à expressão do pensamento aleatório e descontínuo, ao mundo do risco, do traçado numa folha branca, o enunciar de uma arquitetura renovada ou um habitar singular e único. Admirar quem corre sem um fim aparentemente objetivo, quem salta e voa uma fracção se segundo.
Praia do Castelejo. Agosto 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Lisbon Ground

Lisboa. 2012
[Lisbon Ground 1] Uma cidade desenhada por um rio, foi o título de um texto que escrevi para o catálogo/livro da participação portuguesa na 13ª Bienal de Arquitetura de Veneza. A exposição foi comissariada por Inês Lobo, e o conceito foi desenvolvido em torno de uma série de intervenções recentes na cidade de Lisboa, tendo como referência a recuperação do Chiado após o grande incêndio de 1989. Direta ou indiretamente estiveram envolvidos neste debate e reflexão sobre Lisboa contemporânea Álvaro Siza Vieira, Bárbara Rangel, Catarina Mourão, Eduardo Souto de Moura, Francisco Aires Mateus, Gonçalo Byrne, Joana Vilhena, João Gomes da Silva, João Luís Carrilho da Graça, João Nunes, João Pedro Falcão de Campos, João Simões, José Adrião, Manuel Aires Mateus, Manuel Graça Dias, Manuel Salgado, Paulo Mendes da Rocha, Pedro Domingos, Ricardo Bak Gordon, Ricardo Carvalho, Rui Furtado e Rui Mendes. A conceção gráfica do catálogo/livro foi de Pedro Falcão. As fotografias foram da minha autoria. Toda a iniciativa partiu da Direção Geral da Artes.